'Belém entra em 2026 com foco em entregas, escuta popular e legado da COP 30', diz Igor Normando
Em entrevista exclusiva, o perfeito diz que 2025 foi ano de “arrumar a casa” e anuncia os novos passos da gestão municipal para este ano
"Belém entra em 2026 com foco em entregas, escuta popular e legado da COP 30", afirma o prefeito de Belém. Exclusivamente ao Grupo Liberal, Igor Normando (MDB), faz um balanço do primeiro ano de mandato, classificado por ele como um período duro, de ruptura administrativa e reorganização interna da prefeitura. Ao longo da conversa, ele avalia o impacto da COP 30 na projeção internacional da cidade, rebate críticas sobre a concentração de obras, detalha avanços em áreas como mobilidade, educação, saúde, periferias e ilhas, e apresenta as prioridades para 2026.
Ao longo da entrevista, o gestor aborda temas sensíveis como a situação do Pronto-Socorro Municipal da 14 de Março, o novo Estatuto do Servidor Público, o fechamento do restaurante popular, as desigualdades nas áreas periféricas e o planejamento para grandes obras estruturantes, como o BRT. Normando também fala sobre mudanças climáticas, desigualdade urbana, cultura, esporte e afirma que o próximo ano será marcado por mais diálogo, obras e consolidação do orgulho de ser belenense.
Como o senhor avalia o seu primeiro ano de mandato?
Prefeito Igor Normando: eu acredito que 2025 pode ser resumido como um ano desafiador, um ano de organização da casa. Todos sabem que o primeiro ano de qualquer governo é um ano desafiador, ainda mais quando se faz um governo de ruptura, como foi o nosso. Tivemos que arrumar a casa, assumimos tendo que entender os números, conhecer cada setor da prefeitura e compreender o que estava acontecendo. Só nisso levamos cerca de três meses para poder organizar.
Depois disso, fizemos a organização administrativa da prefeitura, sempre levando em consideração que a cidade não poderia parar, que eu deveria entregar obras que estavam paradas ou em ritmo lento e, ao mesmo tempo, realizar uma COP 30, um evento nunca antes visto na história da cidade. As atitudes que nós tomamos no ano passado vão ser balizadoras do que nós queremos a partir de agora, com a prefeitura já em um ritmo muito mais acelerado de desenvolvimento.
Passado o evento, como o senhor avalia o sediamento de Belém para a COP 30?
Belém agora está no mapa do planeta. Belém passou a ser uma capital conhecida mundialmente, que tem capacidade de receber visitantes, que tem capacidade de se desenvolver com sustentabilidade e ser um exemplo para a Amazônia. Eu tenho certeza de que, no pós-COP, nós conquistamos um lugar que era de direito, sendo a capital da Amazônia para o Brasil e para o mundo.
Agora o nosso trabalho é manter esse título, consolidar Belém como uma cidade que recebe turistas, movimenta a economia e é exemplo de desenvolvimento sustentável. Foi um momento importante em que nós recuperamos também o senso de pertencimento da população. Hoje, o cidadão se sente mais dentro da cidade, sente orgulho de morar em Belém.
Por muito tempo se dizia que Belém não tinha jeito. Hoje eu tenho a total certeza de que nós recuperamos a esperança e, principalmente, o orgulho no coração e nos olhos de quem mora aqui. O maior desafio agora é manter esse orgulho vivo.
Na sua percepção, qual foi a imagem que Belém passou para o mundo e isso pode impulsionar o turismo em 2026?
Primeiro que nós não mostramos ao mundo nada além do que realmente somos. Somos um povo acolhedor, alegre, festivo, com uma cultura gastronômica muito forte. Mostramos que nossas potencialidades são únicas. Essa condição, aliada à organização do evento e às entregas que fizemos, mostra que Belém tem capacidade de continuar nesse caminho. A cidade mostrou a força do seu povo, que sem dúvida é o maior patrimônio que nós temos.
Se conseguimos realizar a COP com sucesso, estamos preparados para qualquer outro evento mundial. Esse tipo de pauta precisa ser permanente. Não podemos pensar que algo assim acontece só uma vez a cada 30 anos. O Rio de Janeiro, por exemplo, passou por isso depois que teve seu primeiro encontro mundial de meio ambiente. Desde aí o Rio começa a se posicionar como uma cidade no cenário nacional com a capacidade de realizar grandes eventos.
