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Pará registrou 77 acidentes com linhas de pipa em dois anos; motociclistas são principais vítimas

Embora seja uma brincadeira tradicional, o uso de linhas cortantes pode transformar o lazer em uma ameaça.

Maiza Santos
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Com a chegada das férias escolares no Pará, cresce também a preocupação com os riscos provocados pelo uso de cerol e linha chilena nas atividades de empinar pipas. Dados da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Segup) mostram que 41 acidentes envolvendo linhas foram registrados em 2024, resultando em quatro mortes. Em 2025, houve 30 ocorrências, sem registros fatais. Já entre janeiro e maio de 2026, foram contabilizados seis acidentes, também sem mortes. O uso do material é crime e gera preocupação em motociclistas, que estão entre as principais vítimas de lesões.

Além dos acidentes registrados pela Segup, dados da Polícia Civil apontam que, em 2024, foram instaurados procedimentos por lesão corporal culposa, lesão corporal dolosa e uma ocorrência de morte acidental a esclarecer, relacionadas ao uso de linhas cortantes de pipas. Em 2025, houve um caso de lesão corporal culposa e outro de lesão corporal dolosa. Em 2026, até o dia 1º de junho, não houve registros desse tipo de procedimento.

Pipas

O período de férias costuma coincidir com o aumento da prática de empinar pipas em diversas regiões do estado. Embora seja uma brincadeira tradicional, especialistas alertam que o uso de linhas cortantes pode transformar o lazer em uma ameaça para motociclistas, ciclistas e pedestres.

O advogado e docente de Direito Marcelino Freitas explica que existe uma diferença técnica entre o cerol e a linha chilena, embora ambos sejam proibidos pela legislação estadual.

“A linha chilena é um tipo de fio cortante utilizado para empinar pipas, feito com uma mistura de cola, pó de quartzo e óxido de alumínio. Ela possui um poder de corte até quatro vezes maior que a linha com cerol tradicional e é capaz de fatiar materiais como plásticos, tecidos e carne com facilidade”, afirma.

Segundo ele, o cerol é produzido de forma artesanal. “O cerol é composto basicamente por cola e vidro moído, geralmente preparado de forma caseira. Já a linha chilena é um produto industrializado, normalmente fabricado de maneira clandestina”, destaca Marcelino Freitas.

Crime

O advogado lembra que a legislação paraense proíbe tanto a fabricação quanto a comercialização, posse e utilização desses materiais.

“A Lei Estadual nº 9.597, de 2022, proíbe o uso, a posse, a fabricação e a comercialização de linhas cortantes compostas por vidro moído, linha chilena e produtos similares, independentemente de estarem ou não aplicados em fios utilizados para empinar pipas”, explica.

O especialista ressalta que a norma prevê punições tanto para comerciantes quanto para usuários.

“O estabelecimento flagrado comercializando linha cortante pode receber multa equivalente a R$ 5 mil. Em caso de reincidência, a inscrição estadual da empresa pode ser cancelada”, afirma.

Para pessoas físicas, a penalidade também está prevista. “O simples porte ou utilização desses materiais pode gerar multa correspondente a 50 UPFs-PA (R$ 5 mil)”, acrescenta.

Penalidades

Além das sanções administrativas, o uso dessas linhas pode resultar em responsabilização criminal. “A legislação penal prevê o crime de exposição da vida ou da saúde de outra pessoa a perigo direto e iminente. Dependendo do caso concreto, o responsável pode responder criminalmente”, destaca Marcelino Freitas.

Nos casos em que uma pessoa fica ferida, outros enquadramentos podem surgir. “Quando ocorre uma lesão, a situação pode configurar crimes como lesão corporal culposa ou dolosa, conforme as circunstâncias apuradas pela investigação”, explica.

Já em situações mais graves, com morte da vítima, as consequências podem ser ainda maiores. “Se houver morte, o responsável pode responder por homicídio culposo, quando não existe intenção de matar, ou até por homicídio doloso na modalidade de dolo eventual, caso tenha assumido o risco de produzir aquele resultado”, afirma.

Quando o responsável pelo uso da linha cortante é menor de idade, os pais ou responsáveis também podem ser responsabilizados.

“O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê medidas socioeducativas para o menor infrator. Além disso, os pais ou responsáveis respondem pelos atos praticados pelo adolescente”, ressalta.

Direitos

Marcelino destaca ainda que as vítimas têm direito de buscar reparação pelos danos sofridos.

“As pessoas prejudicadas podem recorrer ao Poder Judiciário para buscar indenizações, enquanto a polícia realiza a investigação e o Ministério Público atua na condução da ação penal quando houver crime”, afirma.

