Sem Círio, 8 mil pessoas da indústria do miriti de Abaetetuba enfrentam crise

Problemas afetam toda a cadeia produtiva de um dos elementos culturais mais simbólicos da Festividade de Nossa Senhora de Nazaré

Victor Furtado

A notícia de que não haveria a 228ª edição Círio de Nazaré de forma presencial, devido à pandemia de covid-19, caiu como uma bomba para ao menos 8 mil pessoas de Abaetetuba. Esse é o universo estimado de trabalhadores da indústria popular e cultural do miriti no município, que é o principal polo produtor dessa madeira ambientalmente sustentável. Uma matéria-prima que vira muitos produtos diferentes. Mas que, em outubro, se transforma em peças artísticas que têm uma relação muito íntima com a fé e com o sustento de famílias paraenses: os brinquedos e promessas.

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Brinquedos, peças de arte e promessas em miriti são alguns dos muitos elementos culturais paraenses que compõem o visual plural do Círio de Nazaré. Talvez muitas pessoas nunca tenham imaginado que uma peça de miriti seja mais que um enfeite ou brinquedo. São obras, que herdam a ancestralidade artística dos povos indígenas e ribeirinhos do estado, como analisa Rosiane Peixoto, professora mestre em Educação e Cultura pela UFPA. Ela é artesã e irmã de Rivaildo Peixoto, presidente da Associação dos Artesãos de Artesanato e Brinquedos de Miriti de Abaetetuba (Asmab).

"O professor Paes Loureiro analisa que as peças de miriti nasceram com as crianças, no sonhar, para virarem brinquedo. O brinquedo virou arte e a arte, o trabalho, conversou com a religião. Virou promessa e virou um elemento do Círio e da cultura indígena e ribeirinha. O artesanato em miriti é um cartão postal artístico. Esse comércio movimenta o saber e os fazer da cultura paraense em porta-retratos, vasos, bolsas, sacolas, paneiros, acessórios e também as peças, brinquedos. Infelizmente, essa situação toda da pandemia mostra o descaso e falta de respeito com fazedores de cultura e arte", diz a mestra Rosiane.

A família da mestra Rosiane e do mestre Riva — ambos foram agraciados com o título de mestre de cultura popular, pelo antigo Ministério da Cultura — está na quinta geração de artesãos. Em agosto, o atelier do Núcleo Familiar Amigos do Brejo estaria fervilhando de pessoas ocupadas em cortar as buchas de miriti, entalhar, polir, pintar e organizar a logística das vendas no Círio. Neste agosto de 2020, o cenário é de tristeza. Silêncio que só é rompido pelas obras que estão sendo conduzidas na vila onde a família Peixoto mora. Na oficina, não há peças empilhadas, só esperando a hora das vendas. Está sobrando espaço e faltando esperança.

"Nosso calendário ficou para 2021. Este ano está perdido. Muitos artesãos até estão em outras atividades para manter o sustento neste ano, como mototáxi, construção civil. Dá uma sensação de desvalorização sim. Historicamente, o artista não é valorizado, só o produto final, a obra dele. Alguns conseguiram entrar no auxílio emergencial do Governo Federal. Outros estão esperando se conseguem auxílio da lei Aldir Blanc, de auxílio à cultura. Outros estão passando necessidade mesmo", comenta mestre Riva.

Não fosse a pandemia, desde julho os ateliês de Abaetetuba já estariam a todo vapor. Mestre Riva é um dos maiores produtores e isso o fez ganhar o apelido de "doido", por aceitar encomendas que poderiam ser consideradas impraticáveis. Só para o Círio, o núcleo familiar chega a produzir 4,5 mil peças. Ao longo de um ano, com todas as encomendas, podem ser de 10 mil a 20 mil peças. Uma das encomendas históricas  foi em 2015, num encontro do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em Belém. Foram 20 mil peças de uma só vez.


35% dos trabalhadores do miriti vivem apenas desse segmento

 

Esse universo de 8 mil pessoas que atuam na cadeia produtiva do miriti, em Abaetetuba, é estimado pela Asamab. Desses, 35% vivem, exclusivamente, do miriti. Apenas de 15% a 20% ainda estão trabalhando no setor devido à crise gerada pela pandemia de covid-19. Do total, a estimativa é que pouco menos de 50% conseguiram o auxílio emergencial. Os demais estão vendo o que fazer da vida. "Até agora, não tivemos nem uma posição da prefeitura ou do Governo do Estado sobre o que faremos. A sensação é de ser desvalorizado mesmo", comenta Riva.

