Centenário de Camillo Vianna destaca a importância da luta pela causa ambiental no Pará
O médico e ambientalista celebraria dez décadas neste ano e batiza o Parque Estadual do Utinga Camillo Vianna
O Parque do Utinga é um dos pontos mais conhecidos e procurados para lazer e práticas esportivas em Belém. Trilhas, caminhada, ciclismo e outras atividades são algumas buscadas pelos belenenses no local. No entanto, além de ser um importante ponto turístico, o Parque também guarda histórias e memórias que marcam a luta pela preservação da Amazônia. O nome completo do espaço, Parque Estadual do Utinga Camillo Vianna, é uma homenagem ao ambientalista, médico e professor Camillo Vianna.
Nascido em 14 de abril de 1926, Camillo completaria dez décadas de vida neste ano. O legado do ambientalista é marcado por diversas ações que promovem o respeito à natureza e à cultura amazônica. Ele fundou a Sociedade de Preservação aos Recursos Naturais e Culturais da Amazônia (Sopren) em 1968, como forma de conservar a biodiversidade e conscientizar a população local.
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Ações como espalhar sementes e mudas, formar bosques e florestas, bem como organizar semanas de preservação de diversas espécies da fauna e flora amazônicas também fizeram parte da história de Camillo Vianna. Ele foi vice-reitor e pró-reitor de extensão da Universidade Federal do Pará (UFPA), onde idealizou o Trote Ecológico, no qual os calouros plantavam árvores pelo campus Guamá.
Para a família de Camillo, a nomeação do Parque do Utinga em alusão ao ambientalista foi motivo de felicidade e uma forma de reconhecimento da trajetória de um dos ícones da luta pela causa ambiental no Pará. Camillo Junior, Flávio e Alinne Vianna destacam que, desde os anos 90, o ambientalista já se preocupava com a área, chegando a defender publicamente mais ações para proteção do Utinga, em matérias jornalísticas da época.
“Ele dedicou a vida não só a cuidar da nossa floresta, mas também a defender nossa cultura e, acima de tudo, o povo da Amazônia. Ver o nome dele num lugar tão bonito e importante para Belém é uma grande honra e emoção. Agradecemos a toda população paraense”, dizem os filhos Camillo Junior, Flávio e Aline Vianna.
A família do ambientalista relembra que, ao viajar pela estrada, Camillo tinha o hábito de apontar árvores pelo caminho e citar o nome das espécies. Ele estava sempre com um saco no bolso, para recolher sementes no caminho e plantar em outros locais com pouca vegetação.
“Tem uma história que nos marca muito até hoje. Na época do Projeto Rondon, conheceu um senhor que havia recém perdido a esposa. Aquele senhor pediu ajuda através de uma carta. Achamos essa carta anos depois. Nela dizia que estava com um problema no “miolo do juízo”. Naquela época a palavra depressão não era termo conhecido e, mesmo assim, ele entendeu o que era e acolheu aquela pessoa. Essa era a essência dele: pensar no outro e fazer o possível para ajudar”, compartilham os filhos.
Legado
Para além da atuação como médico e ambientalista, Camillo Vianna era uma pessoa extremamente ligada ao ambiente familiar, descrito como respeitoso, amoroso e divertido. Costumava reunir toda a família no pátio da casa para conversar sobre assuntos diversos, além de adorar estar com sobrinhos, irmãos, cunhadas e netos nas reuniões de família. Era bem-humorado, e sempre se tornava o centro das atenções.
“E, sempre que podia, adorava assistir televisão: filmes, programas, telejornais e séries, principalmente as de ficção científica. A leitura de livros e revistas fazia parte do dia a dia. Tinha sempre à mão uma agenda e uma caneta onde anotava informações que ouvia e ideias que ‘brotavam’ da mente”, mencionam os filhos.
Para questões do dia a dia, como pagamentos, por exemplo, o ambientalista não possuía muita habilidade. Contava com o apoio da esposa, Norma, que datilografava todo material que ele produzia, administrava o trabalho e era uma companheira inseparável que colaborava nas decisões importantes.
Para os filhos, algumas características de Camillo, como a integridade, a retidão, o estímulo ao trabalho em equipe e a seriedade com que se envolvia nas diversas questões influenciaram diretamente o comportamento e maneira de agir da família.
“Aprendemos que compromisso se cumpre, que palavra dada não volta, que ninguém cresce sozinho. Por isso, até hoje, na família, a gente mede decisão pela mesma régua: ser correto primeiro, competente depois. Quando um de nós trava diante de um problema, lembra dele entrando de cabeça no trabalho, chamando todo mundo para ajudar. O trabalho dele nos ensinou a trabalhar juntos. Os valores dele nos ensinaram por que trabalhar. E, como ele dizia: “A hora ainda é agora e vale pelo menos tentar””, destacam Camillo Junior, Flávio e Aline Vianna.
Seja com a família, pessoas próximas ou mesmo nas palestras que fez em várias partes da Amazônia, Camillo se destacava pelo jeito único com as palavras. “Era um colecionador de respostas rápidas e inteligentes que ninguém esquecia. Os filhos, sobrinhos e netos têm várias situações que guardam e aplicam na vida. Quando tínhamos algum questionamento ou uma decisão a tomar, ele respondia na hora com uma sabedoria que hoje entendemos como libertadora”, avaliam.
Homenagem
No ano de 2019, Camillo foi homenageado com a Lei nº 8.958, de 19 de dezembro de 2019, homologada pelo governador do Pará, Helder Barbalho, que atribuiu o nome do paraense ao Parque Estadual do Utinga Camillo Vianna. Localizado no bairro do Curió-Utinga, em Belém, o local é uma das 26 Unidades de Conservação estaduais administradas pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-bio).
No ano de 2025, mais de 590 mil pessoas visitaram o espaço, um dos principais para o lazer, educação ambiental e contato com a natureza. A servidora pública Gabriela Barreto, de 40 anos, é de Santarém e costumava ver fotos do Parque do Utinga nas redes sociais, o que a fez ter vontade de conhecer o espaço.
“Acho a homenagem ao Camillo Vianna muito justa, já que ele era ambientalista, médico, prioriza a saúde física e mental. E de fato, caminhando por aqui, vimos outras pessoas caminhando, correndo, família, adultos, jovens e idosos. Parece ser um ambiente democrático utilizado por uma legião de pessoas que buscam saúde e lazer”, afirma, dizendo ainda que, se fosse de Belém, iria ao espaço com frequência.
Já a médica veterinária Daniela Nascimento, de 48 anos, costuma visitar o Parque cerca de duas vezes por mês para passear. “É um espaço acolhedor, que nos permite relaxar, por ser agradável”, pontua.
Serviço
Parque Estadual do Utinga Camillo Vianna
Horário: 6h às 7h, de quarta a segunda
Endereço: Av. João Paulo II, S/N - Curió-Utinga, Belém - PA, 66610-770
Entrada: gratuita
Estacionamento: carro e moto - R$ 10,00 por 2h; fração de hora R$ 8,00. Bicicletas: gratuito.
Atividades radicais: trilhas, rapel, tirolesa, boia Cross, caiaque
*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de Fabiana Batista, coordenadora do Núcleo de Atualidades
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