Com acompanhamento adequado, idosos neurodivergentes têm autonomia e qualidade de vida

Apesar dos impactos negativos do diagnóstico tardio, especialista reforça que nunca é tarde para investigar e intervir

Fernando Assunção (Especial para O Liberal)

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que acompanha a pessoa ao longo de toda a vida. Ainda assim, no Brasil, milhares de indivíduos chegam à velhice sem nunca terem recebido um diagnóstico. Uma análise da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), com base no Censo de 2022, aponta que 0,86% da população brasileira com 60 anos ou mais, o equivalente a 306.836 pessoas, se autodeclara autista.

A professora e psicopedagoga Albéria Vilaça, especialista em educação inclusiva e integrante do programa de envelhecimento da Apae Belém, explica que, por décadas, o autismo foi pouco debatido, mal compreendido e frequentemente confundido com traços de personalidade, timidez extrema ou apenas um “jeito de ser”. “Não havia informação nem estrutura para identificar o TEA ou outras neurodivergências”, ressalta.

Segundo a especialista, o diagnóstico tardio é reflexo direto desse apagamento histórico. “A deficiência nasce com a pessoa, mas muitas vezes passa despercebida pelos familiares”, afirma. Na velhice, o desafio se intensifica: sinais como dificuldades de comunicação, sensibilidade a ruídos ou mudanças bruscas de comportamento podem ser facilmente confundidos com depressão, Alzheimer ou outras condições associadas ao envelhecimento, o que dificulta ainda mais a identificação correta.

“O diagnóstico tardio em qualquer deficiência já é preocupante. Quando falamos de envelhecimento, é ainda mais grave, pela ausência de estímulos precoces e pela perda de um período fundamental para oferecer suporte adequado, garantindo qualidade de vida, saúde, autonomia e autoestima”, destaca Albéria.

Apesar dos impactos negativos, a especialista reforça que nunca é tarde para investigar e intervir. “Não é porque estou envelhecendo que vou perder a oportunidade de aprender. Nós comprovamos isso todos os dias aqui. Os ganhos são surpreendentes”, afirma.

Atualmente, cerca de 60 alunos participam do programa de envelhecimento da Apae Belém, voltado à promoção da autonomia e da qualidade de vida. O atendimento é destinado a pessoas com algum tipo de neurodivergência a partir dos 30 anos de idade, já que essas condições podem acelerar o processo de envelhecimento. A instituição acompanha pessoas da infância à velhice, integrando saúde, assistência social e educação.

“O envelhecimento, por si só, já é um desafio. Sabemos que o idoso, na nossa sociedade, muitas vezes vive à margem. Quando se trata de um idoso com deficiência, a vulnerabilidade é ainda maior”, alerta Albéria.

Para fortalecer a autonomia, o programa trabalha o que a especialista chama de “leitura funcional do mundo”. “Queremos que eles saibam escrever o nome deles, identificar o ônibus correto, localizar uma farmácia, um supermercado, reconhecer produtos para não comprar errado. Trabalhamos o máximo possível a autonomia e a autogestão, porque, enquanto eles envelhecem, os pais envelhecem ainda mais. A grande preocupação é como essa pessoa ficará na ausência de quem cuida”.

Celina Moraes é exemplo de autonomia construída ao longo da vida

A trajetória de Celina Moraes, de 66 anos, ilustra como o acompanhamento contínuo pode transformar o envelhecimento. Diagnosticada com deficiência intelectual, ela é aluna da Apae Belém há mais de três décadas e hoje vive sozinha, com independência.

“Eu pinto, faço letra, desenho, faço ginástica, faço no computador. Tudo eu faço”, conta, com orgulho, enquanto demonstra que aprender a escrever o próprio nome na Apae.

Celina se desloca sozinha pela cidade, saindo de sua casa em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém, até a sede da Apae, no centro da capital. Ela também administra sua rotina e suas finanças. “Eu desço ali no Almirante e pego o Sacramenta Nazaré. Sei ir, sei voltar para casa. Mando mensagem para a professora avisando que já cheguei. Sozinha e Deus”, relata.

A independência se reflete também no dia a dia. “Sei fazer compra, pago minhas contas, pago loja, pago a minha luz, que é baixa renda. Tudo eu faço”, afirma.

Sem familiares próximos, Celina reconhece na Apae sua principal rede de apoio. “Eu não tenho mãe, mas tenho Deus por mim. E a Apae, que me ajuda, me dá cesta básica, e as professoras que me tratam bem. Se eu pudesse, vinha todo dia para cá”.

Albéria reforça a importância desse vínculo. “A Celina mora sozinha e não tem mais familiares. A Apae acaba sendo o ponto seguro dela. Nós nos falamos todos os dias. Ao mesmo tempo, ela tem uma autonomia incrível: organiza o dinheiro, sabe quando pagar os remédios, vai à farmácia, ao supermercado. Esse é o principal foco do nosso trabalho no processo de envelhecimento.”

Acesso a laudos ainda é desigual

O acesso ao diagnóstico formal ainda é marcado por desigualdades. Mesmo para crianças, a obtenção de laudos e terapias pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é um desafio. Para idosos, a dificuldade é ainda maior.

“Se hoje já existe uma grande barreira para crianças conseguirem diagnóstico e atendimento adequado, para a pessoa em processo de envelhecimento essa dificuldade triplica”, pontua Albéria.

A especialista também alerta para o risco de diagnósticos apressados e incompletos. “Ninguém fecha um laudo de autismo ou de qualquer deficiência com uma única avaliação. É fundamental uma equipe multiprofissional para garantir um diagnóstico responsável e preciso”, finaliza.

 

Assine O Liberal e confira mais conteúdos e colunistas. 🗞
Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱
Belém
.
Ícone cancelar

Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo!

Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é.

Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos.

Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado!

ÚLTIMAS EM BELÉM

MAIS LIDAS EM BELÉM