Houve críticas de que as obras da COP ficaram concentradas em áreas estratégicas e que a periferia teria sido esquecida. Como o senhor responde a isso?
A gente infelizmente vive um momento em que a sociedade, muitas das vezes, prefere fazer um comentário de lacração na internet do que simplesmente, enxergar aquilo que de fato são os benefícios que isso traz. Nós sabemos que qualquer cidadão da nossa cidade, que goste ou não goste de mim, que concorde ou não concorde com a minha gestão, que tenha alinhamento ideológico ou não, todos, sem dúvida alguma, podem olhar para o que era antes da nossa gestão e o que é hoje.
E eu posso dizer com toda a franqueza: a COP não só trouxe benefício para o turismo. As áreas que foram reformadas são áreas que vão fomentar o turismo e, fomentando o turismo, a gente vai gerar emprego, vai gerar renda, vai movimentar a economia da cidade, que infelizmente ainda se baseia muito na relação econômica de serviços. A gente vai poder fomentar tudo isso, trazer turista para cá, para gastar dinheiro aqui, para poder fazer esses recursos chegarem à nossa população através de emprego e de renda, fazendo a economia da cidade circular.
Além disso, nós tivemos grandes obras na periferia. Junto com o governo do estado, fizemos o maior programa de macrodrenagem da história da cidade, ampliamos o acesso à água e esgoto e pavimentamos mais de 180 ruas. Pessoas que antes viviam na lama hoje caminham em ruas pavimentadas. A COP chegou para todos. Mas o maior legado, sem dúvida, foi o orgulho do cidadão de morar em Belém.
Em relação ao legado da COP para a gestão municipal, o que o senhor acha que a COP ensinou sobre como gerir a cidade, seus limites, prioridades e principais desafios?
Nada vence o trabalho. Hoje a gente precisa estar cada vez mais entregando resultados e, ao mesmo tempo, ouvindo a população. Agora, em 2026, nós vamos dialogar mais com a população e vamos apresentar soluções.
Mas é fundamental também que a própria população se sinta parte do processo, parte da cidade. O prefeito sozinho não resolve os problemas. Quantas e quantas obras nós entregamos e, dias depois, estavam depredadas? Existe uma parcela da população, que não é a maioria, que, infelizmente, não enxerga a cidade como uma extensão da sua casa.
Quando você ocupa uma calçada irregularmente, você está prejudicando a cidade. Quando você depreda um patrimônio público, você está lesando você mesmo, porque você paga seus impostos e faz parte da cidade. Quando você não obedece a um regramento, você está indo de encontro à própria sociedade, porque todos nós vivemos em uma convivência que precisa ser harmônica.
Então, é fundamental, nesse momento, que a gente possa, ao mesmo tempo, construir essa relação com a sociedade, em que cada um tem direitos, mas também deveres com a cidade.
Sobre mudanças climáticas, estudos apontam que Belém pode se tornar uma das cidades mais quentes do planeta. O que a gestão está fazendo para tornar a cidade mais resiliente e adaptada ao calor extremo?
Nós temos três medidas importantes. A primeira é educacional. A população precisa compreender a importância da preservação. No ano passado, plantamos mais de 150 mil mudas. Este ano vamos lançar o programa Belém 1 Milhão de Árvores.
Nossa meta é plantar um milhão de árvores em três anos, com apoio do governo do estado e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em um investimento de cerca de 40 milhões de reais.
Queremos transformar calçadas em espaços verdes e tornar Belém uma cidade mais arborizada e que isso também vire uma iniciativa dos próprios moradores..
Em relação à mobilidade urbana, o que a população pode esperar para 2026?
Mobilidade é uma discussão central há décadas. Assim que assumimos, ampliamos a frota, garantimos ônibus com ar-condicionado, Wi-Fi, acessibilidade e pagamento via Pix. Lançamos um aplicativo para dar previsibilidade ao usuário.
