Pará registra aumento de 21% nos feminicídios e chega à média de 5 vítimas por mês em 2025
Delegada da Polícia Civil explica como identificar os sinais que antecedem o crime letal.
O Pará teve uma média de 5 vítimas de feminicídio por mês em 2025. E ainda, o estado teve um aumento de 21% de mulheres mortas no ano passado, passando de 52 para 63 casos em relação a 2024, como apontam dados do Ministério da Justiça. Belém e Itaituba lideraram as ocorrências em 2025, com cinco registros em cada cidade. Já em 2024, os municípios com mais casos foram Parauapebas e Floresta do Araguaia, com três vítimas em ambas as cidades.
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Pará (Segup) destacou que o Estado mantém uma rede voltada à proteção das mulheres e ao combate à violência de gênero.
“A Secretaria reforça o compromisso do Estado com a prevenção e o enfrentamento à violência contra a mulher, por meio de uma rede de atendimento e proteção que inclui a Delegacia Especializada em Feminicídio, o sistema Alerta Pará Mulher, o aplicativo SOS Maria da Penha, o programa Pró-Mulher Pará, além da Delegacia Virtual e totens de atendimento, voltados ao acolhimento e ao estímulo à denúncia”, ressaltou.
Crime
A delegada Emanuela Amorim, titular da Diretoria de Atendimento a Grupos Vulneráveis da Polícia Civil do Pará, explica que esse crime dificilmente acontece de maneira repentina.
“O feminicídio raramente ocorre de forma súbita. Em regra, é o desfecho de um histórico progressivo de violências, muitas vezes naturalizadas. Estudos e a prática policial demonstram que ameaças, agressões anteriores, controle extremo e episódios reiterados de violência psicológica costumam anteceder o crime letal”, aponta.
Segundo a delegada, há sinais claros que podem indicar risco iminente e que precisam ser levados a sério pelas vítimas e pela rede de apoio.
“Entre os principais sinais de risco estão ciúmes excessivos e possessividade; tentativas de isolamento da vítima pelo afastamento de família e amigos; controle de roupas, redes sociais, horários e deslocamentos; ameaças diretas ou veladas; destruição de objetos, agressividade verbal constante e histórico de violência contra ex-companheiras. Tais comportamentos não são demonstrações de cuidado, mas indicadores de risco”, alerta Emanuela Amorim.
Violência psicológica
A delegada reforça que a violência psicológica é reconhecida legalmente e tem papel central na escalada da violência.
“A Lei Maria da Penha reconhece expressamente a violência psicológica. Ela pode ser identificada por humilhações, xingamentos e desqualificação constante; chantagem emocional; vigilância permanente; e o gaslighting, que faz a vítima duvidar da própria sanidade. Esse tipo de violência fragiliza a mulher, dificulta a ruptura do ciclo e aumenta o risco de violência física e letal”, ressalta Emanuela Amorim.
Apesar de não haver um perfil único, a delegada afirma que a polícia observa padrões recorrentes entre agressores e vítimas.
“O agressor costuma ser um homem que se sente dono da parceira, tem dificuldade em lidar com frustração e término e apresenta comportamento controlador e histórico de violência. Já as vítimas, em muitos casos, estão em situação de dependência emocional ou econômica, isolamento social e histórico de violências anteriores não denunciadas. É fundamental destacar que a responsabilidade é sempre do agressor, nunca da vítima.”
Letalidade
Emanuela Amorim explica que o feminicídio geralmente é precedido por diferentes formas de agressão. “Violência psicológica reiterada, ameaças de morte, violência física crescente, perseguição, violência sexual e descumprimento de medidas protetivas. O feminicídio é, em regra, o último estágio de um ciclo de violências”, diz a delegada.
Segundo ela, esse ciclo costuma seguir uma linha do tempo conhecida pelas forças de segurança. “Controle e ciúmes excessivos, violência psicológica, ameaças, agressões físicas, separação ou tentativa de rompimento, escalada da violência e feminicídio. A fase de separação é reconhecida como uma das mais perigosas”, ressalta Emanuela Amorim.
Entre os fatores que mais aumentam o risco de letalidade estão o acesso a armas, ameaças anteriores e isolamento da vítima. “A posse ou acesso a arma de fogo é um dos maiores indicadores de risco, assim como separação recente, consumo abusivo de álcool ou drogas e histórico de violência crescente.”
Denúncia e proteção
Emanuela Amorim destaca que a denúncia pode ser feita pela própria vítima ou por qualquer pessoa que identifique uma situação de risco.
“A comunidade deve ficar atenta a gritos, pedidos de socorro, agressões recorrentes e relatos frequentes de medo. A denúncia pode e deve ser feita por terceiros, inclusive de forma anônima”, orienta a delegada.
