'Burnout' provoca explosão de afastamentos do trabalho e afeta jovens profissionais em Belém
"Tudo meio que se somou: a cobrança pessoal, emocional e profissional”, diz a analista de marketing Rayara Lins, de 27 anos
O esgotamento provocado pelas rotinas de trabalho tem afastado cada vez mais brasileiros de suas atividades profissionais. Em um intervalo de apenas quatro anos, os casos de afastamento por Burnout - Síndrome do Esgotamento Profissional - cresceram de forma expressiva no país. Dados do Ministério da Previdência Social (MPS) mostram que os auxílios-doença concedidos por esgotamento no trabalho e falta de lazer passaram de 823 registros, em 2021, para 4.880 em 2024, um aumento de 493%.
Os registros de auxílios-doença concedidos por esgotamento no trabalho e falta de lazer saltaram de 823 casos, em 2021, para 4.880 em 2024. Entre os fatores apontados para o avanço desses adoecimentos estão o home office, o aumento do tempo conectado, a informalidade e a chamada “uberização” do trabalho.
Em Belém, a analista de marketing Rayara Lins, de 27 anos, viveu de perto os impactos do Burnout. Os primeiros sinais surgiram a partir de uma pressão intensa no ambiente de trabalho, somada a dificuldades pessoais enfrentadas fora da empresa. À época, Rayara já estava havia um ano na empresa, período marcado por tentativas de melhorias internas e por três mudanças de gestão.
Segundo ela, houve duas ou três trocas de chefia, algumas comandadas por pessoas que, na avaliação dela, não tinham plena capacidade para ocupar cargos de liderança. A falta de reconhecimento profissional também pesou. “Tudo meio que se somou: a cobrança pessoal, emocional e profissional”, conta. No fim do ciclo na empresa, a pressão se intensificou, o que afetou diretamente sua saúde mental. Rayara passou a apresentar crises de ansiedade e episódios frequentes de choro no trabalho, chegando a chorar copiosamente pelo menos três vezes durante o período mais crítico. Diante do quadro, buscou ajuda profissional e iniciou acompanhamento psicológico, pois já não conseguia mais lidar com a situação.
Ela contou que a cobrança da chefia era constante, independentemente do seu estado de saúde. Em um episódio específico, durante a organização de um evento corporativo, Rayara pediu liberação em um dos dias, alegando cansaço extremo e dores físicas. O estresse acumulado havia provocado inflamação na lombar e na coluna. O pedido foi negado. Segundo ela, o chefe afirmou que só liberaria caso fosse apresentado um atestado médico.
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Sobrecarga de trabalho
Mesmo sobrecarregada, Rayara participou dos dois dias do evento. No segundo dia, já não conseguia permanecer muito tempo em pé. Em um espaço reservado às palestrantes, deitou no chão para tentar aliviar as dores na coluna. O chefe entrou no local, percebeu a situação e perguntou se estava tudo bem. Ela respondeu que não totalmente, mas que precisava apenas esticar a coluna para continuar trabalhando. Nesse momento, ele sugeriu que ela fosse embora, mesmo ainda faltando metade do evento.
Rayara disse que a sugestão causou indignação, já que o pedido de folga no primeiro dia havia sido negado, o que poderia ter evitado o agravamento do quadro. Ainda assim, ela decidiu permanecer até o encerramento do evento, incluindo a fase de organização final. O trabalho foi concluído com sucesso e bem avaliado pelos participantes. Após o evento, as crises continuaram. Em uma quarta-feira, Rayara teve uma crise de choro muito intensa no ambiente de trabalho. A equipe de Recursos Humanos interveio e determinou que ela fosse para casa descansar, já que não havia condições de mantê-la trabalhando naquele estado. No mesmo dia, ela agendou consulta médica.
O médico concedeu inicialmente um atestado de dois dias e orientou que ela descansasse. O diagnóstico foi de crise de ansiedade, relacionada à pressão psicológica vivida no trabalho. Rayara já fazia uso de um calmante leve, mas o médico prescreveu uma medicação controlada, adequada para estabilizar o quadro sem causar efeitos extremos. Ele também afirmou que ela apresentava sinais claros de Burnout, associados à sobrecarga, à pressão psicológica e a situações de assédio moral.
