'Brasil deve rejeitar ataque que viola o direito internacional', afirma internacionalista

Segundo o professor Mário Tito, a principal preocupação imediata está na possibilidade de um conflito bélico se aproximar da floresta amazônica

Gabi Gutierrez
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O ataque dos Estados Unidos à Venezuela representa mais do que um novo episódio de tensão diplomática internacional e pode gerar impactos diretos para o Brasil, especialmente na região amazônica. A avaliação é do internacionalista paraense Mário Tito, que alerta para riscos de conflito armado em área de fronteira, pressão migratória, instabilidade econômica e violações ao direito internacional, com reflexos na política externa brasileira.

Segundo o especialista, a principal preocupação imediata está na possibilidade de um conflito bélico se aproximar da floresta amazônica. O Brasil faz fronteira com a Venezuela por uma das regiões mais sensíveis do território nacional, conhecida na geopolítica como “cabeça do cachorro”, caracterizada pela dificuldade de controle e pela facilidade de circulação entre países. “Trazer um conflito armado para essa área significa colocar a Amazônia no centro de uma disputa internacional”, explica.

Outro efeito direto, de acordo com Mário Tito, é o risco de uma nova onda de refugiados venezuelanos em direção ao Brasil, sobretudo pela rota de Roraima. O movimento migratório, que já ocorre há anos, tende a se intensificar em cenários de instabilidade política e militar, aumentando a pressão sobre os serviços públicos brasileiros, especialmente nas áreas de saúde, assistência social e segurança.

No campo econômico, o internacionalista destaca que qualquer escalada de tensão envolvendo a Venezuela impacta o mercado global de energia. O país possui a maior reserva de petróleo do mundo e integra a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). “Com dificuldades de produção provocadas por ataques ou sanções, o preço do petróleo pode subir, o que afeta diretamente o Brasil, desde o valor dos combustíveis até o mercado financeiro”, afirma.

Diante desse cenário, Mário Tito avalia que o Brasil deverá adotar uma postura firme em defesa do direito internacional. Segundo ele, a tradição diplomática brasileira, reforçada pelo artigo 4º da Constituição, prioriza a soberania, a autodeterminação dos povos e a integridade territorial dos Estados. “É esperado que o presidente Lula e o Itamaraty se posicionem contra qualquer ação que viole esses princípios, reforçando o papel do Brasil como mediador de conflitos”, diz.

O especialista ressalta ainda que a atual política externa brasileira não segue um alinhamento automático aos Estados Unidos. A aproximação do Brasil com os países do BRICS — Rússia, Índia, China e África do Sul — reforça uma estratégia de multipolaridade e defesa de soluções diplomáticas. Nesse contexto, a tendência é de rejeição a intervenções militares e incentivo ao diálogo como caminho para a resolução da crise.

Mário Tito também chama atenção para a gravidade da retirada e prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro, conforme informações que circulam internacionalmente. Para ele, independentemente de críticas ao governo venezuelano, Maduro é o chefe de Estado do país. “Retirar um chefe de Estado do seu território e levá-lo para outro país configura uma violação ao direito internacional e pode provocar reações internas muito fortes”, analisa.

Segundo o internacionalista, o episódio pode aprofundar a polarização interna na Venezuela, aumentando o risco de um conflito civil. De um lado, apoiadores de Maduro, incluindo setores das Forças Armadas; de outro, grupos de oposição que ganharam destaque nos últimos anos. “Esse cenário é extremamente perigoso e traz ainda mais instabilidade para toda a região Norte e Panamazônica”, alerta.

Por fim, o especialista avalia que as próximas horas serão decisivas para o sistema internacional. Ele lembra que a Venezuela está inserida em uma disputa geopolítica mais ampla, que envolve interesses estratégicos dos Estados Unidos, da China e da Rússia. “É preciso analisar essa crise à luz de outros conflitos globais, como a guerra na Ucrânia e a tensão em torno de Taiwan. O que acontece na Venezuela faz parte de um tabuleiro maior, e qualquer erro pode gerar consequências globais”, conclui.

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