Exercício em família ganha espaço e fortalece saúde física, emocional e os laços entre pais e filhos
Especialistas destacam que a prática conjunta de atividades físicas aumenta a motivação, melhora a qualidade de vida e contribui para o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes
Em meio à rotina cada vez mais corrida, encontrar momentos para reunir a família nem sempre é uma tarefa fácil. No entanto, um hábito tem aproximado pais, filhos e até avós: a prática de atividades físicas. Seja na academia, em caminhadas, corridas, passeios de bicicleta ou outras modalidades esportivas, cada vez mais famílias têm encontrado nos exercícios uma oportunidade de cuidar da saúde e fortalecer os vínculos afetivos.
A tendência tem sido observada em academias de Belém. Segundo o personal trainer Gabriel Guimarães, que atua em uma academia no bairro da Cremação, o aumento da procura por atividades físicas envolvendo diferentes gerações da mesma família tem se tornado cada vez mais evidente.
Exercício em família ganha espaço e fortalece saúde física, emocional e os laços entre pais e filhos
De acordo com ele, o movimento começou a ser percebido inicialmente entre os idosos e, mais recentemente, passou a incluir também crianças e adolescentes. “É visível e notório o movimento das famílias vindo para dentro das academias. Há algum tempo já percebemos o aumento do número de idosos aderindo à musculação e às atividades aeróbicas. Ultimamente, também cresceu muito a procura de crianças e adolescentes por treinamentos mais especializados e individualizados”, observou.
Gabriel explica que a musculação continua sendo a principal modalidade procurada pelos alunos, independentemente da faixa etária. No entanto, o acompanhamento profissional é fundamental para adequar os exercícios às necessidades de cada pessoa. “A gente procura entender o nível de condicionamento físico, identificar possíveis limitações e propor exercícios adequados para cada perfil, sempre com acompanhamento próximo e orientação profissional”, destacou.
Segundo ele, embora muitas pessoas procurem a academia em busca de emagrecimento, a saúde e a qualidade de vida têm sido os principais objetivos observados. “Hoje recebemos muitas pessoas com dores nos joelhos, na coluna e outras limitações. Conseguimos adaptar os treinos para ajudar no controle dessas dores. Claro que muitas pessoas também buscam melhorar a aparência física, mas a qualidade de vida tem sido uma motivação cada vez mais presente”, afirmou.
O personal trainer ressalta ainda que a prática em família favorece a adesão e a permanência nos exercícios. “Quando os familiares treinam juntos, acontece o que chamamos de apoio social. Eles se incentivam, se apoiam e acabam permanecendo por mais tempo na atividade física. Além disso, o treino fortalece a conexão entre os próprios familiares”, explicou.
Uma decisão que transformou a rotina da família
Os benefícios relatados por especialistas podem ser observados na rotina da família da professora Bethânia Gomes, 41 anos, Cantídio Filho, 45, e Arthur Gomes, 12. Desde o início deste ano, os três passaram a frequentar a academia juntos.
Segundo Bethânia, a decisão surgiu após diversas tentativas frustradas de manter uma rotina de exercícios. “Eu sempre começava e parava. Muitas vezes vinha aquele desânimo e eu pensava que poderia estar em casa com a minha família. Mas era algo que eu queria muito fazer. Então convidei meu marido para vir comigo e deu muito certo. Depois percebemos que nosso filho também precisava de uma rotina diferente e resolvemos trazê-lo junto”, contou.
A família costuma iniciar os treinos com atividades aeróbicas, como esteira, bicicleta e elíptico, antes de seguir para os exercícios de musculação. “A gente se desafia todos os dias. Às vezes, é para ver quem consegue fazer mais repetições ou executar melhor um exercício. Isso torna tudo mais divertido. Não é só a gente incentivando nosso filho. Muitas vezes ele também nos desafia e nos motiva”, comentou.
Bethânia afirma que as mudanças já são perceptíveis no dia a dia. “A qualidade de vida melhorou muito. A gente ganhou mais confiança, mais disposição e percebe que consegue realizar atividades que antes causavam muito cansaço. O emagrecimento aconteceu, mas o principal benefício foi o condicionamento físico”, ressaltou.
Ela recomenda que outras famílias também adotem a prática. “Vale muito a pena fazer atividade física em família. Sempre existe alguém para incentivar quando bate o desânimo. Quando um não quer ir, o outro motiva. Isso faz toda a diferença para manter a rotina”, afirmou.
Mais disposição para a escola e para as atividades do dia a dia
Para Arthur Gomes, a experiência começou com certa resistência. Acostumado à natação e ao judô, ele não gostou da ideia de trocar o esporte pela academia. “No começo eu não queria muito. Eu gostava bastante do judô e fiquei triste quando precisei parar. Mas depois que comecei a frequentar a academia fui gostando cada vez mais”, relatou.
Hoje, o estudante afirma perceber mudanças significativas tanto na saúde física quanto no bem-estar emocional. “Eu me sinto muito melhor fisicamente e mentalmente. Além disso, ter todo mundo ao meu lado me dá mais incentivo. A gente se ajuda e faz várias atividades juntos”, disse.
Entre os exercícios preferidos estão os polichinelos, atividade que ele já praticava durante os treinos de judô. “Eu gosto muito de polichinelo porque me lembra o judô e porque me deixa mais desperto”, comentou.
Os reflexos da nova rotina também chegaram à escola. “Minha sala fica no quarto andar. Antes eu me cansava muito para subir as escadas. Agora quase não canso mais”, destacou.
