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‘Vaca Leitora’ estimula paixão por livros com rodas de leitura e cortejos em Belém

O coletivo Ponto de Cultura Biblioteca BombomLER, criado na Marambaia, em Belém, expande o acesso de crianças à literatura há oito anos

Lívia Ximenes

A expansão do acesso aos livros é a missão principal do coletivo Ponto de Cultura Biblioteca BombomLER, que, neste ano, conta com uma nova ferramenta — a Vaca Leitora. Partindo de uma alegoria junina presente em diversas regiões do Brasil, o boi-bumbá, a figura do animal surge para incentivar a leitura em pessoas de todas as idades, especialmente crianças, e segue durante todo o ano. Na manhã dessa quarta-feira (24), a Vaca Leitora esteve com alunos do 3º ano da Escola Estadual de Ensino Fundamental Leonor Nogueira, na Marambaia, mesmo bairro onde o grupo surgiu em Belém.

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Com cortejo, músicas autorais, ciranda e roda de leitura, o coletivo levou o projeto “Toda vez que eu leio um livro, o mundo sai do lugar” à sala de aula. As cadeiras e mesas ficaram de lado, abrindo espaço para a saia de carimbó feita com retalhos de diferentes estampas, que serviu de tapete para as crianças que sentaram no chão. O quadro tornou-se quase invisível, tendo a frente ocupada por adereços, banners, placas e estandartes. Dessa vez, quem deu aula foram as crianças mais velhas, que leram histórias junto aos menores.

“É uma vaca que que surge dentro da cultura popular, porque ela é um brinquedo da cultura popular. E é uma vaca que quer ir mais além: ela quer ser uma vaca leitora, que promove letramentos. Por isso, ela é uma vaca antirracista, antimachista, ela é contra também a violência que hoje está tão intensa contra crianças e adolescentes”, fala a organizadora da Biblioteca BombomLER e coordenadora da Vaca Leitora Cris Rodrigues. O coletivo é formado majoritariamente por mulheres que ensinam, por meio dos livros, sobre pautas sociais. Há oito anos, o BombomLER impacta a vida de pequenos que, em um efeito cascata, trazem outros para o mundo da literatura.

image Cris Rodrigues, organizadora do BombomLER e criadora da Vaca Leitora (Carmem Helena / O Liberal)

O aluno Davi William, de 12 anos, é um dos mediadores mirins. Ele começou ouvindo histórias contadas por outras pessoas e logo se apaixonou pelos livros, que o transformaram em um leitor assíduo que influencia as crianças para quem lê. “O projeto da Vaca Leitora inspira muitas crianças a acreditar”, fala. Davi acha uma diversão participar das ações do BombomLER.

A parte preferida para o pequeno é, sem dúvidas, quando ele pode compartilhar as histórias com os colegas. “Eu gosto de ler para as crianças. Eu não tinha esse hábito de ler para as outras crianças, agora eu tenho. Dá um nervoso no começo, mas, quando eu sentei ali e li, [passou]. Eu amo, gosto muito de criança, então me soltei e consegui ler para elas perfeitamente”, destaca. Sobre o livro preferido, Davi tem uma escolha certa: “A Bolsa Amarela”, da escritora gaúcha Lygia Bojunga. A obra, lançada em 1976, conta a trajetória de Raquel, uma menina questionadora que sente falta de compreensão familiar e vive descobertas.

image Aluno Davi William é mediador mirim de rodas de leitura (Carmem Helena / O Liberal)

A história da Vaca Leitora

Tradicionalmente, os cortejos juninos possuem um boi, mas o coletivo Ponto de Cultura Biblioteca BombomLER decidiu fazer diferente e trouxe uma vaca. Para além de dar mais protagonismo à voz feminina, a Vaca Leitora visa ressignificar o nome do animal, que, por muitas vezes, é dito de forma prejorativa para se referir a mulheres. “Esse espaço sempre foi dado ao masculino, sempre quem está debaixo de um boi é o ‘tripa’. Então, por que não também as mulheres virem e a gente poder ressignificar a palavra ‘vaca’?! É a Vaca Leitora, a vaca que quer vir com os livros, com letramento, que quer fazer coisas diferentes”, fala Cris.

