Praças históricas do centro de Belém estão abandonadas e inseguras, denunciam moradores

Na Praça do Relógio, urubus dividem espaço com homens e mulheres em situação de rua

Dilson Pimentel

O abandono e a insegurança em áreas que deveriam ser de convivência e cartão-postal do centro de Belém têm sido alvo de denúncias de moradores. Na Praça do Relógio, perto da Pedra do Peixe, no Complexo do Ver-o-Peso, os ponteiros do famoso relógio estão parados em 15h40 e a estrutura está sem manutenção. Urubus dividem espaço ao lado de pessoas em situação de rua. Na Praça Dom Pedro II, localizada em frente ao Palácio Antônio Lemos, sede da Prefeitura de Belém, o lago está esverdeado pelo limo e repleto de lixo, como plástico e vidro. Essa área também é refúgio para pessoas em situação de rua.

As duas áreas concentram pontos de tráfico de drogas, tornando quase impossível a frequência da população. O cenário se agrava em meio à crise na assistência social do município, com servidores da categoria em greve - na sexta-feira (6) completou 19 dias de paralisação -, o que escancara a falta de políticas públicas para esses espaços e para quem vive neles.

Algumas pessoas ouvidas pela Redação Integrada de O Liberal se queixaram que aquela é uma área de tráfico de drogas. E, por isso, preferiram não dar entrevistas. Comentaram ter medo de sofrer possíveis represálias de traficantes. A professora de Geografia Juliana Solange Lira, de 31 anos, disse que a situação da praça exige maior atenção do poder público. “A praça precisa ser bem mais vista, não só pelos cidadãos em si, mas pelos governantes. A gente percebe que a praça está largada, que precisa de um cuidado maior com a questão do lixo e um zelo maior. A gente está aqui e não vê profissionais da limpeza no local”, afirmou.

Juliana acrescentou que a presença de pessoas em situação de rua, embora seja uma questão social complexa, também interfere na dinâmica da praça. “É uma problemática que não é só aqui, mas em todo o estado”, observou. A sensação de insegurança é outro fator recorrente. A professora disse que não se sente segura ao circular pela área. “A gente procura esconder nossos pertences, ter mais cuidado e passar por locais mais movimentados. “Não é por preconceito com as pessoas que se encontram nessa situação, mas sim pelo risco de assalto ou agressão”, contou.

Para ela, o abandono faz com que um espaço que deveria ser coletivo acabe se tornando restrito. “Temos muitas praças bonitas. E a praça do Relógio fica perto de um dos nossos maiores pontos turísticos, que é maior feira ao ar livre da América Latina, que é o Ver-o-Peso. Quem vem de fora vê isso, fica com medo e, às vezes, nem volta. Isso acaba impactando até a economia”, afirmou. Durante a permanência no local, Juliana contou que presenciou uma discussão entre um homem em situação de rua e um vendedor. “Para uma pessoa que vem de outro estado ou de fora do país, acaba ficando com medo e retraído e, às vezes, nem volta ao local. E acredito que isso vai impactar um pouquinho na nossa economia”, disse.

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O lago do espaço está esverdeado devido à presença de limo e bastante sujo com garrafas plásticas e garrafas de vidro, restos de marmita e outros resíduos

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Testemunhas relataram à Polícia Civil que a vítima trabalhava no local quando um homem, que estava vestido com blusa de mototáxi e conduzia uma motocicleta Honda Bros vermelha, se aproximou e efetuou disparos contra a vítima

image Professora de Geografia Juliana Solange Lira: “A Praça do Relógio precisa ser bem mais vista, não só pelos cidadãos em si, mas pelos governantes. A gente percebe que a praça está largada" (Foto: Igor Mota | O Liberal)

“Do jeito que está, a praça não é do povo”, diz diarista

A diarista Rosângela Maria Lopes de Oliveira, de 61 anos, também lamentou o estado da Praça do Relógio. “Está abandonada. É triste, cheia de moradores de rua. Dá muita pena”, disse. Ela afirmou que passou a sentir medo depois de um assalto ocorrido na área. “Desde o dia que assaltaram uma moça aqui na praça, eu fiquei com medo. Evito passar, principalmente quando vejo moto se aproximando”, contou. Rosângela observou ainda que o abandono chama a atenção de quem visita Belém. “As pessoas que vêm de fora falam que não está legal”, afirmou. O apelo dela às autoridades é por mais cuidado com o espaço. “A praça é nossa, é do povo, de todos nós. Mas, do jeito que está, não é do povo, está abandonada. Precisa de mais cuidados”, concluiu.

A situação também é preocupante na praça Dom Pedro II, que fica em frente à praça do Relógio. A aposentada Maria Graciete contou que sente medo sempre que precisa passar pela praça do Relógio, ponto onde costuma desembarcar quando vem ao comércio do centro. “Não é fácil. A gente fica com medo de ser assaltado ou até agredido”, disse. Segundo ela, a sensação de insegurança se intensificou após um episódio recente, quando quase foi atacada nas proximidades de uma agência bancária. “Tinha um homem que queria me agarrar para agredir. Tudo isso é usuário”, afirmou.