Com o afastamento, Rayara ficou em casa de quarta a sexta-feira, período em que iniciou acompanhamento psicológico. No sábado seguinte, retornou ao trabalho e entregou o atestado médico. Na semana seguinte, retomou a rotina normalmente. Pouco depois, entrou em férias. Inicialmente, seriam apenas 15 dias, prática comum na empresa, que atuava fortemente com vendas e tinha alta pressão sobre as áreas comercial e de marketing. Diante da crise ansiosa, as férias foram ampliadas para 30 dias.
Jovem precisou de acompanhamento psicológico e uso de medicação
Rayara iniciou as férias em uma quarta-feira, após ainda trabalhar alguns dias. Os valores foram pagos corretamente e ela cumpriu integralmente o período de descanso. No entanto, ao retornar, no primeiro dia de trabalho após as férias, foi demitida. Ela havia permanecido na empresa por um ano e dois meses. Apesar do desligamento, afirma que saiu com a consciência tranquila e se emocionou ao se despedir da equipe, com quem mantinha boa relação.
O episódio ocorreu em 2024. Cerca de um mês após todo o quadro inicial, veio o diagnóstico definitivo de Burnout. No início, a psicóloga acreditava que se tratava apenas de uma crise ansiosa associada à sobrecarga, mas, com a evolução do tratamento, identificou a síndrome do esgotamento profissional.
Rayara confirma que precisou de acompanhamento psicológico e uso de medicação. Atualmente, afirma estar em situação muito melhor. Ela trabalha em outra empresa, recebe um salário maior e relata ter um chefe compreensivo, que também faz acompanhamento psicológico. Segundo ela, o gestor tem uma postura mais humana e estimula o diálogo. Sempre que há necessidade de folga ou ajuste de horário por questões pessoais, a orientação é comunicar previamente para que haja organização do trabalho. “É uma via de mão dupla”, resume.
Para evitar novas crises, Rayara diz que mudou principalmente a forma de encarar as situações. Ela reconhece que nenhum ambiente de trabalho é perfeito, mas afirma que, diante de gatilhos emocionais, busca se resguardar, ouvir música, se afastar momentaneamente do ambiente estressante e focar nas tarefas. Além da psicoterapia, procura outras formas de lidar com o estresse.
Após a demissão, interrompeu o tratamento psicológico por em torno de 6 meses, principalmente por dificuldades financeiras, mas afirma que pretende retomar o acompanhamento. Atualmente, relata que voltou a ter crises ansiosas, motivadas por questões da vida pessoal e profissional, o que reforça a necessidade de buscar novamente ajuda especializada.
Rayara destaca a importância da rede de apoio formada por família, amigos, colegas de trabalho e profissionais de saúde. Segundo ela, manter conexões saudáveis é essencial para evitar recaídas. Ao orientar pessoas que começam a apresentar sintomas semelhantes, ela é direta: buscar ajuda psicológica o quanto antes. Para Rayara, o acompanhamento não deve ser restrito a momentos de crise, mas também servir para o autoconhecimento e a compreensão do passado, do presente e dos objetivos futuros.
Entre os sinais de alerta, ela aponta sintomas físicos e psicológicos, como estresse constante, impaciência, ansiedade, crises de choro, palpitações, arritmia, formigamento no corpo, tontura e sensação de má circulação. Para ela, é fundamental analisar se o ambiente de trabalho está fazendo bem ou se há pressão excessiva, cobranças desmedidas, assédio moral ou comportamentos inadequados por parte da liderança.
“Nem sempre o problema está na gente. Muitas vezes, está no ambiente”, afirma. Segundo Rayara, quando a pressão e a cobrança são exageradas, o trabalhador acaba se adaptando a um contexto adoecedor e passa a acreditar que é o responsável pelo próprio sofrimento. Para ela, reconhecer esses sinais é o primeiro passo para evitar o agravamento do quadro e preservar a saúde mental.