Riscos

Para quem vive diariamente sobre duas rodas, o perigo é uma realidade conhecida. O instrutor de pilotagem Jorge Bravo afirma que sempre adotou medidas preventivas para evitar esses acidentes com linhas de pipas.

“Eu nunca passei por uma situação dessas porque sempre andei protegido. Sempre utilizei antena corta-pipa e também já usei protetor de pescoço. Como instrutor, trato essa questão com muita seriedade dentro da pilotagem defensiva”, relata.

Apesar disso, ele carrega a lembrança de uma tragédia que marcou sua trajetória. “Infelizmente eu perdi um amigo. Ele estava trabalhando em uma motocicleta da empresa. A moto tinha antena, mas ela não estava levantada. Na avenida João Paulo II, a linha enrolou no pescoço dele e ele morreu no local. Foi uma perda muito grande. Era um pai de família que morreu trabalhando de uma forma extremamente banal”, lamenta.

Gravidade

Para Jorge, muitas pessoas ainda não têm consciência da gravidade do problema.

“Quem utiliza cerol ou linha chilena muitas vezes não tem noção do risco que está causando. E, quando tem consciência, acaba fazendo pouco caso. Nós vemos constantemente notícias de pessoas que perderam a vida ou sofreram ferimentos gravíssimos por causa dessas linhas”, alerta.

O instrutor também avalia que muitos motociclistas ainda negligenciam equipamentos de proteção.

“Infelizmente, eu vejo poucas motos equipadas com antena corta-pipa. Agora, com a aproximação das férias, isso fica ainda mais preocupante. Se você observar o trânsito, verá que poucos motociclistas demonstram preocupação com esse equipamento”, afirma.

image O instrutor de pilotagem Jorge Bravo utiliza o corta-pipa para evitar acidentes com linhas chilenas e com cerol. (Foto: Igor Mota / O Liberal)

Segurança

Segundo ele, a antena deve estar corretamente instalada para funcionar adequadamente.

“Ela precisa ficar em uma altura capaz de proteger a região do pescoço. Existem modelos retráteis e fixos. O importante é verificar constantemente se o equipamento continua firme e em boas condições. Se estiver frouxo ou perdendo eficiência, deve ser substituído", orienta.

Jorge recomenda, sempre que possível, a instalação de antenas nos dois lados da motocicleta.

“O lado esquerdo protege uma região mais sensível, próxima à jugular, mas o ideal é utilizar proteção dos dois lados, porque a linha pode vir de qualquer direção”, explica.

Além dos equipamentos, ele destaca a importância da atenção redobrada. “É importante evitar locais onde há grande concentração de pessoas empinando pipas. Mas, acima de tudo, é fundamental utilizar equipamentos de proteção, porque tudo acontece em questão de segundos. Quando a linha atinge o pescoço, muitas vezes não há tempo para reação”, finaliza Jorge Bravo.

image Para Jorge, muitas pessoas ainda não têm consciência da gravidade do uso de linhas cortantes. (Foto: Igor Mota / O Liberal)

Riscos à rede elétrica

Além dos acidentes envolvendo motociclistas e pedestres, as pipas também representam uma ameaça ao fornecimento de energia elétrica. Dados da Concessionária Equatorial Pará mostram que, apenas entre janeiro e abril deste ano, foram registradas 994 interrupções no fornecimento causadas pelo contato de pipas com a rede elétrica. O número representa um aumento de 13% em relação ao mesmo período de 2025.

Segundo Elton Lucena, executivo de Segurança da Equatorial Pará, os impactos vão além da falta de energia.

“Quando uma pipa entra em contato com a rede elétrica, ela pode provocar curtos-circuitos e desligamentos que afetam milhares de pessoas. Além disso, tentar retirar uma pipa presa na fiação é extremamente perigoso. A orientação é que a brincadeira aconteça apenas em locais abertos e afastados da rede elétrica”, alerta.

Ele também chama atenção para os riscos específicos do uso de linhas cortantes.

“O uso de cerol ou da linha chilena é considerado crime pelo Código Penal Brasileiro. A formulação do cerol pode conter limalha de ferro, substância que provoca curtos-circuitos e choques. Esses tipos de linha também representam risco para ciclistas, motociclistas e para toda a população”, destaca.

A distribuidora orienta que, caso uma pipa fique presa à rede elétrica, a população não tente removê-la utilizando varas, bambus ou objetos metálicos. A recomendação é manter distância da fiação e acionar os canais oficiais de atendimento da empresa.

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