No inverno amazônico, moradores de Belém desafiam a chuva para manter a saúde em dia
"Dentro do prédio, eu subo a escada se estiver chovendo ou, então, venho para a chuva”, diz O médico veterinário Gilvandro Galvão
Mesmo com dias chuvosos e com temperaturas mais amenas, típicos do inverno amazônico, moradores de Belém procuram praticar exercícios físicos ao ar livre. Para eles, manter o corpo em movimento é uma escolha ligada diretamente à saúde, à qualidade de vida e à independência ao longo dos anos. Aos 61 anos, o médico veterinário Gilvandro Galvão se exercitava, na manhã desta quinta-feira (4), no entorno do Bosque Rodrigues Alves.
Ele disse que o exercício físico é importante em qualquer época do ano, independentemente do clima. Segundo Gilvandro, o essencial é encontrar uma forma de se manter ativo. “O exercício físico é importante sempre, não importa o tempo. Você tem que arranjar um jeito de se exercitar sempre. Dentro do prédio, eu subo a escada se estiver chovendo ou, então, venho para a chuva”, afirmou.
Gilvandro contou que não vê o clima como um empecilho para se movimentar. Para ele, a prática regular está diretamente ligada ao desejo de envelhecer com autonomia. “Eu estou com 61 anos e quero viver independente de ajuda de outras pessoas até onde der. Eu não paro o tempo, mas consigo retardar um pouquinho”, afirmou. Mesmo em dias mais agradáveis, quando a chuva e o clima mais frio despertam a vontade de permanecer na cama, ele garantiu que a disciplina fala mais alto. “Eu sou meio diferente. Acordei cedo, já estou me movimentando”, disse.
Apaixonado por atividades ao ar livre, ele pedala longas distâncias. No último domingo, percorreu 85 quilômetros até Santa Izabel do Pará, pedalando por 3 horas e 20 minutos. “Fui lá, tomei café e voltei”, contou. “A prioridade é a saúde. A coisa que eu amo é correr, pedalar”, contou. Atualmente, ele está retomando a corrida após uma cirurgia de hérnia de disco, priorizando a bicicleta por ter menos impacto. Para quem costuma desistir da atividade física em dias chuvosos, Gilvandro deixa um alerta. “Tem que pensar que, se ficar na cama muito tempo dormindo, talvez ele vai precisar ficar mais cedo na cama. Não vai poder levantar, não vai poder se exercitar. Não vai ser independente. Vai depender de alguém para ajudá-lo. E, às vezes, nem tem quem ajude”, afirmou.
VEJA MAIS:
“Tem que lembrar do caixão primeiro”, diz auxiliar administrativo
O auxiliar administrativo Marcelo Dias, de 52 anos, também não abre mão da atividade física, mesmo quando o tempo não ajuda. Para ele, o exercício é essencial para a saúde. “Sem a saúde, você não consegue viver a sua vida”, disse. Nos dias nublados e chuvosos, quando surge a vontade de permanecer deitado, ele afirma: “Tem que sair. Não adianta chuva, neve, pedra, concreto. Nada pode ser obstáculo para a saúde”.
Fazendo atividade física também no Bosque, Marcelo contou que precisa se exercitar. “Ainda mais eu que estou precisando. Estou com problema de saúde sério”, disse. “Se eu não fizer isso, o meu destino é muito triste”, afirmou. Segundo ele, o foco não é o conforto imediato, mas o futuro e a qualidade de vida. Se tiver saindo, e começa a chover, ele não desiste. “Tem que lembrar do caixão primeiro. Não é a hora”, afirmou. Além da caminhada, ele também joga futebol. “Eu completo o time”, brincou, ao falar sobre sua posição no esporte. Para ele, o importante é seguir se movimentando e cuidando da saúde, apesar das limitações.
A dona de casa Vânia Tomás, de 57 anos, também mantém a rotina de exercícios, ajustando os horários por conta das chuvas mais frequentes. “É muito importante, principalmente para a saúde”, disse. “Eu geralmente faço à tarde os meus exercícios. Mas, como tem chovido muito, eu procuro fazer pela manhã”, explicou ela, enquanto se exercitava na avenida Duque de Caxias.