Para a aposentada, a falta de policiamento contribui diretamente para a ocupação irregular do espaço. “Eles fazem casinhas de plástico, cozinham ali mesmo, usam como moradia. Se tivesse mais policiamento, eles iam ficar com medo”, disse. Maria Graciete também defende políticas públicas voltadas ao acolhimento dessas pessoas. “Podia ter um lugar para abrigar esse tipo de pessoa, tirar eles daqui e devolver a praça para a população”, contou.

image Pessoas em situação de rua e urubus dividem o mesmo espaço às proximidades das praças do Relógio e Dom Pedro II (Foto: Igor Mota | O Liberal)

A percepção de abandono na praça Dom Pedro II também é compartilhada por Maria das Graças Martim de Araújo, empregada doméstica aposentada, que passa pela região quase diariamente. Segundo ela, tanto a falta de segurança quanto a ausência de limpeza são problemas recorrentes. “É abandono de lixo e de segurança. A cidade toda está assim”, observou. Embora diga que nunca tenha sido assaltada nas imediações da praça, Maria das Graças admite sentir receio ao aguardar o ônibus. “A gente fica com medo de ficar ali sozinha esperando”, contou. Para ela, a solução passa por reforço policial e melhorias na manutenção dos espaços públicos. “Falta segurança, falta limpeza, falta tudo”, afirmou.

As duas aposentadas chamam atenção para o fato de que as praças ficam cercadas por prédios públicos e sedes de autoridades, como a Prefeitura de Belém e outros órgãos governamentais. Mesmo assim, os espaços seguem degradados. “Falta articulação entre as autoridades. Um planejamento melhor, uma parceria entre governo, prefeitura e deputados, isso ia dar certo”, disse Maria Graciete.

Denúncias

A greve dos servidores da área de assistência social impacta diretamente nos serviços ofertados às populações mais vulneráveis em Belém. A psicóloga Paula Hinvaitt trabalha no Centro Pop São Brás. Centro Pop é um Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua. “Os serviços não estão funcionando. O Centro Pop São Brás não está funcionando. O Centro Pop Icoaraci está apenas entregando o café da manhã e o almoço. Mas tem uma diferença muito grande no número de pessoas que atendem. No Centro Pop de Icoaraci são 30 pessoas. E, no Centro Pop São Brás, 80 a 85 pessoas”, disse.

“Já não estávamos com o mínimo de servidores para atender a população. Com a greve não tem realmente como abrir o equipamento”, afirmou. Ela explicou que, no Centro Pop São Brás, existe, apenas, uma educadora social de rua, que é o servidor essencial para executar o trabalho com a população em situação de rua porque faz o mapeamento da população em toda a territorialidade. E também faz o perfil do usuário que será acolhido pelos técnicos de referência.

“Por isso a falta de concurso público foi desgastando desde 2018 o quadro de servidores. Muitos já se aposentaram e outros faleceram desde a pandemia de covid 19”, explicou. A falta de servidores sobrecarrega e adoece os servidores e também perde a qualidade do serviço oferecido, afirmou. “Além da falta de investimento adequado da gestão para o sistema único de assistência social. No centro pop são Brás só tem uma assistente social e uma psicóloga da Funpapa”, disse.

Ainda segundo ela, não tem mesa apropriada para os usuários fazerem as refeições. “Não tem um refeitório que seja apropriado para servir as refeições de modo apropriado. Existe um quintal com telha brasilit. É muito quente. Os usuários deitam pelo chão ou em papelão. Existem algumas mesas plásticas de bar que foram doação. O banheiro também não se apresenta de modo a ofertar a privacidade para eles. Seria um momento de ao menos nesse local ter privacidade porque na rua tudo é coletivo”, disse.

Déficit histórico

O educador social Romário Rebelo, que atua na Fundação Papa João XXIII, destacou a importância do Centro Pop como principal porta de entrada da assistência social para esse público em Belém. Segundo ele, o equipamento é uma unidade de média complexidade que oferece atendimento psicossocial, atividades educativas, recreativas e culturais, além de serviços básicos como alimentação, lavanderia e banheiro, funcionando no período diurno, das 8h às 17h.

Segundo ele, o Centro POP também é responsável por encaminhar as pessoas em situação de rua para outras políticas públicas, como os abrigos e as repúblicas - unidades de alta complexidade da assistência social, frequentemente confundidas com albergues. “O Centro Pop é o elo entre a rua e a rede de proteção social. É ali que se constrói o acompanhamento necessário para acessar outros serviços”, explicou.

Além disso, o educador ressaltou que o Centro Pop deve atuar de forma articulada com outras áreas, como saúde - incluindo atendimento de zoonoses para os animais de estimação das pessoas em situação de rua -, educação, alfabetização, emissão de documentos e formação profissional.