Enquanto os bois possuem os “tripas”, as vacas têm as “tetas”, e a responsável por dar vida à Vaca Leitora é Ludimila Maia. Aos 50 anos, ela realizou o sonho de infância de ser responsável por dar vida ao brinquedo. Ludimila, apaixonada por São João, lembra que quando criança e durante toda a vida desejou ser “tripa”, porém não podia, por ser mulher. “É a periferia, é cultura popular, biblioteca, acesso à leitura, escola pública — tudo isso em território da periferia, espaço da periferia, que promove cultura, acesso à leitura, arte”, destaca acerca do coletivo.

image Ludimila Maia realizou o sonho de ser "teta" e dá vida à Vaca Leitora (Carmem Helena / O Liberal)

“Ver meninas que olham que tem uma vaca, que tem a teta, e aí ela pensa: ‘Olha, eu também posso estar lá, ser a teta, brincar dentro de uma vaca. Eu também posso ser protagonista”, destaca Ludimila. Além de guiar a Vaca Leitora, ela também é teta da Vaca Lume, figura do grupo Ponto de Cultura Boi Vagalume. “A cultura popular é uma cultura de resistência, porque ela é feita pelos territórios, pela periferia. A sociedade cria uma imagem da periferia como espaço de violência, e não é. A periferia é espaço de cultura, de escola pública como essa, com um projeto desse bonito, de biblioteca como a BombomLER. A cultura popular é feita pela periferia, pelos mestres e mestras”, ressalta.

Investimento no presente e no futuro

De acordo com um levantamento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado pela Agência Brasil, 53% das famílias brasileiras dos estados do Pará, Ceará e São Paulo, nunca ou raramente leem livros para pequenos de até 5 anos matriculados na pré-escola. Diante desse cenário, a escolha de crianças para serem alvo das ações do projeto “Toda vez que eu leio um livro, o mundo sai do lugar” torna-se ainda mais relevante. Cris, organizadora do BombomLER e coordenadora da Vaca Leitora, aponta que esse período da vida é de formação de base.

VACA LEITORA - CARMEM HELENA

“A gente veio fortalecer também o projeto na Escola Leonor Nogueira, que já promove a leitura há muito tempo, que já promove letramento há muito tempo. É uma uma escola muito engajada com a formação leitora, que traz as famílias das crianças também para dentro da escola, porque tem um projeto de leitura. Então, olha que legal, olha que significativo você ter uma biblioteca comunitária, onde as pessoas também podem ter acesso ao livro”, comenta.

A vice-diretora da instituição, Maria Lopes, fala que a parceria entre a escola e o coletivo iniciou em 2019 com um interesse em comum: formar uma sociedade leitora. Maria destaca a atuação das professoras Josiane Cavalcante e Karla Cascaz, que, por serem apaixonadas por livros, refletem o hábito nos alunos. “A gente conseguiu ampliar essa essa leitura para a família. Quando os alunos levam na sacola os livros para casa para ler com as famílias, com a mãe, a avó, o avô, a tia ou ler sozinhos, a gente tá ampliando esse objetivo”, afirma.

image Vice-diretora Maria Lopes destaca a parceria entre a escola e o BombomLER (Carmem Helena / O Liberal)

“O impacto nas outras atividades, nas outras disciplinas, é visível. Uma questão muito importante, que é notório, é a autonomia. O projeto trabalha muito com essa questão da autonomia e reflete nas outras disciplinas — língua portuguesa, matemática, história, porque é interdisciplinar. Então, tem muitos efeitos positivos na vida deles, na vida escolar e na vida não escolar também”, conclui.

Apoio da comunidade

O coletivo Ponto de Cultura Biblioteca BombomLER e a Vaca Leitora não se sustentam sozinhos, e, sim, contam com apoio de colaboradores, doadores, artesãos e mestres culturais. O símbolo do grupo e os adereços utilizados no cortejo — como placas, estandartes, barcos e vacas menores — foram criados pela artesã Simone Jares, que ministrou oficinas e, também, fez os livros que ornametam a estrutura da vaca. Em conjunto, o mestre Cuieté da Marambaia, do Ponto de Cultura Boi Vagalume, montou a Vaca Leitora, que tem a saia feita por Delma e Tereza Jardim.

A biblioteca também recebe doações de livros literários, histórias em quadrinhos e gibis, destinados ao projeto “Pegue, leve e leia”, que disponibiliza gratuitamente obras aos moradores da Marambaia. De acordo com o grupo, cerca de 150 exemplares percorrem o bairro mensalmente. Para doar, basta levá-los ao endereço Conjunto Médice I, avenida Maracanã, número 126. Quem não pode levar, deve contactar o coletivo por meio do número (91) 98161-8676.

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