Precisamos avançar mais. A prefeitura vai intensificar a fiscalização do transporte público. Aos domingos, garantimos passagem gratuita. E o grande desafio de 2026 é colocar o BRT de Belém para funcionar, integrado ao BRT Metropolitano, para garantir que esse projeto, que se arrasta há mais de 20 anos na cidade, seja finalmente entregue com qualidade.
Belém é uma das capitais com um percentual de quase 60% de áreas periféricas. Quais são as medidas que estão sendo tomadas pela prefeitura para contornar essa desigualdade estrutural que a cidade ainda vive?
Esse é um problema que vem de dois temas centrais. O primeiro é a falta de regularização fundiária, ou seja, as pessoas não têm título de propriedade. Essas áreas ainda são áreas de ocupação, e isso é um desafio que nós pretendemos encarar com clareza e, principalmente, com planejamento.
No ano passado, nós fizemos esse planejamento e conseguimos captar recursos, por meio do Ministério das Cidades e do Governo Federal, para garantir que essa regularização fundiária fosse feita. A nossa expectativa é que, neste ano, a gente consiga regularizar mais de 30 mil moradias e que esse número cresça ao longo dos anos.
Paralelamente a isso, estamos avançando no tratamento de água e esgoto, que também é um índice importante que precisamos melhorar. Nós já conseguimos crescer quase 50% em relação ao que era antes, mas ainda precisamos avançar mais. Tenho certeza de que, com essa parceria entre Governo Federal, Governo do Estado e prefeitura, vamos conseguir evoluir. É óbvio que, em um ano, a gente não consegue fazer tudo o que a cidade precisa. E, evidentemente, talvez nem em dez anos seja possível mudar tudo o que precisa ser mudado. Mas acredito muito que o meu papel como prefeito é colocar Belém no rumo e no trilho do desenvolvimento.
Existe uma perspectiva de reabertura do Restaurante Popular?
Sem dúvida alguma. Nós temos dois projetos-base que lidam diretamente com a segurança alimentar. Um deles é a Cozinha Solidária, que vai fornecer alimentação gratuita às pessoas em situação de vulnerabilidade social. O restaurante popular vendia alimentação a um preço subsidiado. Pretendemos iniciar isso ainda no primeiro semestre. Além disso, nós devemos, sim, ter um restaurante popular. Estamos construindo a modelagem, que deve funcionar, inclusive, no shopping popular que vamos construir na cidade.
Em relação às praças de Belém, muitos apontam que a maioria enfrenta problemas de iluminação pública e de segurança. O que podemos esperar em 2026 para avançar nesse setor?
Vamos fazer dois movimentos importantes. O primeiro é o de conservação e zeladoria das praças. Nós já começamos a instalar câmeras para garantir a segurança e também para que as praças possam ter a sua manutenção preservada, sem nenhum tipo de vandalismo. A gente sabe que, um caso ou outro, isso vai ocorrer naturalmente, como acontece em qualquer centro urbano, mas a gente precisa ter respostas rápidas.
É fundamental também que a gente divulgue melhor um projeto que foi lançado no ano passado, mas que foi pouco divulgado e pouco explicado, inclusive por parte da própria prefeitura, e eu faço essa autocrítica. O projeto se chama Praça Viva. Nele a população, as empresas e os empreendedores podem requerer a concessão da praça por um período de cinco a dez anos. Nesse período, eles poderão explorar economicamente até 30% do espaço da praça, mas ela continua sendo pública.
Ou seja, se existem cinco ou seis empreendedores que vendem alimentos e querem implantar, dentro da praça, uma praça de alimentação padronizada e organizada, com um projeto arquitetônico aprovado pela prefeitura, eles poderão fazer isso sem nenhum custo do empreendedor para a prefeitura. Em contrapartida, eles terão apenas que fazer a manutenção da praça e cuidar do espaço.
Com isso, a gente garante que a prefeitura não precise gastar recursos com a manutenção e que o empreendedor não precise pagar aluguel para outro tipo de imóvel, além de ter um local central para vender seus produtos. Ou seja, nós vamos fortalecer o comércio e, ao mesmo tempo, garantir a zeladoria da praça.
Não adianta apenas ter praças. Belém tem mais de 240 praças, mas, se elas não tiverem vida, movimento e ocupação, acabam virando espaços sujeitos a vandalismo e degradação. A gente precisa dar vida às praças, e é isso que nós vamos fazer.
