Mercadante: Há transição para relações unilaterais e autoritárias, especialmente com EUA
O presidente do BNDES mencionou a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos e prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro
O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, defendeu nesta terça-feira, 3, a busca por alianças que enfrentem um conjunto de desafios que se apresentam no momento atual de corrosão do multilateralismo e ascensão do autoritarismo.
"Estamos vivendo um momento de erosão do multilateralismo, de ruptura, e de uma transição muito acelerada a um cenário de mais instabilidade e de relações unilaterais e autoritárias, especialmente em relação aos Estados Unidos", afirmou Mercadante, durante o seminário internacional "Desafios para o Desenvolvimento Sustentável da América Latina", na sede do BNDES, no Rio de Janeiro.
Mercadante mencionou a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos e prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro, classificando como uma violação clara das "regras básicas da soberania e do direito internacional", assim como ameaças do presidente norte-americano Donald Trump de anexar territórios da Groenlândia. Outros desafios seriam o retorno do negacionismo climático, com o abandono do Acordo de Paris, o desmonte de instituições multilaterais como a Organização das Nações Unidas (ONU) e ações de repressão violenta a imigrantes.
"Nós estamos vivendo um conjunto de desafios muito grande e nós precisamos ter muita clareza de como agir para não acirrar esse cenário, para buscar alianças sólidas, mas enfrentar. Porque, na história, a gente tem que enfrentar a adversidade, não se omitir, não se acovardar. É preciso ter coragem, firmeza e bom senso, para a gente poder superar esse cenário todo que nós estamos enfrentando", disse Mercadante.
Para o executivo, os países do Sul Global precisam se encarregar de reformar, modernizar e reconstruir organismos multilaterais, movimento que não será liderado pelo Norte.
"A ONU e essa instituições multilaterais perderam a capacidade de agir e perderam legitimidade. Nós já tínhamos um problema, e uma resposta foi feita através de ruptura ou de várias rupturas que estão em andamento", discursou. "A gente pode negociar muita coisa na vida, mas os valores e os princípios, a gente não negocia. Mantemos como uma bússola mesmo nos cenários mais adversos e obscuros. Nós precisamos reafirmar esses valores e esses princípios. Um dos valores essenciais é a defesa do multilateralismo."
Segundo ele, um comércio com regras e o direito internacional são conquistas civilizatórias da humanidade que não podem retroceder.
"Nós precisamos defender as instituições, reformar, modernizar, atualizar instituições multilaterais. O multilateralismo é uma exigência, é uma dimensão essencial para os países do Sul Global", apontou.
No seminário, o secretário-executivo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), José Manuel Salazar-Xirinachs, também mencionou os tarifaços impostos pelo governo Trump e outras intervenções instrumentalizadas como mais desafios aos países da região.
"Os problemas locais, cada um tem que resolver os seus. E os problemas globais têm que ser resolvidos globalmente. E a solução passa por cooperação", concluiu Josep Borrell, presidente do Barcelona Centre for International Affairs (CIDOB).
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