Segundo ela, sempre que possível, a rotina é mantida, faça sol ou chuva. Vânia contou que, mesmo quando o clima convida a ficar mais tempo na cama, a rotina da casa não permite. “Meu marido sai para trabalhar e eu tenho que levantar para fazer café, fazer essas coisas”, disse. Mesmo podendo voltar a se deitar, ela prefere continuar a lida e incluir a atividade física no dia a dia. Pensando na saúde, Vânia pratica caminhada, corrida e utiliza os aparelhos disponíveis ao longo da ciclofaixa. “O importante é se movimentar. A gente é obrigada a se movimentar”, reforçou.
"Tente manter um ritmo que respeite o seu corpo”, diz professor de educação física
O professor de educação física e personal trainer Bernardo Sálvio disse que, embora tenhamos um “inverno”, ele não é igual ao de outros lugares do mundo, onde a temperatura baixa drasticamente e as chuvas são mais intensas. “Como Belém está a cerca de 10 metros acima do nível do mar, durante a maré alta ainda há o risco de alagamento em muitos pontos onde se pratica atividade física”, disse. “Além disso, o trânsito e a segurança ficam comprometidos nessas condições, e esses locais devem ser evitados. Também é preciso atenção redobrada com raios e árvores, que podem colocar em risco a integridade física do praticante”, afirmou.
É importante que a pessoa tente manter um ritmo que respeite o seu corpo e não o leve a um choque térmico. Faça alongamentos básicos para soltar a musculatura, que pode sentir a mudança de temperatura, e capriche na hidratação.
“Mesmo que a temperatura caia muito pouco, já que o nosso ‘inverno’ é marcado mais pela chuva do que pela queda de temperatura, o corpo continua precisando de água, mesmo sem a percepção clara de sede. A hidratação atua como regulador térmico e é essencial para manter o bem-estar durante a atividade física”, disse Bernardo Sálvio.
Se houver descuido nesse aspecto, o desempenho nos exercícios, como na corrida, pode ser prejudicado pela dificuldade do corpo em se resfriar. A umidade elevada impede a evaporação do suor, o que acelera o cansaço e aumenta o risco de tontura, náusea, cãibras e desidratação, afirmou.
Sobre quais impactos na saúde física e mental podem surgir quando a pessoa interrompe totalmente a prática de exercícios por causa dos dias chuvosos, ele respondeu: “Será mais um dia em que a pessoa deixa de cuidar de si. Por isso, é importante tomar todos os cuidados possíveis para manter a prática de atividade física com segurança e continuar obtendo resultados”.
Ainda segundo Bernardo Sálvio, a interrupção frequente dos treinos pode levar à perda de condicionamento físico, redução da resistência, queda no rendimento e maior dificuldade para retomar a rotina. “No aspecto mental, a falta de exercício pode contribuir para o aumento do estresse, da ansiedade, da irritabilidade e da desmotivação, já que a atividade física também atua diretamente na liberação de hormônios ligados ao bem-estar”, afirmou.
DICAS
Escolha locais seguros para se exercitar
Em dias chuvosos e de maré alta, evite áreas com risco de alagamento, trânsito intenso ou pouca segurança. Também é fundamental ter atenção redobrada com raios e árvores, que podem representar perigo à integridade física.
Respeite o ritmo do seu corpo e evite choque térmico
Mantenha um ritmo compatível com suas condições físicas e faça alongamentos básicos antes da atividade. Isso ajuda a preparar a musculatura, que pode sentir a mudança de temperatura, mesmo que ela seja sutil.
Capriche na hidratação, mesmo sem sentir sede
Apesar de o “inverno” em Belém ter pouca queda de temperatura, o corpo continua precisando de água. A hidratação atua como regulador térmico e é essencial para o bem-estar e o desempenho durante os exercícios.
Não interrompa totalmente a prática de exercícios
Parar por causa da chuva pode levar à perda de condicionamento físico, queda no rendimento e maior dificuldade para retomar a rotina. Além disso, a falta de atividade física pode aumentar estresse, ansiedade, irritabilidade e desmotivação, já que o exercício está diretamente ligado à liberação de hormônios do bem-estar.
Fonte: Professor de educação física e personal trainer Bernardo Sálvio
Palavras-chave
COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA