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IA nas eleições de 2026: desinformação mais barata, mais rápida e mais difícil de combater

Pesquisadores alertam para riscos que vão das deepfakes contra candidatas à erosão da confiança coletiva na informação, e as respostas institucionais ainda correm atrás

Maycon Marte
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A poucos meses das eleições gerais de 2026, o Brasil precisa lidar com um desafio sem precedentes na sua história eleitoral: a inteligência artificial generativa tornou a produção e distribuição de desinformação mais barata, mais veloz e mais difícil de rastrear do que em qualquer período anterior. Essa avaliação é reafirmada por pesquisadores e pelo Ministério Público Eleitoral (MP Eleitoral), que fiscaliza o pleito e tem os novos mecanismos na sua mira neste ano.

"A IA generativa reduz drasticamente os custos de produção e distribuição de desinformação em larga escala. Hoje é possível criar imagens, vídeos, áudios e textos altamente persuasivos em poucos minutos, adaptados a públicos específicos e disseminados de forma automatizada", explica Rafaela Ferreira, advogada e coordenadora de Políticas Públicas do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS) e mestre em Direito da Regulação pela FGV Rio.

Para o Ministério Público Eleitoral, o cenário é de alerta. "Trata-se de um grande desafio, já que a tecnologia tem se propagado muito rapidamente e tem como aspecto negativo a facilidade que proporciona na criação e disseminação de conteúdo ilícito, seja por ser falso, ou mesmo por seu caráter ofensivo", afirma Bruno Valente, procurador regional eleitoral no Pará.

O problema vai além das chamadas fake news. Acadêmicos têm preferido o termo "desordem informacional", que abrange a informação incorreta, a má informação e a desinformação propriamente dita. A distinção orienta respostas regulatórias mais precisas, e o Brasil precisa urgentemente de uma agenda propositiva nesse campo, como explica o advogado acreano e especialista em direito digital e governança da internet, Gustavo Souza.

Mulheres na mira

Conforme avalia Souza, um dos usos mais graves registrados em 2024 foi a produção de imagens sexuais não consensuais contra candidatas, os chamados deepnudes. Pesquisadoras como Ana Camelo e Tainá Junquilho documentaram casos de candidatas à prefeitura e à câmara municipal que foram alvo desse tipo de ataque durante a campanha.

"Há dois danos claros. O primeiro compromete a saúde mental das candidatas num momento já hostil, com tantas manifestações de violência de gênero. O segundo é o dano à reputação, porque a misoginia opera na política brasileira de maneira bastante violenta", avalia.

Em abril de 2026, a Advocacia-Geral da União notificou o Google para que ferramentas voltadas à produção desse conteúdo fossem desindexadas dos resultados de busca, um passo importante, mas ainda insuficiente.

No âmbito do MP Eleitoral, o enfrentamento ao problema passa pelo diálogo com as grandes empresas de tecnologia, as chamadas big techs. Esse diálogo, porém, é conduzido em âmbito nacional, pelos órgãos de direção geral da Justiça Eleitoral, representada pelo TSE, e do Ministério Público, por meio da Procuradoria-Geral da República. No Pará, ainda não há julgamentos registrados envolvendo o mau uso de IA no contexto das eleições de 2026. "A expectativa, porém, é que esse cenário mude com a proximidade da data do pleito", diz Valente.

Geração e detecção

Identificar conteúdos sintéticos também ficou progressivamente mais difícil. Por algum tempo, os modelos erravam na contagem de dedos e tinham dificuldades com sorrisos e dentes. Hoje, essas limitações estão desaparecendo. "O maior desafio é que a tecnologia de geração evolui mais rapidamente do que as ferramentas de detecção", aponta Ferreira. Conteúdos ainda podem ser editados, comprimidos e redistribuídos em diferentes plataformas, o que elimina os sinais técnicos que poderiam ser detectados.

Nesse cenário, as grandes plataformas têm capacidade técnica para controlar o que circula, mas os incentivos econômicos nem sempre apontam nessa direção. Em 2024, a Meta lucrou cerca de R$ 80 bilhões com anúncios de golpes e produtos proibidos. "As limitações frequentemente não são de natureza técnica, mas de vontade política. Quando empresas como a Disney passaram a processar o Google e a Meta por pirataria, os controles passaram a funcionar de maneira exemplar", observa a especialista.

Para Ferreira, "a preparação deve ocorrer antes do período eleitoral, envolvendo poder público, academia, sociedade civil, imprensa, plataformas e desenvolvedores", resume. "Minha principal preocupação não é apenas a existência de conteúdos sintéticos ultrarrealistas, mas a combinação entre sua escala, velocidade e capacidade de explorar vulnerabilidades sociais já existentes."

Soluções

Para o procurador regional eleitoral, o caminho da solução passa por marcos regulatórios mais claros e por uma relação mais ágil entre o sistema de Justiça e as plataformas. "O estabelecimento de regras claras é sempre muito importante para que os atores envolvidos tenham previsibilidade. Um ponto que ainda demanda avanço é a criação de canais de comunicação mais ágeis entre o Judiciário e as plataformas, de modo que as empresas possam dar cumprimento com maior rapidez às ordens judiciais", afirma o procurador.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) publicou a Resolução 23.755/2026, que regula o uso de IA na propaganda eleitoral e exige que sua utilização seja expressamente indicada. No horizonte mais amplo, o Projeto de Lei 2338/2023, até então parado na Câmara, é a principal iniciativa brasileira para uma regulação de IA baseada em riscos. Especialistas cobram pressão social para sua tramitação.

No estado, o Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA) definiu um plano de ação em três frentes para enfrentar o uso de inteligência artificial e a desinformação nas eleições de 2026. O tribunal vai exercer poder de polícia proativo na internet, exigindo das plataformas digitais a remoção imediata de perfis falsos, bots e conteúdos que ameacem a integridade do sistema de votação. Além disso, antecipou a instalação da Comissão de Propaganda, que estará operacional mais de um mês antes do início oficial da campanha, para monitorar irregularidades com agilidade compatível com o ambiente digital.

Na frente de comunicação, o TRE-PA intensificou a produção de conteúdo institucional nas redes sociais, com o objetivo de oferecer informações oficiais e acessíveis que ajudem o eleitor a identificar notícias falsas e a votar de forma consciente. O tribunal age em alinhamento com o TSE, integrando as ações regionais à estratégia nacional da Justiça Eleitoral, que tem o combate à desinformação como uma das prioridades centrais para o pleito.

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