Atropelamento na Augusto Montenegro: familiares e amigos e realizam ato em memória das vítimas
O ato tem como objetivo pedir justiça, cobrar respostas das autoridades e manter viva a memória das vítimas
Familiares, amigos e integrantes de uma torcida organizada do Remo realizaram, na manhã desta sexta-feira (5), um ato em homenagem às vítimas do atropelamento que deixou quatro mortos e três feridos na avenida Augusto Montenegro, no bairro do Parque Verde, em Belém. Durante a manifestação, os participantes chegaram a interditar por cerca de cinco minutos uma das pistas da via, na altura do conjunto Sevilla, no sentido Icoaraci, para pedir justiça pelas vítimas.
Com faixas, cartazes e palavras de ordem, os manifestantes se reuniram próximo ao local onde ocorreu a tragédia, registrada na madrugada do dia 29 de maio. O grupo homenageou Jhonata Mateus Maciel Chaves, Davi Souza Conceição, Elder Martins Santos, conhecido como “DOA”, e Luan Garcia Batista, o “Chapa”, mortos em decorrência do atropelamento. Outras três pessoas ficaram feridas: Elielton Batista da Silva, Rian Silva Cunha, motociclista de aplicativo, e Renata Alexandra Fitel Lima, passageira.
A manifestação foi marcada por momentos de emoção e desabafo de familiares, amigos e testemunhas do episódio, que cobraram punição para o motorista Pablo Henrique Farias da Silva, investigado pelo caso. Ele segue preso, uma vez que ainda não pagou a fiança estipulada pela justiça.
Bastante abalada, a mãe de Davi, Daniele Souza, disse: “A minha casa está um grande vazio, nada vai trazer meu filho de volta. Eu sinto a falta do meu filho me chamando de mãe, dizendo que me ama. Mas tem uma coisa que me conforta: é saber que aquele rapaz está preso, pagando todos os dias pelo ato dele”.
Uma das vozes mais emocionadas do ato foi a de Thayane Silva, tia de Davi Souza Conceição, que morreu na última segunda-feira (1º), no Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência (HMUE), em Ananindeua, após permanecer internado desde o dia do atropelamento. “Além de integrantes de torcida organizada, eles tinham família. O Davi era filho, sobrinho, neto. Eles não tiveram direito algum de defesa”, afirmou.
Thayane disse que a família não concorda com a tese de que o motorista teria agido para se defender durante uma confusão envolvendo torcedores. “A gente respeita a decisão da Justiça, mas entende que não foi legítima defesa. Ele já estava indo embora e voltou. Poderia simplesmente ter seguido o caminho dele”, declarou.
A familiar também lembrou o impacto da morte do jovem para a família. “O Davi deixou uma irmã de sete anos que pergunta todos os dias que horas ele vai chegar em casa. Nossa vida nunca mais será a mesma. A vida das pessoas que ficaram feridas também não será a mesma”, disse.
Outra familiar que participou da mobilização foi Mikele Chaves Maciel, mãe de Jhonata Mateus Maciel Chaves. Em seu discurso, ela contestou a forma como as vítimas vêm sendo retratadas por parte das pessoas nas redes sociais. “Os meninos estavam jogando futebol. Eles estão sendo tratados como bandidos, mas essa não é a história. Eles estavam em uma partida quando outra torcida chegou para atacar”, afirmou.
A mãe de Jhonata também criticou a liberdade provisória concedida ao motorista mediante pagamento de fiança. Vale destacar que o motorista não pagou a fiança e, por isso, permanece preso. “Oitenta e um mil reais não vai trazer meu filho de volta, assim como não vai trazer nenhuma das outras vidas de volta. Eu quero justiça. Quero que ele fique atrás das grades para amenizar a minha dor”, declarou.
Mikele ressaltou que o filho trabalhava e não possuía antecedentes criminais. “Meu filho era um filho maravilhoso. Trabalhava e não tinha passagem pela polícia. As pessoas falam muitas coisas nas redes sociais sem conhecer a realidade”, disse.
