Museu da Pessoa começa a guardar histórias de paraenses

No Pará, projeto nacional é realizado em Marituba, em dez escolas municipais

Dilson Pimentel

Dona Ana Maria dos Santos nasceu no distrito de Icoaraci e morava em uma casa de madeira "arrumadinha". Durante a infância, sua avó gostava de contar histórias, principalmente de visagens. A criança morria de medo de ouvir alguns desses "causos". Ela gostava de brincar, principalmente, de amarelinha, de pular corda e com as suas bonecas. Aos 20 anos, começou a trabalhar no abrigo João Paulo II, em Marituba, onde desenvolvia atividades relacionadas à área de artes plásticas, trabalhava com costura, pintura e fazia bonecas de pano, que era a sua especialidade.

Hoje, aos 63 anos, está aposentada e costuma viajar bastante. Dona Ana Maria foi entrevistada por 14 alunos do quinto ano da Escola Municipal Doutor Renausto Amanajás, no bairro Dom Aristides, em Marituba. Eles têm entre 9 e 11 anos e, com a orientação da professora Raíssa Maura, contaram essa história em um livro, ilustrado com textos e desenhos. Tudo feito pelos alunos. É o projeto "Memória Local na Escola", que faz parte do Museu da Pessoa. No Pará, o projeto é realizado apenas no município de Marituba, em dez escolas, e começou em agosto deste ano. 

Professora Raíssa Moura: 14 alunos registram relatos na escola Renausto Amanajás (Igor Mota)

Um acervo sem paredes


O Museu da Pessoa é um museu virtual e colaborativo fundado em São Paulo, em 1991, com o objetivo de registrar, preservar e transformar histórias de vida de toda e qualquer pessoa em fonte de conhecimento, compreensão e conexão entre pessoas. A iniciativa é apoiada pelas empresas Avisa Lá e Ultragaz.

Com um acervo de mais de 18 mil depoimentos em áudio, vídeo e texto e cerca de 60 mil fotos e documentos digitalizados, é um importante acervo do patrimônio imaterial cultural e histórico do Brasil e do mundo, pois protege as expressões culturais da sociedade brasileira por meio de histórias de vida.

No momento, o Museu da Pessoa realiza a formação "Memória Local na Escola" - memórias compartilhadas em sete municípios brasileiros: Porto Alegre (RS), Ribeirão Preto (SP), Mesquita (RJ), Salvador (BA), Recife (PE), São Luís (MA) e Marituba, no Pará. A formação, baseada na metodologia desenvolvida pelo Museu, é destinada a professores e alunos de escolas públicas dessas cidades com o intuito de criar seus próprios projetos de memória. 

O objetivo do projeto é realizar, junto aos alunos em sala de aula, o registro, a organização e a socialização das histórias de vida retratadas ao longo das atividades. Agora, os alunos que participam do projeto estão realizando as entrevistas de história de vida com os moradores de seus municípios. Em Marituba, o projeto é apoiado pela Secretaria Municipal de Educação (Semed).

Alunos fizeram livro em sala com histórias de moradores de Marituba  (Igor Mota)

Histórias que cruzam escolas são guardadas


Gestora da Escola Municipal Doutor Renausto Amanajás, Maria Antônia Besteiro diz que o objetivo "é preservar a memória da comunidade, envolvendo alunos, professores e coordenadores do Fundamental 1. Aqui, fizemos esse trabalho com uma moradora do bairro Dom Aristides", contou. 

Elda Oliveira, da Semed, disse que a culminância do projeto será na Feira do Livro de Marituba, de 28 de novembro até 1º de dezembro, quando a diretora do Museu da Pessoa estará em Marituba para certificar professores, coordenadores e alunos que participam dessa atividade.

"São pessoas comuns, que têm história de vida que é preservada. Não é nenhuma celebridade", afirmou. "E isso vai acontecer através das crianças. As turmas escolhidas são do quarto e do quinto anos. As crianças são fundamentais nesse processo", disse Elda, que participa do projeto junto com Sandra Maiolino, também da Semed.

Localizada no bairro Mirizal, a Escola Municipal de Ensino Fundamental Maria de Fátima Monteiro Ferreira também participa do projeto. Os 26 alunos do quarto ano, com idades entre 10 e 12 anos, escolheram, para contar a história, uma professora do próprio colégio. Maria Inês de Lima e Silva já atua na escola há 15 anos.

A coordenadora pedagógica Elma Cajueiro disse que o projeto fez com que os alunos estejam mais empenhados e focados em suas atividades escolares. "Ajuda a desenvolver a escrita, a oralidade, a pesquisa. Eles precisam ler livros (para fazer as atividades)", afirmou.

A professora Inês gostou da experiência. "Eu falei sobre a minha história de vida. Eu nasci aqui, mas fui criada no interior de Altamira. Minha infância era junto com os índios, em Altamira, no Xingu", contou a professora, de 53 anos, que hoje está na função de coordenadora social da escola. Ela morava perto de uma aldeia indígena. Sua mãe é descendente de índios. Em duplas, os alunos e alunas fizeram desenhos e textos contando a história da professora, de origem humilde. 

Escola Maria de Fátima Monteiro Ferreira tem 26 alunos no projeto: patrimônio resgatado (Igor Mota)

À reportagem, os alunos mostraram o que cada um fez no trabalho. Trabalhando em dupla, Weverton e Fernando fizeram desenhos. E gostaram de participar do projeto. Esses depoimentos serão divulgados em um livro virtual do Museu da Pessoa. 

Milhares de histórias de vida estão preservadas no acervo do Museu da Pessoa e encontram-se disponíveis gratuitamente na plataforma virtual para quem quiser acessá-las.

E, em 2019, iniciou o processo de salvaguarda do acervo no Arquivo Ártico Mundial, garantindo o armazenamento ultrasseguro desses dados. "Somos um museu aberto e colaborativo que transforma histórias de vida em fonte de conhecimento, compreensão e conexão entre pessoas e povos. Acreditamos que valorizar a diversidade cultural é contribuir para a construção de uma cultura de paz. Essa é a crença do Museu da Pessoa. Não por outra razão, elegeu como missão valorizar cada pessoa, ao tornar sua história de vida patrimônio da humanidade", diz a fundadora e curadora do Museu da Pessoa, Karen Worcman.

O Museu da Pessoa é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, sem fins lucrativos, que se mantém por meio de programas e projetos realizados em parceria com a iniciativa privada e do apoio de pessoas, instituições e governos.

Pará
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