Atualmente, os principais canais de denúncia no Pará incluem o 190, em casos de emergência; o Ligue 180; o Disque-Denúncia 181; as delegacias da Polícia Civil; e a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher Virtual.
Após a denúncia, a rede de proteção é acionada para garantir segurança, atendimento jurídico e acompanhamento psicológico, embora os desafios ainda sejam maiores no interior do estado.
“No interior, as distâncias geográficas, a falta de delegacias especializadas e a dependência econômica e cultural das vítimas dificultam o acesso à proteção. Por isso, o uso dos canais nacionais e a atuação integrada são fundamentais”, comenta Emanuela Amorim.
Acolhimento
Para além da atuação policial, o acolhimento emocional, social e jurídico é apontado como essencial no enfrentamento à violência contra a mulher. Em Belém, o Movimento Olga Benário atua como uma rede de apoio voluntária para mulheres em situação de violência.
“O Movimento de Mulheres Olga Benário é um movimento nacional, organizado em todas as regiões do país desde 2011. Ele nasce da necessidade de mulheres organizadas na luta pelos nossos direitos, na luta pelas nossas vidas”, explica Hadria Maria dos Santos, uma das coordenadoras do movimento na capital paraense.
Segundo ela, o crescimento dos casos de feminicídio expôs a ausência de espaços públicos adequados para acolher mulheres vítimas de violência.
“Desde que o feminicídio foi tipificado, em 2015, a cada ano a gente vê um aumento dos casos. Nunca houve retrocesso. Isso mostrou a necessidade de criar espaços que deveriam ser fornecidos pelo poder público, mas que não existiam”, comenta.
Em 2022, o movimento inaugurou em Belém a Ocupação de Mulheres Rayana Alves, que segue em funcionamento até hoje. “Ele serve como espaço de acolhimento e atendimento a mulheres vítimas de violência, não só da capital, mas de todo o estado, inclusive do interior, onde se concentram muitos casos. Nosso trabalho é 100% voluntário, com psicólogas, advogadas, assistentes sociais e estudantes”, detalha Hadria Maria.
Além do acolhimento imediato, o movimento aposta na formação política e na autonomia financeira das mulheres. “A gente entende que não basta acolher. É preciso formar politicamente essas mulheres para que elas entendam por que a violência existe e como combatê-la. Muitas permanecem na violência porque não conseguem trabalhar, não têm renda e dependem do agressor”, diz Hadria Maria.
Barreiras à denúncia
Hadria aponta que a principal dificuldade para a denúncia ainda é a ausência de uma rede de acolhimento efetiva. “Muitas mulheres sofrem violência e não sabem que aquilo é violência. Outras sabem, mas não têm para onde ir. Falta espaço, falta política pública colocada em prática.”
A dependência financeira, o medo e a falta de apoio familiar também aparecem como obstáculos recorrentes. “Muitas vezes a mulher não denuncia porque não tem recurso, tem filhos e não tem para onde ir. A violência começa antes da agressão física, quando ela é impedida de estudar, trabalhar e construir autonomia”, fala.
Rede de apoio
Para Hadria, familiares, amigos e a sociedade têm papel fundamental no enfrentamento à violência. “Se uma mulher relata uma situação de violência, o primeiro passo é acreditar nela. Denunciar já é extremamente difícil, e quando ela fala, é porque está correndo risco”, aponta.
Ela reforça que acolher não é julgar, mas escutar e orientar. “É ser rede de apoio, oferecer um lugar seguro, saber onde denunciar, conhecer os serviços disponíveis. Muitas mulheres não têm ninguém para conversar”, ressalta Hadria Maria.
Segundo a coordenadora, a naturalização da violência e a descredibilização da fala feminina ainda alimentam o ciclo que termina em feminicídio. “A violência é naturalizada desde cedo, na música, nos filmes, na forma como o corpo da mulher é tratado. Isso faz com que a sociedade minimize a dor e desacredite a vítima”, explica.
Para ela, informação e conscientização são ferramentas fundamentais para salvar vidas. “O feminicídio é evitável. Reconhecer os sinais, denunciar e fortalecer a rede de apoio é o que pode impedir que mais mulheres sejam mortas”, encerra Hadria Maria.
Serviço:
A Polícia Civil do Pará informa que todas as delegacias do Estado estão aptas a atender ocorrências relacionadas à violência contra a mulher. No Pará, as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) de Belém, Ananindeua, Castanhal e Marabá funcionam em regime de 24 horas. As unidades de Santarém e Altamira operam em horário de expediente, das 8h às 18h, com atendimento em sistema de plantão aos fins de semana. As demais DEAMs funcionam das 8h às 18h. Fora desse horário, os atendimentos são realizados pelas Seccionais Urbanas.
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