Covid-19 pode gerar subnotificação nos casos de Doença de Chagas no Pará

Sintomas semelhantes geram dúvidas sobre queda de números da doença entre 2019 e 2020

Eduardo Rocha

Segundo dados da Coordenação Estadual de Doença de Chagas, entre janeiro e agosto de 2020, foram confirmados 103 casos, contra 130 registrados em 2019, uma queda de 20,77%. No entanto, essa redução pode estar associada à subnotificação dos casos pelos municípios em função da pandemia de covid-19, pois alguns sintomas da doença são semelhantes aos da doença de Chagas, principalmente na fase aguda.

“Isso se torna um problema, porque, quando não tratado e acompanhado adequadamente, o paciente, ao evoluir para a fase crônica, tem maiores chances de desenvolver problemas do coração ou do intestino”, alertou Ednei Amador, farmacêutico da Vigilância Sanitária Estadual (Visa) da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa).

Já em setembro, foram registrados nove casos de doença de Chagas, seis dos quais em Muaná, três em Belém e três em São Sebastião da Boa Vista, provavelmente associados à ingestão de açaí contaminado devido à manipulação inadequada.

A Coordenação Estadual de Doença de Chagas monitora esses casos junto aos municípios e aos Centros Regionais de Saúde para investigar a suspeita de novas notificações e encaminhar os pacientes com diagnóstico confirmado ao centro de referência para tratamento e acompanhamento, que é o Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB).

Consumidor
 

Um importante aliado na fiscalização da adequada manipulação de alimentos, em especial nos pontos de venda de açaí, para a prevenção à doença de Chagas por alimentos é o consumidor. “A população pode informar às autoridades sanitárias possíveis casos da doença, o que ajuda no controle da endemia no estado”, como alerta a Visa da Sespa.

A nutricionista Dorilea Pantoja, da Visa, ressalta que a Sespa atua na capacitação de batedores artesanais de açaí, das equipes Vigilância Sanitária dos municípios e dos Centros Regionais de Saúde sobre as Boas Práticas de Manipulação do açaí.

São observadas etapas do processamento do fruto, o que inclui o peneiramento para retirar a sujeira, inclusive, insetos como o barbeiro transmissor da doença de Chagas; lavagens, em três etapas, com água potável esfregando-se o fruto para retirada de resíduos; imersão em uma solução de água sanitária e água potável, na proporção de 7,5 ml para um litro, por 15 minutos; e o enxágue dos frutos, para a remoção do resíduo de cloro.

Em seguida, é feito o branqueamento, para a redução do risco da doença de Chagas, quando os frutos são mergulhados em água aquecida a 80°C (não pode ferver) por 10 segundos e depois em água fria. Após essa etapa o fruto é despolpado e envasado, devendo ser mantido refrigerado e sua comercialização deverá se dar no prazo máximo de 24h após processado. O último treinamento foi de 12 a 16 de outubro, no município do Acará, capacitando 75 batedores de açaí e 57 agentes comunitários de saúde.

O farmacêutico da Visa, Ednei Amador, lembra que o período menos chuvoso e mais seco, conhecido como “verão amazônico”, entre junho e novembro, coincide com o aumento da produção e a redução do preço do açaí, alimento de grande importância no contexto econômico, social e cultural, e de elevado valor nutricional. No entanto, ele alerta que esse também é o período em que há maior registro de casos e surtos de doença de Chagas aguda no Pará, responsável por 80% dos casos confirmados no Brasil nos últimos 12 anos, conforme dados do Ministério da Saúde. 

“É importante alertar que 85% dos casos têm como provável via de infecção oral, geralmente associada ao consumo de açaí contaminado com Trypanosoma cruzi, devido à presença de barbeiro ou de suas fezes contaminados. Daí a importância da capacitação dos batedores de açaí, conduzida pela Visa Estadual”, disse Ednei Amador.

Para tirar dúvidas ou mais informações, entrar em contato com o Departamento de Estadual de Vigilância Sanitária pelo telefone (91) 4006-4883 ou com o Departamento de Controle de Endemias pelo telefone (91) 4006-4823.

Pará
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