Sobre as ilhas de Belém, o que a gente pode esperar de iniciativas, principalmente no acesso à saúde e ao saneamento básico?
As ilhas de Belém têm um papel muito importante na cidade, mas infelizmente muitos gestores governaram de costas para as ilhas. Hoje, nós temos mais de 40 mil pessoas vivendo nas ilhas de Belém.
A gente precisa dar um olhar muito mais atencioso, principalmente para aquelas que têm um nível populacional maior. Na área da educação, eu tenho muito orgulho de dizer que nós vamos inaugurar ainda este mês a implantação de energia fotovoltaica em todas as escolas das ilhas. Ou seja, todas passam a ter energia renovável, acesso à internet e fornecimento de luz, não mais por gerador, mas por energia solar.
Nós garantimos também que a Unidade Básica de Saúde (UBS) fluvial chegue às ilhas, ou seja, o atendimento de saúde vai até as comunidades, evitando que as pessoas precisem se deslocar até o centro da cidade. Além disso, é fundamental trabalhar um tema muito sensível, que é a geração de renda para essas famílias.
Nós vamos iniciar agora um grande programa de agricultura e de fomento à piscicultura nas ilhas. Belém tem um potencial incrível. Nós somos um dos maiores produtores de açaí do mundo e fazemos parte dessa cadeia produtiva. A gente precisa fazer com que isso funcione melhor. Se a gente der conhecimento e subsídio de financiamento para esses trabalhadores, eles vão poder desenvolver a agricultura não apenas para subsistência, mas também para a comercialização.
Quais projetos que o senhor gostaria de destacar na área da saúde e da educação?
Só em 2025, nós investimos aproximadamente 50 milhões na reforma das escolas. Nós estamos construindo algumas escolas, inclusive do zero. Para se ter uma ideia, são escolas que vão ter tempo integral e vão ter toda a condição de receber os nossos estudantes.
Nós, pela primeira vez na história da cidade, conseguimos dar material escolar e uniforme escolar para toda a rede. Ou seja, mais de 60 mil estudantes receberam régua, caderno, borracha, caneta, estojo, uniforme completo e mochila. Tudo isso para garantir que eles tenham um acesso melhor ao aprendizado. Pela primeira vez, talvez em 20 anos, a prefeitura não recebe uma notificação do Ministério Público porque não tem professor em sala.
E, evidentemente, neste ano nós temos um fator predominante: nós crescemos em 20%, no ano passado, as vagas na creche. Mas eu tenho como meta de gestão, até o final do nosso mandato, aumentar em 100% o número de vagas na creche. Ou seja, a primeira infância é uma das grandes prioridades da nossa gestão. E é isso que a gente vai construir daqui para frente.
Qual a real situação do Hospital Pronto-Socorro Municipal Mário Pinotti, conhecido como PSM da 14? Muito tem se especulado sobre possíveis reformas, privatizações e decisões judiciais.
Primeiro, desmistificar essa questão de privatização. Ninguém está privatizando o serviço público. Pelo contrário, essa é uma medida que já vem sendo tomada em grandes capitais do Brasil e do mundo, que é a garantia de que se tenham organizações sociais ou até mesmo outras formas de construção para resolver os problemas que hoje a saúde enfrenta.
O Pronto-Socorro Municipal de Belém, se você for pegar as gestões de 20, 30 anos atrás, vai encontrar as mesmas manchetes nos jornais, nos noticiários, na televisão e agora nas redes sociais. E como é que a gente vai resolver problemas que são extremamente complicados e que já duram décadas fazendo as mesmas coisas? Nós procuramos fazer diferente.
Foi aí que nós resolvemos entender que precisaríamos encontrar uma alternativa para, principalmente, fazer com que o pronto-socorro pudesse ser fechado para uma ampla reforma, e não fazer reforma com gente dentro, o que é inclusive desumano. Nós encontramos uma alternativa com um hospital filantrópico, que é justamente poder oferecer o mesmo serviço que é oferecido a quem tem plano de saúde e paga uma saúde privada para quem precisa e não tem condição de pagar.