Sinais emocionais e comportamentais
A psicóloga Rafaela Guedes falou sobre os principais sinais da Síndrome de Burnout. Sinais emocionais: exaustão psíquica persistente, que não melhora com descanso, férias ou fins de semana; sensação de vazio, apatia ou embotamento afetivo, especialmente em relação ao trabalho; Irritabilidade frequente, com baixa tolerância à frustração e reações desproporcionais; culpa constante e sensação de inadequação, mesmo diante de bom desempenho; ansiedade antecipatória ao pensar no trabalho ou no início da semana; perda de sentido: o trabalho deixa de ter valor simbólico ou satisfação subjetiva.
Há, também, sinais comportamentais: queda progressiva de desempenho, dificuldade de concentração e tomada de decisões; procrastinação ou evitamento, incluindo atrasos, faltas ou desejo recorrente de se afastar; Isolamento social no ambiente de trabalho, redução de trocas e vínculos; aumento do uso de substâncias (cafeína, álcool, medicação sem prescrição) como tentativa de regulação; rigidez excessiva ou, ao contrário, desorganização, como modos defensivos frente à sobrecarga.
Rafaela Guedes também comentou sobre as mudanças na relação com o trabalho: cinismo ou despersonalização: o outro (colegas, clientes, pacientes) passa a ser tratado de forma distante ou indiferente; perda de investimento libidinal no fazer profissional - trabalha-se no “automático”; sensação de estar sempre devendo, mesmo quando se faz mais do que o razoável; impossibilidade de se desligar mentalmente do trabalho, inclusive fora do expediente.
A síndroma também causa impactos na saúde mental: exaustão psíquica crônica, com sensação de “mente cansada” o tempo todo; ansiedade persistente, muitas vezes acompanhada de sintomas físicos (tensão, taquicardia, insônia); quadros depressivos ou estados depressivos, marcados por desânimo, perda de prazer e desesperança; rebaixamento da autoestima, com autopercepção de incompetência ou fracasso; dificuldade de simbolizar o sofrimento: o sujeito sente muito, mas não consegue nomear o que acontece; risco aumentado de ideação suicida, sobretudo quando o trabalho se torna o único eixo de valor do eu.
“No âmbito familiar, o isolamento, a irritabilidade, a pouca disponibilidade para o parceiro, para estar com os filhos, para o lazer em geral. Ele se assemelha a um quadro depressivo, mas está ligado diretamente ao desempenho profissional e à perda de sentido no trabalho. Você tem uma série de sinais depressivos que não são necessariamente a depressão, mas o efeito do bornaut na pessoa e, consequentemente, nos laços familiares”, disse a psicóloga.
Ainda segundo ela, o principal sintoma do burnout é a perda de sentido laboral, o esgotamento, a ansiedade e evitação de tudo que se relaciona ao trabalho. “Porque aquela atividade ela perdeu o sentido e, na verdade, ela está trazendo exaustão. E aí, frequentemente, a pessoa se percebe fazendo porque precisa fazer e no automático”, disse. Então, afirmou, a psicoterapia é o espaço de compreensão e elaboração de tudo isso. “Para que, a partir desse quadro, a pessoa possa fazer escolhas, claro, acompanhado com um profissional qualificado para escutar isso. Escolhas profissionais e de vida que tenham sentido para ela”, disse. “Que lhe façam querer levantar de manhã e produzir, realizar, fazer, ter satisfação profissional, consequentemente, na vida. Porque a nossa área profissional, ela é 70% da nossa identidade. Então, é extremamente relevante e importante que a gente esteja em paz com isso”, afirmou.
Ainda segundo Rafaela Guedes, é muito comum que as pessoas demorem para buscar ajuda psicológica em geral, porque, por vezes, elas não têm consciência dos sinais que estão mostrando um sofrimento psíquico e, muitas vezes, não tem um lugar social para aquele sofrimento. “Entre os seus pares, não há alguém que reconheça e diga: ‘bom, isso não está legal, a vida não está boa, ela podia ser melhor que isso, eu estou vendo que você está sofrendo. Não é um reconhecimento social do sofrimento também”, disse. “Então, por vezes, o processo é demorado pela própria dificuldade em identificar que se trata de uma síndrome, de um sofrimento patológico. A minha orientação principal para os trabalhadores é: procurem a psicoterapia imediatamente, preferencialmente com um psicanalista. A vida é só uma. Precisa ter sentido e prazer pra gente querer viver”, afirmou.
