Nem nas férias? Pesquisa mostra que 35% dos viajantes não conseguem se desconectar da rotina
Especialista explica por que o cérebro continua em estado de alerta durante o descanso e dá dicas para aproveitar melhor as férias
As férias chegaram, mas para muita gente descansar continua sendo um desafio. Mesmo longe do trabalho, há quem mantenha o hábito de responder mensagens, conferir e-mails ou acompanhar notificações do celular, dificultando o relaxamento e a recuperação do estresse acumulado.
Uma pesquisa da Priority Pass, empresa especializada em programas de acesso a salas VIP em aeroportos, mostra que 35% dos viajantes têm dificuldade para se desconectar da rotina durante as viagens. O levantamento, realizado com 8.500 pessoas em 11 países, também aponta que 73% se preocupam em perder mensagens quando estão longe do celular e 67% afirmam sentir mais estresse com o aparelho desligado do que ligado.
Os números refletem uma realidade cada vez mais comum: a hiperconectividade faz com que o cérebro permaneça em estado de alerta mesmo durante períodos destinados ao lazer.
Por que é tão difícil relaxar nas férias?
Segundo Carolina Hanna Chaim, psiquiatra do Hospital Sírio-Libanês, o cérebro demora para entender que o período de descanso realmente começou.
"Respostas crônicas ao estresse aumentam a atividade de regiões cerebrais ligadas à vigilância e à antecipação de ameaças. Quando a pessoa entra em férias, o cérebro não muda automaticamente de ritmo. Ele continua operando como se precisasse responder a demandas urgentes o tempo todo", explica.
De acordo com a especialista, a dificuldade também pode estar relacionada à forma como muitas pessoas constroem sua identidade em torno do trabalho.
"O trabalho excessivo pode servir como fuga de questões pessoais e emocionais. Quando as férias chegam, essa barreira desaparece e a pessoa se vê obrigada a lidar consigo mesma, o que pode gerar desconforto e até aumentar a vulnerabilidade ao adoecimento", afirma.
Cultura da produtividade dificulta o descanso
Outro fator apontado pela médica é a valorização constante da produtividade. Na prática, estar sempre ocupado passou a ser visto como sinônimo de competência, enquanto descansar ainda desperta sentimento de culpa em muitas pessoas.
"Existe uma pressão permanente para otimizar o tempo, estar disponível e responder rapidamente. Aos poucos, o descanso passa a ser encarado como algo ilegítimo, enquanto o cansaço extremo é normalizado como parte do sucesso", observa.
Quando a dificuldade para descansar merece atenção?
Segundo a psiquiatra, um dos principais sinais de alerta é a incapacidade de se desconectar mesmo quando não existe nenhuma demanda urgente.
"Quando alguém não consegue controlar o impulso de verificar e-mails ou mensagens de trabalho sem necessidade, vale a pena investigar o que está acontecendo. Em alguns casos, isso já afeta relações familiares, sociais e a própria saúde mental", afirma.
Insônia, irritabilidade, ansiedade persistente e comportamentos compulsivos relacionados ao uso do celular, alimentação, álcool ou jogos também podem indicar que é hora de procurar ajuda profissional.
Como descansar melhor nas férias?
Segundo Carolina Hanna Chaim, pequenas mudanças de hábito podem ajudar o cérebro a desacelerar e aproveitar melhor os dias de descanso.
- Desacelere aos poucos: reduza o ritmo nos dias que antecedem as férias.
- Evite excesso de compromissos: não transforme o período de descanso em uma agenda cheia.
- Diminua o consumo de cafeína: estimulantes dificultam o relaxamento.
- Afaste-se do celular por algumas horas: a pausa pode causar estranhamento no início, mas tende a trazer benefícios para a atenção e o bem-estar.
- Pratique atividades físicas leves: caminhadas ajudam a aliviar o estresse.
- Invista em atividades prazerosas: leitura, música, meditação, massagens ou qualquer prática que gere bem-estar podem contribuir para a recuperação física e mental.
- Permita-se descansar: encare o descanso como uma necessidade para preservar a saúde física e mental.
"O cérebro precisa reaprender que nem toda notificação exige uma resposta imediata. Descansar não é sinal de fraqueza nem perda de produtividade, mas uma condição fundamental para que o organismo se recupere, preserve a saúde mental e continue funcionando de forma saudável", conclui a especialista.
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