Apesar da crescente demanda, Belém enfrenta um déficit histórico na estrutura de atendimento, apontou. Atualmente, a capital conta apenas com dois Centros Pop, localizados nos bairros de São Brás e Icoaraci, ambos operando com equipes de referência abaixo do recomendado pelas normativas técnicas. Cada unidade, segundo as diretrizes do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), pode atender até 80 pessoas por dia, desde que tenha equipe completa.

A situação se repete nos serviços de acolhimento. “Há anos Belém não amplia o número de vagas nos abrigos. Hoje, só existem dois: um masculino e outro destinado a mulheres e famílias. E, até agora, nenhuma república foi implantada, mesmo com o aumento expressivo da população em situação de rua”, afirmou Romário Rebelo.

Para ele, a solução passa necessariamente pela realização de concurso público, tanto para reestruturar os serviços já existentes quanto para ampliar a oferta de atendimento. “Sem profissionais suficientes, não há como garantir a continuidade e a qualidade do serviço”, disse. Romário Rebelo também criticou ações pontuais adotadas pelo poder público. Segundo ele, mutirões e iniciativas isoladas não produzem resultados duradouros. “O que realmente tem impacto é a prestação continuada de serviços especializados de assistência social e saúde. Ações emergenciais, sozinhas, não resolvem o problema”, afirmou.

image A praça do Dom Pedro II, em frente à sede da Prefeitura de Belém, também sinais de abandono e abriga muitas pessoas em situação de rua (Foto: Ivan Duarte | O Liberal)

Ações da prefeitura

A Redação Integrada de O Liberal entrou em contato com a Prefeitura de Belém sobre as denúncias relacionadas ao Centro Pop. Mas, antes dessa solicitação, a prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Segurança, Ordem Pública e Mobilidade (Segbel), já havia informado que a Guarda Municipal de Belém atua diariamente no perímetro da Praça do Relógio, com rondas regulares e patrulhamento preventivo, com o objetivo de coibir práticas criminosas e garantir mais segurança à população que circula pelo local. A secretaria destaca ainda que as ações de segurança seguem de forma contínua, com monitoramento e patrulhamento ostensivo, e reforça a importância de que situações suspeitas ou ocorrências sejam comunicadas imediatamente à Guarda Municipal, por meio da Central 153, para garantir resposta rápida e efetiva.

A Prefeitura de Belém informou que também desenvolve, de forma contínua, ações integradas de proteção social voltadas à população em situação de rua, por meio do Serviço Especializado em Abordagem Social (SEAS) e dos Centros Pop. As equipes atuam diariamente com abordagem social, escuta qualificada e encaminhamentos para a rede, assegurando suporte para alimentação, higiene, regularização documental, acesso à saúde, fortalecimento de vínculos e orientação para inclusão social e oportunidades de trabalho.

O atendimento segue fluxo institucional estruturado, com acolhida e acompanhamento inicial realizados pelo SEAS e pelos Centros Pop e, quando identificado o perfil e a necessidade, é feito o encaminhamento ao serviço de acolhimento institucional, garantindo proteção integral e continuidade do acompanhamento socioassistencial.

Os Centros Pop funcionam em unidades localizadas em São Brás e no distrito de Icoaraci, com atendimento diurno e suporte especializado. A Prefeitura mantém também serviços de acolhimento institucional voltados ao atendimento de pessoas adultas em situação de rua, assegurando resposta 24 horas e atendimento conforme a necessidade. A Prefeitura de Belém informa ainda que tem trabalhado para fortalecer e qualificar essa rede, com medidas de melhoria em andamento e previsão de reestruturação e ampliação da capacidade de atendimento.

Atendimentos realizados pelas equipes da Funpapa em 2025:

- 502 atendimentos pelo Serviço Especializado em Abordagem Social (SEAS)

- 12.327 atendimentos realizados nos Centros Pop

- 96 acolhimentos efetivados nos serviços de acolhimento institucional (SAIF I e SAIF II)*

*Serviço de Acolhimento Institucional para Adultos e Famílias

O que diz a Polícia Militar

A Polícia Militar, por meio do 2° Batalhão, informa que realiza diariamente operações preventivas e ostensivas no trecho, incluindo apoio à Guarda Municipal de Belém, Ordem Pública e Zeladoria do Município.

Origem da praça do Relógio

Também conhecida como Praça Siqueira Campos, a praça do Relógio está localizada no centro comercial de Belém. Foi inaugurada em 5 de outubro de 1931, para homenagear Antonio de Silveira Campos, um dos dezoito revolucionários paraenses heróis do Forte de Copacabana. Anteriormente, no local escolhido para a construção da Praça, existia a Embocadura do Igarapé do Piri. Após foi construído o prédio em que funcionaria a bolsa de valores, porém foi demolido e posteriormente o local passou a chamar-se praça dos Aliados.

O monumento que ornamenta a praça foi demandado pelo Intendente de Belém, Antonio Faciola, no início de 1930, durante o governo de Eurico de Freitas Valle. O relógio, feito de ferro e medindo 12 metros de altura, foi uma encomenda feita à empresa inglesa Walters MacFarlaine, mas o nome da empresa J.W. Benson também aparece como fabricante na própria torre do relógio.

Fonte: IBGE

 

 

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