O artista plástico José Guilherme é um dos poucos artesãos que têm alguma outra atividade para se sustentar: restaura imagens e vende diversos produtos (Igor Mota / O Liberal)

Um desses artistas da cultura popular do miriti, que ainda tem como se segurar de outra forma, é o artista plástico José Guilherme Carneiro. O atelier dele mistura peças de miriti com quadros, imagens de santos restauradas, cosméticos, perfumes, remédios naturais e algumas coisas de armarinho. A cada ano, ele produz até 1,5 mil peças para vender no Círio. Neste ano, não vai produzir nem uma novidade. Até porque sobrou coisa do Círio de 2019.

"O Pará é conhecido, mundialmente, pelo Círio de Nazaré. Infelizmente, devido a essa pandemia, essa peste que veio assolar o mundo, teremos de reter a nossa participação e a nossa cultura e trabalho nesse evento tão grandioso. Até então, estamos com um ponto de interrogação sobre o que vamos fazer. Estamos afastados das reuniões com o poder público. Até por causa da pandemia mesmo. É triste", comenta José Guilherme.

 

Girandeiros: os artesãos "raiz" que se fazem de vitrine humana

 

Noutra ponta dos trabalhadores do miriti e do Círio estão os girandeiros. Profissionais que carregam as girândolas, cruzes que tornam a pessoa em vitrine humana do artesanato e da cultura paraenses. O título profissional também vem de outra coisa: o "giro" que eles dão, uma rota de caminhada entre a Basílica Santuário e a Catedral Metropolitana de Belém.

O girandeiro José Antônio e a esposa Waldiane Santos não estão produzindo nem um terço do que deveriam sem o Círio. (Igor Mota / O Liberal)

Muitos girandeiros foram artesãos do miriti originalmente e vendiam as próprias peças. Com o tempo, mudaram um pouco de atuação e passaram a vender produtos diversos, mas ainda artesanais. Terços, berlindas em metal, almofadas, chaveiros, fitinhas... e também pequenas peças de miriti. Ainda há quem se dedique a isso. Esses trabalhadores costumam se concentrar na praça do Carmo, em Belém.

"Não estou fazendo nem um terço do que eu deveria fazer. Estou vivendo das encomendas de clientes mesmo. Em outros anos, já teria feito mais de 1,5 mil fitas só para o Círio. Não vou fechar o ano nem com isso. Agora é pensar no ano que vem. Infelizmente, esse ano já foi e vai ser difícil", lamenta o girandeiro José Antônio Santos, que há 35 anos carrega uma girândola a cada Círio. Mas neste ano não vai.


Conheça a cadeia produtiva do miriti, uma indústria cultural e ambientalmente sustentável

 

Há pelo menos seis entidades representativas dos 8 mil trabalhadores da cadeia produtiva do miriti de Abaetetuba. É fato que, em 1996, após uma aproximação desse segmento do setor cultural paraense com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a indústria popular do miriti mudou para melhor, como reconhece Rivaildo Peixoto (Mestre Riva), presidente da Associação dos Artesãos de Artesanato e Brinquedos de Miriti de Abaetetuba (Asmab). Um novo grau de profissionalismo e qualidade foi atingido.

Essa aproximação com o Sebrae evitou deixar que toda a expectativa de sustento para os trabalhadores do miriti se tornasse totalmente dependente do Círio. Os núcleos familiares aprenderam a se organizar e planejar. São 370 desses núcleos, só em Abaetetuba. Conseguiram encontrar clientes e passaram a demandar mais qualidade e respeito à matéria-prima, obrigando toda a cadeia produtiva a se reinventar e profissionalizar.

O entalhe das buchas de miriti é o começo do trabalho do artesão. Essas buchas já foram rústicas e quase sem valor. Mas até o trabalho do ribeirinho evoluiu com o tempo. (Igor Mota / O Liberal)

Foi assim que as peças do miriti paraense ganharam mercados internacionais — a presença das artes em miriti do Pará estão em quase todo o mundo, afirma Mestre Riva, mas os principais consumidores estão na Europa e na Ásia — e encomendas o ano. Só que o Círio continua sendo a maior vitrine e principal momento de apreciação dessas obras. Igual ao que julho representa para Salinópolis, por exemplo.

A cadeia produtiva começa nas ilhas, com os ribeirinhos. O miriti é uma madeira que existe em grande quantidade, em terrenos alagadiços. Os povos ribeirinhos aprenderam a aproveitar da melhor forma, de modo que a melhor matéria-prima seja extraída e sem agredir o meio-ambiente.

A técnica encontrada foi chamada de "benevolência" (não é o beneficiamento, que é outra etapa). O ribeirinho retira os galhos que as árvores já estão para descartar. É como uma poda, que garante a saúde do vegetal. E só servem dos espécimes mais jovens. As árvores mais antigas são preservadas intactas. "As pessoas acham que é uma extração de madeira que machuca a floresta, mas não. É um cuidado que depende da floresta viva e em pé", explica Mestre Riva.

Os galhos então formam "buchas". Esse subproduto, há 25 anos atrás, lembra o artesão, custava R$ 8 o cento. Mas era feito de forma pouco trabalhada e só 30% realmente se aproveitava. Hoje em dia, uma bucha recebe o beneficiamento e custa R$ 150 o cento. Só que o aproveitamento se tornou total. Cada ribeirinho é capaz de produzir várias centenas de buchas. É um material abundante.

O cesteiro é o segundo na cadeia produtiva. É quem geralmente compra tudo o que os ribeirinhos têm para vender e produzem cestas, paneiros, tipitis e outros trançados da madeira em talas. O que sobra, vai para os intermediários (ou "atravessadores"), que então entregam aos artesãos. No entanto, até a entrega da matéria-prima dos ribeirinhos está prejudicada.

"Essa parceria com o Sebrae e as associações acabou em 2003, quando o serviço passou a focar nos Microempreendedores Individuais (MEI). Sem dúvida, foi o que elevou nosso nível. Saímos do rústico e fomos para um padrão, com peças polidas, lixadas e nível de exposição e exportação. E esses conhecimentos estão sendo passados. Aqui no meu núcleo familiar, estamos na quinta geração", conclui Mestre Riva.

 

Feira do Artesanato do Sebrae-PA ainda sem definição

 

Todos os anos, o Sebrae-PA promove a Feira de Artesanato do Círio (FAC). Neste ano, diante da pandemia de covid-19 e sem Círio, é outro evento que pode passar por mudanças ou nem mesmo ocorrer. Essa decisão, até o fechamento desta matéria, ainda não estava tomada.

O Círio de Nazaré é um dos principais mercados dos artesãos de miriti do Pará. Sejam brinquedos, promessas ou objetos de decoração, as peças são obras de arte com a ancestralidade dos povos indígenas e ribeirinhos (Igor Mota / Arquivo O Liberal)

"Em virtude da mudança de formato do Círio de Nossa Senhora de Nazaré em 2020, comunicada nessa quinta-feira (6) pelo arcebispo metropolitano de Belém, dom Alberto Taveira, o Sebrae no Pará informa que está trabalhando para definir como será sua atuação em apoio aos artesãos paraenses, diante da impossibilidade de realização da FAC da forma como tradicionalmente ocorre há vários anos.  A decisão levará em conta não apenas as normas de biossegurança, em meio à pandemia que ainda vivemos, mas os anseios dos artesãos e as possibilidades viáveis de a instituição realizar alguma ação", diz o Sebrae, em nota.

A edição 2019 foi na Casa das Artes, ao lado da Basílica Santuário. Teve uma área de 617 m²,  60 estandes e mais de 20 mil peças, de 62 artesãos dos municípios de Abaetetuba, Belém, Bragança, Salvaterra e Santarém, em várias tipologias– miriti, fibras, cerâmicas, biojoias, entre outras. Só de miriti, eram 15 mil de miriti. Pelo menos 20 mil pessoas visitaram e gerou um faturamento de quase R$ 300 mil. As informação são do arquivo do Sebrae-PA

“A FAC é uma ferramenta importante de abertura de mercado diante das condições favoráveis para bons negócios nessa época do ano, quando Belém recebe visitantes e turistas de várias partes do Brasil e do mundo. Os contatos realizados no evento geram vendas não apenas nos dias de feira, mas o ano todo”, disse o diretor superintendente do Sebrae-PA Rubens Magno, no anúncio da FAC 2019.

Em 2018, a Feira de Artesanato do Círio atraiu 17 mil visitantes. O faturamento dos artesãos mais que dobrou nos quatro anos anteriores do evento, passando de R$116.893, em 2015, para R$300.000, em 2018.

A FAC começou há mais de 20 anos, mas de forma separada antes. É a junção de dois evento mais tradicionais: a Feira do Miriti, que começou, em 1989, no bairro da Cidade Velha, em Belém, exclusiva para artesãos de miriti de Abaetetuba; e a Feira do Círio, que reunia o trabalho de diversos artesãos do estado, de várias tipologias, em uma área montada ao lado da praça Santuário.

As duas feiras surgiram como forma de valorização do trabalho dos artesãos e do fomento à atividade como um negócio, abrindo mercado para a comercialização. Em 2010, elas passaram a ser realizadas em um mesmo espaço: a praça Waldemar Henrique, mas ainda separadas. Depois, passaram a ocupar o mesmo espaço e o mesmo nome, como FAC. Desde 2017, a FAC é realizada bem no coração da festividade do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, na Casa das Artes, ao lado da Basílica Santuário.

Círio
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