A partir daí, a gente teria este hospital de forma imediata funcionando e reformaria o pronto-socorro. Ao fim desta reforma, nós passaríamos a ter dois hospitais, com garantia de atendimento dobrado. Inclusive, na nossa proposta de edital, era aumentar o número de leitos deste novo hospital.
Então, acho que houve um certo problema de compreensão de alguns sobre isso. E detalhe: ninguém ficaria desempregado. Aqueles que são efetivos continuariam trabalhando na rede municipal de saúde, inclusive fortalecendo algo fundamental, que é a atenção básica, que é quando a pessoa precisa ir ao posto de saúde e, muitas das vezes, não tem profissionais de atendimento. Com isso, nós garantimos que todas as nossas unidades pudessem ter um reforço ainda maior de profissionais da saúde. É uma proposta que, embora ofereça até mais serviço do que hoje oferece o próprio Pronto-Socorro da 14, também é mais barata. Hoje, nós economizaríamos cerca de 2 milhões de reais por mês, tendo um serviço de qualidade, numa estrutura muito melhor do que existe hoje, enquanto passaríamos a reformar o Pronto-Socorro da 14.
Nós vamos continuar defendendo essa proposta e vamos trabalhar junto à Justiça, com acompanhamento inclusive do Ministério Público, para que eles possam ter sensibilidade de ver como a gente pode construir essa reforma sem deixar de atender as pessoas.
E me permita aproveitar esse momento também: hoje Belém atende não só a população de Belém. O pronto-socorro é de portas abertas. Para você ter uma ideia, só no Pronto-Socorro da 14, nós atendemos 30% da população vinda do município de Ananindeua. O hospital atende também o interior do estado e, como eu disse, a vizinha Ananindeua, tendo pronto-socorro próprio, manda seus pacientes para o PSM da 14. E nós não negamos atendimento. Mas nós não recebemos aquilo que deveríamos receber para atender a população de outros municípios. Então, faço um apelo, inclusive, aos prefeitos que têm condições de atender seus pacientes, que possam atender. Acho que cada um tem que ter responsabilidade com o seu cidadão.
No setor de esporte, existem planos para ampliar e reformar campos e arenas esportivas, principalmente nos bairros mais distantes, como Tapanã e Terra Firme?
Sem dúvida alguma. Vamos fazer as areninhas e as arenas, que são fundamentais para que haja esporte em todos os bairros. Nós vamos iniciar um processo licitatório, acredito que pelo mês de fevereiro, para fazer a contratação de empresas para executar essas obras.
Com a expansão das Usinas da Paz, conduzidas pelo governo do estado, como a Secretaria Municipal de Esporte, Juventude e Lazer se articula para não assumir um papel coadjuvante nessa agenda?
Pela primeira vez a gente tem um governo federal, um governo estadual e um governo municipal com relações alinhadas. Ou seja, eu não sou aquele que tenta esconder o que vem de bom do governo do estado e do governo federal, atribuindo apenas a mim esse benefício. Pelo contrário, eu acredito muito que a população me elegeu para que eu pudesse unir a todos e trazer benefícios para a cidade, e é isso que está acontecendo.
A cidade está acima das nossas aspirações políticas e pessoais. Então, nós vamos continuar fazendo um trabalho integrado, vamos continuar entregando obras junto com o governador, junto com a vice-governadora, junto com o governo federal e com todos aqueles que querem benefício para a cidade.
Eu sou prefeito de Belém. Eu não estou aqui para discutir a próxima eleição, eu não estou aqui para discutir ego, status ou quem entregou ou deixou de entregar. O importante é que seja entregue. Se a obra acontecer, para mim a finalidade já está posta, já está feita, e eu fico muito satisfeito. Eu não me importo se é uma obra financiada pela iniciativa privada, pelo governo do estado ou pelo governo federal. O que me importa é que ela aconteça.
Qualquer pensamento que fuja disso é briga de ego e discurso politiquero. Isso não me cabe. O que me cabe é ser gestor da cidade. Eu fui eleito para mudar a história da cidade, para mudar o curso que a cidade estava seguindo. E é isso que eu vou fazer, independente se isso me custe popularidade ou qualquer tipo de benefício político. Eu tomei uma decisão muito clara, que é fazer diferente do que aqueles que me antecederam fizeram. Porque fazer o mesmo, a gente já sabe qual é o resultado.
Então eu vou fazer diferente, vou organizar a cidade, vou fazer o que tiver que ser feito, mesmo que isso seja impopular. Eu vou fazer aquilo que precisa ser feito. E, daqui a 20 ou 30 anos, vou poder olhar para trás e ter a clareza de que fiz o que deveria ser feito e dormir com a consciência tranquila.
Sobre o Bolsa Atleta Municipal, a gente sabe que Belém tem muitos atletas em potencial, jogadores, lutadores, mas muitos acabam desistindo no meio do caminho, às vezes por falta de um quimono ou de dinheiro para a passagem de ônibus. Existem projetos para ampliar essa bolsa, não só para quem já é campeão, mas também para quem está ali na base como atleta?
A gente precisa reforçar, na periferia da cidade, a presença do esporte. Eu acredito muito que a prefeitura tem que ter a capacidade de ajudar aqueles que querem seguir carreira como atletas. Mas é fundamental que a gente possa disseminar o esporte para que ele chegue a todos.
O esporte amador é muito importante, para que todos possam ter acesso aos benefícios do esporte, seja para a saúde, para a disciplina ou até mesmo para a formação como cidadão.
Em relação ao esporte de forma mais profissional, nós compreendemos que temos uma lei de incentivo, que é a Lei Tó Teixeira. Para que ela funcione, os empresários também precisam investir. A gente deduz impostos e eles investem isso em ações esportivas, de incentivo aos atletas. A ideia é que a gente possa aglutinar esses empresários para que eles olhem com mais carinho para o esporte da cidade, tendo em vista que a nossa prioridade é, sem dúvida alguma, o esporte amador, o esporte na periferia, o esporte nos bairros.
As escolas de samba têm se pronunciado muito nas redes sociais, preocupadas com a divulgação do edital do Carnaval, já que na edição anterior, foi divulgada em dezembro de 2024. Existe uma previsão? Há um motivo para esse atraso?
Nós estamos, primeiro, entendendo quais são as demandas. A gente compreende que, infelizmente, o Carnaval foi muito burocratizado, e nós precisamos desburocratizar tudo isso, inclusive fazer com que a liga tenha responsabilidade sobre esse fomento.
Nós devemos, até segunda-feira, 12 de janeiro, lançar esse edital. Belém não vai ficar sem Carnaval. Pelo contrário: nós fizemos um Carnaval belíssimo no ano passado. Havia muitos anos que não tínhamos um Carnaval como o do ano passado, e este ano não vai ser diferente.
Nós vamos ter Carnaval nos distritos, Carnaval das escolas de samba, Carnaval de rua. Belém vai voltar a ter o seu Carnaval considerado um dos melhores do Brasil. Já tivemos isso no passado, e o ano passado foi só uma prévia.
Muita gente diz que, quando você faz festa, “só faz festa”, questionando por que investir em eventos em vez de investir em saúde e educação, repetindo esse discurso genérico. Lógico que a nossa prioridade é investir nas áreas prioritárias: educação, saúde, assistência e infraestrutura. Mas investir em cultura e em eventos é gerar emprego e renda para a nossa gente.
Existe um estudo que mostra que, a cada R$ 2 gastos com eventos e cultura, R$ 4 retornam para a cidade, seja por meio de impostos, seja por meio da geração de emprego e renda para a população. Então, nós vamos fortalecer, sim, a área cultural da cidade..
Artistas e produtores culturais do Carimbó dizem que, apesar de o gênero ser reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, ainda não existe um espaço público destinado exclusivamente a ele. Existem iniciativas visando isto?
Em 2025, nós focamos em duas coisas: organizar a Prefeitura de Belém e planejar o futuro, organizando as finanças. Se a gente continuasse com os gastos que nós herdamos, chegaríamos a novembro sem condições de pagar o salário do servidor. Hoje, nós temos condições não só de pagar os salários em dia, como também de ter pago o 13º adiantado e encerrado o ano com superávit, ou seja, com dinheiro em conta para investimento. Tudo isso fez parte do nosso planejamento do ano passado. Cortamos despesas, eliminei 600 cargos de indicação política na prefeitura. Cortamos gastos em contratos públicos em 20% e pagamos muitas das dívidas que herdamos. Só de dívida com lixo, herdamos mais de R$ 120 milhões.
Nós conseguimos fazer um planejamento de pagamento dos atrasados e passamos a pagar esses serviços e fornecedores em dia, assim como tantos outros. E, lógico, quando você se debruça sobre isso, muitas vezes acaba deixando de lado outras questões que são tão importantes quanto. Nós elegemos prioridades. Não dá para fazer tudo ao mesmo tempo.
Organizamos a casa e organizamos a COP 30. Agora, vamos passar a ouvir os segmentos da sociedade, ouvir as demandas e, com muita clareza e sinceridade, dizer o que podemos resolver, o que não conseguimos resolver e aquilo que vamos trabalhar para resolver juntos. A partir disso, vamos encontrar saídas e soluções para as demandas apresentadas. Isso vale para o Carimbó, para o setor cultural, para os movimentos sociais, para os servidores públicos, enfim, para todos os segmentos que compõem a nossa cidade.
Um projeto de lei enviado pelo senhor à Câmara Municipal de Belém propõe a substituição do atual Estatuto dos Funcionários Públicos do Município, em vigor desde 1990, por um novo texto. A análise comparativa entre os dois documentos gerou preocupação entre os servidores. O que podemos esperar de mudanças efetivas?
Eu acho importante esclarecer que, no final do ano, sempre há muita discussão em torno do estatuto do magistério e do estatuto do servidor público. Infelizmente, o que foi feito até aqui eram apenas gratificações que se somavam ao salário dos servidores. Isso não representa ganho real e não garante futuro, especialmente na aposentadoria.
O que nós estamos propondo agora é diferente. Para se ter uma ideia, o salário-base previsto no novo estatuto do magistério chega a R$ 7 mil, e o professor poderá se aposentar com até R$ 16 mil. Aquilo que antes eram apenas penduricalhos de gratificações agora passa a ser aumento real, incorporado ao salário e levado para a aposentadoria.
Outro ponto fundamental é que, com o novo estatuto, nenhum servidor vai receber abaixo do salário mínimo, algo que infelizmente ainda acontece hoje. Nós vamos garantir que os servidores tenham o salário-base equiparado ao mínimo e direitos previdenciários preservados.
Muitos servidores já têm tempo para se aposentar, mas não o fazem porque perderiam renda, já que passaram anos recebendo gratificações que não eram incorporadas ao salário. O que estamos fazendo é uma reparação histórica, garantindo que esses direitos sejam efetivamente assegurados. Além disso, estamos garantindo o futuro da cidade. Nenhum prefeito conseguiu dar aumento real porque não havia previsibilidade orçamentária. Com essas reformas, passamos a ter previsibilidade para discutir aumento, valorização real e uma aposentadoria digna, compatível com os serviços prestados à cidade.
Infelizmente, parte dessa discussão virou uma guerra de narrativas. Nem todos compreenderam o alcance da proposta e alguns agiram de má-fé. Mas é fundamental esclarecer que essas reformas são necessárias para garantir o futuro da cidade e assegurar que todos os servidores sejam valorizados.
O que os belenenses podem esperar para 2026?
Quando eu assumi a Prefeitura de Belém, eu sabia que não seria fácil administrar a cidade. Belém tem uma das piores arrecadações entre as capitais do Brasil. Nós temos altos índices de problemas que vão desde o saneamento básico até a geração de emprego e renda.
Belém é uma cidade que parou no tempo, mas que precisa avançar. Eu tenho uma dívida histórica com a minha geração de fazer bem feito e fazer o que precisa ser feito, mesmo que isso custe popularidade. É dessa forma que nós vamos atuar: organizando a cidade, fazendo uma administração consciente e coerente com aquilo que a gente defende, que é equilíbrio fiscal e garantia de futuro para Belém. Se a gente continuasse como estava antes, a cidade não teria futuro garantido.
Volto a dizer: 2025 foi um ano duro, desafiador e, principalmente, de arrumação da casa. 2026 será um ano de escuta, de entrega de resultados, de obras e, principalmente, de atuação nos lugares que mais precisam da prefeitura. Então, Belém pode esperar de mim, sobretudo, muito trabalho.
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