Ruas ganham as cores do Brasil e moradores resgatam tradição da Copa em Belém e Ananindeua
Com bandeiras, pinturas, telões e festas comunitárias, famílias de Belém e Ananindeua revivem tradição que atravessa gerações e movimenta bairros às vésperas do Mundial de 2026
Com a aproximação da Copa do Mundo de 2026, o verde, o amarelo, o azul e o branco já começam a tomar conta das ruas da Região Metropolitana de Belém. Em bairros da capital paraense e de Ananindeua, moradores têm se mobilizado para resgatar uma tradição que atravessa gerações: decorar ruas inteiras para torcer pela Seleção Brasileira. Mais do que uma preparação para os jogos, a iniciativa tem reunido famílias, fortalecido laços comunitários e criado memórias para crianças que nunca haviam vivenciado o clima das Copas do passado. Entre bandeiras, pinturas no asfalto, faixas e muita criatividade, o sentimento é de união e esperança pela conquista do tão sonhado hexacampeonato.
Na passagem Bom Jesus, no loteamento Nova Esperança, no bairro do Coqueiro, 40 Horas, em Ananindeua, os preparativos começaram há cerca de três semanas. A professora Tatiany dos Reis, de 33 anos, conta que a organização mobilizou praticamente toda a vizinhança. “Primeiramente a gente organiza uma reunião aqui na rua. Depois a gente monta um grupo e faz uma coleta. Com esse dinheiro, compramos os plásticos e outros materiais. Fizemos o corte dos plásticos e dividimos por todos os vizinhos. Cada um ficou responsável por amarrar uma parte. Depois organizamos um dia para montar a decoração e também definimos quem faria as pinturas e os desenhos”, explica.
O trabalhou começou há três semanas. Apesar de boa parte da decoração já estar pronta, alguns detalhes ainda estão sendo finalizados. Segundo Tatiany, novas pinturas serão feitas nos próximos dias em trechos da rua. A mobilização, no entanto, não é novidade para os moradores. A tradição existe desde 2010 e, ao longo dos anos, foi crescendo. “Começou pequeno, com alguns vizinhos reunidos, e depois tomou uma proporção maior. Hoje já é uma tradição aqui na rua”, afirma.
Para este ano, a comunidade prepara novidades. A principal delas será a instalação de um telão para acompanhar as partidas da Seleção Brasileira. “Vai ser a primeira vez que teremos um telão. Vamos colocar em frente de casa para reunir os vizinhos. Sempre fazemos brincadeiras com as crianças antes dos jogos, partidas e atividades para a comunidade. É muito animado”, conta.
Telão e brincadeiras
Além do telão, estão previstas brincadeiras, jogos, comidas e outras atrações para transformar os dias de jogo em verdadeiras festas comunitárias. “Esse vai ser o diferencial deste ano. Vai ter telão, brincadeiras, muita animação, vamos simular um drone. Vai ter tudo aqui. Ou seja, muita animação aqui na ‘Bom Jesus’”, destaca. Segundo Tatiany, o custo da decoração não pesa para os moradores justamente porque tudo é dividido entre os participantes.
“Como a gente divide com os vizinhos, acaba não saindo caro para ninguém. O que fica mais custoso é a pintura”, explica. Enquanto isso, em outro ponto da Região Metropolitana de Belém, no Condomínio Viver Castanheira, na Guanabara, uma iniciativa semelhante também tem chamado atenção nas redes sociais. A influenciadora digital Pâmela Cruz, de 26 anos, lidera um grupo de moradores que decidiu resgatar a tradição de pintar as ruas para a Copa. Mãe de um menino de nove anos, ela conta que a motivação principal foi proporcionar às crianças uma experiência que marcou gerações anteriores.
“Começou esse ano. Tem muita criança bem pequenina que não conhecia essa tradição. Elas só ouviam os pais falarem ou viam em vídeos e fotos antigas. Faz um tempo que o brasileiro esqueceu de pintar as ruas. Acho que por isso que a gente parou de ganhar a Copa. E eu quis trazer isso porque eu sou mãe. Tenho um filho de nove anos. E eu queria tirar ele um pouquinho de casa para fazer algo que eu também não fiz. Eu só via quando era criança”, disse.
Após a autorização do condomínio, crianças, pais, avós, tios e amigos se juntaram para colocar a ideia em prática. Os trabalhos começaram em um domingo e seguiram diariamente. “Todo mundo veio ajudar. Um amigo, o Douglas, fez os desenhos e as crianças ficaram ainda mais empolgadas. Desde então, todos os dias, a partir das três da tarde, estamos aqui trabalhando. Com ‘perrengue ou sem perrengue’”, conta. A expectativa é concluir a pintura até o próximo domingo. Ao longo da rua, os desenhos já chamam a atenção de quem passa.
Criatividade
Entre as imagens estão a bandeira do Brasil, a taça da Copa acompanhada de seis estrelas - numa referência ao hexa tão desejado pelos torcedores -, bandeirinhas criadas pelas próprias crianças, o tradicional cachorro-caramelo, a bola oficial da Copa do Mundo de 2026 e um grande desenho do atacante Neymar. A criatividade também ganhou elementos tipicamente paraenses. Um dos desenhos mostra o canarinho tomando uma tigela de açaí do grosso. Outro retrata Nossa Senhora de Nazaré usando um manto inspirado na Copa do Mundo.
“A maioria dos desenhos foi ideia das crianças. Elas queriam o canarinho, o cachorro-caramelo, a bola oficial. A ideia do Neymar e da Nossa Senhora com o manto da Copa também veio delas”, explica Pâmela. A obra será finalizada com referências à identidade amazônica, incluindo o Rio Amazonas, o Ver-o-Peso e a bandeira do Pará. Para viabilizar o projeto, o grupo contou inicialmente com o apoio de uma empresa, que doou as tintas utilizadas na pintura. Agora, com os materiais chegando ao fim, os próprios moradores têm contribuído para garantir a conclusão dos trabalhos.
“Quando as tintas começaram a acabar, os vizinhos e as mães passaram a contribuir para comprarmos mais material e finalizar a rua”, conta. “A expectativa é ganhar a Copa”, afirmou. A tradição se mantém da travessa 3 de Maio, entre a rua Pariquis e a avenida Fernando Guilhon, no bairro da Cremação, em Belém. A iniciativa, organizada pela própria comunidade, deve se estender até a avenida Fernando Guilhon, cobrindo mais de 500 metros de rua.
Um dos organizadores da mobilização é o eletricista Paulo Sérgio Ramos Evaristo, de 64 anos, mais conhecido na comunidade como “Grande Vitelo”. Segundo ele, os trabalhos começaram há cerca de três meses e envolvem dezenas de moradores. “Há três meses atrás começamos a enfeitar a rua, tudo direitinho com os vizinhos, com as crianças. Aqui é um grupo da comunidade”, contou.
De acordo com Paulo Sérgio, mais de 50 pessoas participam diretamente da organização e da montagem da decoração. A comunicação entre os moradores ocorre por meio de um grupo de WhatsApp, onde todos contribuem financeiramente e ajudam no planejamento das ações. “Nós somos mais de 50 pessoas. Tem um grupo de WhatsApp em que todo mundo dá sua contribuição e o serviço foi feito”, explicou.
Entre os moradores envolvidos na mobilização, ele destacou nomes como Gutão, Marcão, Régis, Silvio, André, Lucas e Vitor, além de diversas outras pessoas da comunidade que colaboram voluntariamente. Segundo o organizador, a união dos moradores vai além da Copa do Mundo e já faz parte da rotina cultural da rua, que promove eventos comunitários durante todo o ano. “Aqui entra ano e sai ano e é sempre alegria. Nós temos Carnaval, Réveillon, Natal Solidário, Dia das Crianças, São João. Essa rua aqui é muito bacana para fazer esse tipo de atividade com a comunidade”, afirmou.
Ainda de acordo com Paulo Sérgio, a comunidade já se prepara para reunir os moradores durante os jogos da seleção brasileira no Mundial. A ideia é instalar um telão para que todos acompanhem as partidas juntos. “Nós já estamos nos preparando para colocar um telão aqui para o pessoal assistir aos jogos. Quem quiser vir assistir ao jogo do Brasil é só vir aqui na 3 de Maio para comemorar com a gente”, disse. A confiança no hexacampeonato também faz parte do clima entre os moradores. “Todo mundo está confiante. Nossa rua é uma das mais enfeitadas e decoradas de Belém. Nós nos empenhamos mesmo, seja no sol ou na chuva”, declarou.
Apesar da animação, o organizador destaca que os custos da decoração são altos. Segundo ele, a montagem completa pode ultrapassar R$ 7 mil. “Uma decoração dessa fica em torno de R$ 7 mil ou até mais. Quero agradecer todos os moradores e também as pessoas que não moram aqui, mas ajudam com suas contribuições”, afirmou. Conhecido como “Grande Vitelo”, Paulo Sérgio explicou que o apelido surgiu devido à atuação dele como uma das lideranças comunitárias da área. “Grande Vitelo é um apelido antigo da comunidade. Eu sou um dos líderes daqui do bairro e ajudo na organização das atividades”, contou.
Regras
A Prefeitura de Ananindeua, por meio da Secretaria Municipal de Transporte e Trânsito (Semutran), informa que o Art. 95 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) determina que qualquer intervenção em via pública, incluindo pinturas temáticas, depende de prévia autorização do órgão de trânsito responsável.
A Semutran orienta que essas ações sejam realizadas apenas em ruas transversais e de baixo fluxo de veículos, utilizando preferencialmente tintas à base d’água e de fácil remoção. É proibida a realização de pinturas sobre faixas de pedestres, inscrições de “PARE”, meios-fios, lombadas e demais sinalizações de trânsito, bem como em avenidas e vias de grande circulação sem autorização. A medida busca garantir a segurança viária e a preservação da sinalização pública. A Redação Integrada de O Liberal também procurou a Prefeitura de Belém e aguarda retorno.
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