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O Sairé e suas origens

Originalmente esta festa tem sua razão de ser a partir do encontro cultural ocorrido no período da colonização portuguesa na Amazônia

Pe. Sidney Augusto Canto/ Especial para O Liberal

Daqui a alguns dias estaremos vivenciando a realização da festa do Sairé, na vila de Alter do Chão, em Santarém. Originalmente esta festa tem sua razão de ser a partir do encontro cultural ocorrido no período da colonização portuguesa na Amazônia. Os padres, missionários católicos, vinham ensinar aos povos nativos a sua fé em Deus, em Jesus Cristo, em Maria e nos Santos. Para este ensinamento utilizavam-se de símbolos e adaptavam a fé cristã à cultura dos povos indígenas. Assim, o Sairé nasceu como um meio de se fazer a catequese cristã para os indígenas. Daí que muitos cantos antigos do Sairé, ainda na língua geral criada pelos padres Jesuítas, falam do louvor à Deus e aos santos católicos.

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O sairé amazônico

Alter do Chão não é o primeiro local onde foi realizado o Sairé. A festa existia em quase toda a Amazônia. Já houve Sairé em Belém (capital da Província), realizado na Catedral da Sé. Também existia Sairé em outras cidades e vilas da Amazônia. Em Santarém, na foz do rio Tapajós, ele era realizado desde o final do século XVII (antes mesmo de ser fundada a Missão de Alter do Chão). Os relatos mais antigos da realização do Sairé na Vila de Alter do Chão, datam do final do século XIX, no mesmo período em que Monsenhor José Gregório Coelho começou a construção da atual Matriz de Nossa Senhora da Saúde. Hoje, entretanto, a Vila de Alter do Chão é a mais efusiva realizadora da festividade.

Com “S” ou “Ç”

Até 1872 o Sairé era escrito com “S”. Naquele ano, o botânico João Barbosa Rodrigues achando que o nheengatu, falado no Pará, estava errado, achou por bem colocar o “Ç”. Ele considerava como correto o tupi, falado pelos indígenas do sul do país, por isso, tirou o “S” da grafia nheengatu, falado pelos nossos antepassados e, como diz o nosso caboclo, “tacou-lhe” o “Ç”. Típico caso de alguém que, vindo de fora, acha que nossa cultura estava errada e que a cultura de fora estava certa. O “erro” de Barbosa Rodrigues foi criticado por ninguém menos que José Veríssimo, membro fundador da Academia Brasileira de Letras (que grafava “S” no Sairé e fez uma bela explicação sobre Rodrigues, foram reproduzindo a sua concepção. Mas, se algo chama atenção é que o próprio Barbosa Rodrigues chegou a sugerir que a palavra tinha origem na palavra “Soirèe” que pode ser traduzida como “Festa” ou “Baile”. Para justificar o uso do “Ç”, algumas pessoas hoje consideram a palavra “Çairé” muito mais uma logomarca do que a descrição da “Festa” em si. E é assim, entre o passado quase esquecido de uma festa que tinha por finalidade implantar uma nova religião na Amazônia e a disputa entre os grupos folclóricos dos botos “Tucuxi” e “Cor-de-Rosa” do tempo presente, que o Sairé vai deixando sua marca ao caráter profundamente festivo do nosso povo.

 

(*) É presbítero da Arquidiocese de Santarém. Pós-graduado em História da Amazônia. Membro fundador do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós – IHGTap e da Academia de Letras e Artes de Santarém – ALAS.

Pará
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