Combate ao sedentarismo e mais qualidade de vida
Para Cantídio de Filho, a principal motivação para iniciar os treinos foi a necessidade de combater o sedentarismo. “A saúde começou a cobrar a conta. Eu passava muito tempo trabalhando, tanto presencialmente quanto de forma remota, e percebi que precisava mudar alguns hábitos. Foi aí que decidimos começar juntos”, explicou.
Segundo ele, a atividade física trouxe ganhos importantes para a disposição diária. “Quando você pratica exercícios, ganha mais fôlego para as tarefas do dia a dia. Hoje consigo caminhar muito mais do que antes. Coisas simples que pareciam cansativas ficaram mais fáceis”, afirmou.
Cantídio acredita que o apoio familiar é um dos principais fatores para manter a disciplina. “A família funciona como um incentivo permanente. Quando um está mais cansado, o outro ajuda. Sempre existe um apoio emocional para continuar”, destacou.
Benefícios vão além do condicionamento físico
O psicólogo e docente de Psicologia Adymailson Santos explica que a atividade física em família promove benefícios que vão muito além da saúde corporal. “A prática de atividade física em família fortalece os vínculos afetivos porque cria momentos de convivência, cooperação e diversão compartilhada. Esses momentos favorecem a aproximação emocional e permitem que os familiares construam memórias positivas juntos”, explicou.
Segundo ele, os exercícios também contribuem para a redução de conflitos e para uma comunicação mais saudável. “Quando a família participa de atividades físicas em conjunto, cria-se um ambiente mais leve e acolhedor para a interação. O exercício ajuda a reduzir o estresse e a tensão emocional, além de estimular o diálogo, a escuta e a cooperação”, afirmou.
Para crianças e adolescentes, os benefícios emocionais são ainda mais expressivos. “A atividade física contribui para o desenvolvimento da autoestima, da autoconfiança e da sensação de competência. Também auxilia na regulação emocional, reduzindo sintomas de ansiedade e estresse”, destacou.
Conexão, pertencimento e motivação
O mestre e doutor em Psicologia Social e Clínica Marcelo Moraes Moreira reforça que a prática conjunta de exercícios cria experiências compartilhadas capazes de fortalecer os vínculos familiares. “Durante a atividade física, o corpo libera substâncias relacionadas à conexão social. Além disso, a família sai da rotina doméstica e passa a compartilhar novas experiências. Isso fortalece os vínculos e favorece uma convivência mais afetiva e próxima”, analisou.
Segundo ele, a atividade física também reduz os níveis de estresse e favorece a resolução de conflitos. “O exercício reduz o cortisol, conhecido como hormônio do estresse. Isso diminui a reatividade emocional e favorece habilidades como escuta, paciência, cooperação e empatia. Muitas vezes, conflitos que parecem grandes dentro de casa tendem a se dissipar quando as pessoas compartilham experiências positivas fora desse ambiente”, explicou.
Marcelo destaca ainda que a participação da família é especialmente importante durante a infância e a adolescência. “A atividade física fortalece a autoestima, ajuda na regulação emocional e desperta o sentimento de pertencimento. Quando a família se reúne para praticar exercícios, a criança e o adolescente percebem que fazem parte de um grupo que os apoia e acolhe”, afirmou.
Para o especialista, o apoio familiar é um dos fatores mais importantes para a manutenção de hábitos saudáveis ao longo da vida. “Uma motivação sustentada a longo prazo depende muito menos da força de vontade individual do que do ambiente social. Quando a família participa das atividades, o hábito deixa de ser uma obrigação individual e passa a fazer parte da identidade daquele grupo”, observou.
O exemplo que começa dentro de casa
O cardiologista Herbert Lima Mendes destaca que um dos maiores desafios relacionados à atividade física é justamente dar o primeiro passo e manter a regularidade ao longo do tempo. “Quando você faz atividade física acompanhado, seja pela família ou por um grupo, existe um estímulo maior para começar. E depois existe outro desafio, que é a manutenção. Muitas vezes surgem desculpas para faltar ao treino, mas quando há outras pessoas envolvidas, uma acaba incentivando a outra a continuar”, explicou.
Segundo ele, o exemplo dos pais exerce forte influência sobre os filhos. “Quando a criança vê os pais correndo, andando de bicicleta, nadando ou praticando qualquer atividade física, ela tende a se interessar e querer participar também. Além disso, existe o estímulo direto dos pais, convidando os filhos para fazer parte dessas atividades”, destacou.
O cardiologista ressalta que as atividades devem ser adaptadas à idade e ao condicionamento físico de cada pessoa. “Para crianças menores, caminhadas leves, passeios de bicicleta e pequenas trilhas podem ser boas opções. Já adolescentes e adultos podem participar de corridas, trilhas mais longas e pedaladas, sempre respeitando os limites individuais”, explicou.
Herbert lembra que a recomendação geral é acumular entre 150 e 300 minutos semanais de atividade física moderada ou entre 75 e 150 minutos de atividade intensa. “O mais importante é que a prática seja regular, segura e acompanhada por orientação profissional quando necessário. Antes de iniciar qualquer atividade, especialmente para pessoas sedentárias ou com algum problema de saúde, é fundamental realizar uma avaliação médica”, concluiu.
Mais do que uma estratégia para melhorar o condicionamento físico, a atividade física em família tem se mostrado uma ferramenta para fortalecer relacionamentos, estimular hábitos saudáveis e criar momentos de convivência em uma sociedade cada vez mais conectada às telas e menos ao contato presencial. Para especialistas e praticantes, os benefícios vão muito além da saúde do corpo: eles alcançam também a saúde emocional e a qualidade das relações familiares.
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