Ela também defendeu o trabalho realizado por torcidas organizadas e afirmou que os grupos desenvolvem ações sociais que raramente ganham destaque. “Torcida organizada também faz o bem. Faz ação social, cuida de crianças, doa sangue. Isso as pessoas não mostram. Só tratam a gente como vagabundo e desordeiro”, afirmou.
Uma das testemunhas do caso, Isac Almeida, também participou da manifestação e apresentou sua versão sobre os fatos que antecederam o atropelamento. “No dia ocorrido, a gente estava jogando bola na Arena do Renato e, no meio do nosso futebol, a gente foi confrontado pela torcida rival que passava pela Augusto Montenegro. Em legítima defesa, a gente avançou, porque, caso contrário, eles iam invadir a nossa reunião”, afirmou.
Segundo Isac, foi durante a confusão que ocorreu o atropelamento. “No meio do confronto, foi que aconteceu esse ato de covardia por parte desse motorista. O elemento deu a volta com o carro na Augusto Montenegro e fez tudo isso. A gente pede justiça, porque, querendo ou não, eles tinham outra rota. É um sentimento de revolta”, declarou.
A testemunha também afirmou que não conhecia pessoalmente os envolvidos na ocorrência. “Eu não reconheci ninguém na hora. A gente não se conhecia. Era a torcida rival. Eles devem ser aqui do bairro das redondezas”, acrescentou.
Ao final do ato, os participantes reforçaram os pedidos por justiça e prometeram continuar acompanhando o andamento das investigações. Em coro, familiares e amigos homenagearam as vítimas e afirmaram que os jovens não serão esquecidos.
Motorista continua preso
A reportagem apurou que Pablo Henrique Farias da Silva continua preso. Embora a Justiça tenha concedido liberdade provisória mediante pagamento de fiança no valor de R$ 81.050, o motorista ainda não efetuou o pagamento e, por isso, permanece custodiado.
O caso segue sendo investigado pela Polícia Civil do Pará, que apura todas as circunstâncias do atropelamento ocorrido na madrugada do dia 29 de maio.
Entre os três sobreviventes, apenas Renata Alexandra Fitel Lima permanece internada no Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência (HMUE), em Ananindeua. Ela era passageira do motociclista por aplicativo Rian Silva Cunha no momento do atropelamento. Segundo familiares e amigos das vítimas ouvidos durante a manifestação, o estado de saúde de Renata é considerado estável.
A defesa de Pablo Henrique sustenta que ele tentava fugir de uma confusão após ter o carro apedrejado e que perdeu o controle da direção. Já familiares, amigos e testemunhas afirmam que o atropelamento foi intencional. As diferentes versões seguem sendo analisadas no curso das investigações.
Como aconteceu o atropelamento na Augusto Montenegro
Segundo testemunhas, familiares das vítimas e informações apuradas pela reportagem, a sequência de fatos que terminou com quatro mortos e três feridos começou na noite de quinta-feira (28), em uma arena esportiva localizada no bairro Parque Verde, em Belém.
No local, integrantes da torcida organizada Remoçada participavam de uma tradicional partida de futebol realizada semanalmente. Durante o encontro, ainda de acordo com os relatos, membros da torcida organizada do Paysandu teriam chegado à arena, provocando uma confusão.
A briga teria se estendido para fora do estabelecimento e alcançado a avenida Augusto Montenegro. Após o tumulto, os integrantes da organizada do Remo deixaram o local em motocicletas e seguiram pela rodovia no sentido Icoaraci.
Foi nesse momento que ocorreu o atropelamento. Testemunhas afirmam que o motorista Pablo Henrique Farias da Silva, apontado como integrante de uma torcida organizada do Paysandu, teria participado da confusão e, posteriormente, ao avistar os torcedores na avenida, feito um retorno na pista antes de avançar com o veículo contra o grupo.
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