Síndrome é doença ocupacional, diz advogado Felipe Fadul
O advogado Felipe Fadul disse que a síndrome de Burnout é considerada sim uma doença ocupacional. Na relação de doenças do Ministério do Trabalho e Emprego, em seu anexo 2, fala sobre a doença profissional do trabalho, que seria o Burnout. E qualifica ela entre os transtornos mentais. “Logo, quem estiver diagnosticado por médico essa síndrome teria os direitos relativos ao afastamento do INSS, equiparado a um afastamento acidentário, por acidente de trabalho. E além da possiblidade de indenização contra o seu empregador que gerou essa síndrome”, disse.
Os documentos necessários para que o trabalhador consiga seus direitos junto ao INSS ou junto à Justiça seriam os laudos médicos relativos à constatação da doença e que constatem, também, a incapacidade para o trabalho derivativo da síndrome.
“Além disso, podemos somar os receituários de antidepressivos prescritos para remediar a doença. O INSS vai fazer uma perícia e essa perícia, se for positiva para a síndrome, e se houver o afastamento acidentário, pode ser usado também na Justiça do Trabalho para se buscar os seus direitos”, afirmou.
Ainda segundo o advogado Felipe Fadul, o direito indenizatório do trabalhador em relação ao seu patrão ocorre quando a Síndrome de Burnout for gerada por um ambiente de trabalho traumático. “Então, exigências excessivas, metas impossíveis, qualidade de trabalho baixa, da intensidade dos prazos ou das complexidades do trabalho, todas essas questões que exaurem a energia do funcionário, além de um razoável. Então, sempre é importante, no contexto ocupacional, nós mesclarmos a capacidade e necessidade e expectativas razoáveis de cada trabalhador”, disse.
“Então, podemos ter um trabalhador que, mesmo dentro de uma relação de trabalho boa, tenha Síndrome de Burnout. Neste caso, não haveria direito à indenização. Mas, se a Síndrome de Burnout advier de um excesso de exigências, aí a empresa teria que pagar uma indenização junto à Justiça do Trabalho”, afirmou.
O trabalhador tem direito ao afastamento do trabalho sempre que houver o diagnóstico médico da incapacidade laborativa em decorrência da síndrome. “Isso pode ser simples faltas de alguns dias com um atestado médico ou um atestado médico maior do que 15 dias que geraria um afastamento pelo INSS. E se comprovada a Síndrome de Burnout na perícia do INSS, ele será afastado como auxílio acidentário por acidente de trabalho, equiparado ao acidente de trabalho”, explicou.
O advogado disse que a empresa tem uma responsabilidade de cuidar da saúde laboral dos seus funcionários. “Então, você ter um ambiente de trabalho saudável é uma obrigação da empresa. Então, se eximir, não cobrar excessivamente a sua equipe, não solicitar metas impossíveis, bem como manter uma saúde laboral de ergonomia, de bom trato com seus funcionários, é uma responsabilidade inerente a todas as empresas”, disse.
Para o trabalhador que tiver uma síndrome de esgotamento funcional, e que estiver com receio de enfrentar o seu empregador, indo na Justiça, por exemplo, existem os órgãos de fiscalização, que são o Ministério do Trabalho e Emprego e o Ministério Público do Trabalho. “No Ministério Público do Trabalho, por exemplo, é possível fazer uma denúncia anônima e aí o procurador do trabalho irá à empresa fazer uma vistoria e verificar se aquela denúncia condiz com a realidade. Vai escutar os funcionários, vai falar com o empregador sem saber quem foi o empregado que o denunciou”, disse.
Orientações da psicóloga
Buscar psicoterapia o quanto antes
Reconhecer os sinais emocionais e comportamentais do burnout
Avaliar criticamente o ambiente de trabalho
Resgatar o sentido do trabalho e fazer escolhas com acompanhamento profissional
Orientações do advogado
Buscar diagnóstico médico formal
Reunir documentos médicos e receituários
Requerer afastamento pelo INSS quando indicado
Denunciar ambientes de trabalho adoecedores
Palavras-chave
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