Paysandu deve cinco vezes mais do que o declarado na recuperação judicial
No pedido aprovado pela justiça, clube declarou dívidas de pouco mais de R$ 16 mi, no entanto, totalidade de débitos chega a quase R$ 75 milhões
O pedido de recuperação judicial do Paysandu é tratado oficialmente pelo clube como resposta a uma dívida estimada em cerca de R$ 16 milhões, valor apresentado à Justiça como passivo a ser reorganizado. Para pessoas que acompanharam o clube por dentro, no entanto, esse número não reflete a real dimensão da crise financeira vivida pelo Papão. Segundo o ex-diretor de futebol Frederico Carvalho, a dívida total do Paysandu é muito superior à informada no pedido judicial e gira em torno de R$ 75 milhões, resultado de mais de uma década de gestões marcadas por antecipações recorrentes de receitas, ausência de transparência e falta de governança, apesar da troca formal de presidentes.
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“O clube entrou na Justiça dizendo que deve um valor, mas a dívida real é muito maior. Se você considera passivo trabalhista, fiscal e compromissos empurrados de um ano para o outro, esse número passa fácil dos 70 milhões”, afirma Frederico.
O agravamento da crise começou a ficar evidente ainda em 2023, quando o Paysandu passou a antecipar receitas futuras para fechar as contas do presente. A prática, comum no futebol, passou a ser usada de forma recorrente, o que, para especialistas, já indicava que o clube operava acima da sua capacidade financeira real.
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Para o advogado Petterson Sousa, ouvido pela reportagem, a antecipação constante é um sinal clássico de alerta. “Quando a empresa pede antecipação de receita de forma contínua, é porque não tem caixa. Isso indica desequilíbrio financeiro e falhas graves de planejamento”, explica.
A estratégia foi mantida mesmo com o clube exposto ao risco esportivo. O rebaixamento, posteriormente, transformou o que já era frágil em colapso financeiro. “O clube antecipou receitas apostando em permanência em divisões superiores. Quando isso não aconteceu, a conta simplesmente explodiu”, completa Petterson.
Para Frederico Carvalho, a crise pode ser atribuída a um grupo. Segundo ele, as gestões dos últimos 13 anos estiveram ligadas a um mesmo grupo político, independentemente de quem ocupava formalmente a presidência. “Todos os presidentes desse período têm responsabilidade. Mudavam os nomes, mas o comando era o mesmo”, afirma.
Nesse contexto, Frederico cita diretamente Maurício Ettinger e Roger Aguilera, figuras centrais da política interna do clube ao longo da última década. Aguilera, que assumiu a presidência em 2024 após atuar como vice e ocupar cargos estratégicos em gestões anteriores, já estaria — segundo Frederico — plenamente ciente da situação financeira quando foi eleito. “Ele estava lá antes, participou das decisões e sabia do buraco financeiro”, diz.
Falta de transparência
A crítica mais contundente diz respeito à ausência de prestação de contas confiável. Frederico afirma que, ao longo dos últimos anos, o clube não conseguiu fechar balanços consistentes, mesmo em períodos de arrecadação recorde.
“As contas nunca fechavam. Quando uma auditoria apontava inconsistência, trocava-se de auditor. Não havia transparência nem governança”, afirma.
Ele também cita possíveis movimentações financeiras irregulares, como depósitos de recursos do clube em contas e empresas ligadas a dirigentes de gestões passadas, episódios que, segundo ele, constam em auditorias internas e documentos públicos.
“O Paysandu arrecadou mais de R$ 75 milhões em 2024 e mais de R$ 85 milhões em 2025. Mesmo assim, terminou atolado em dívidas. Isso não é má fase esportiva, é má gestão”, diz.
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A conta que não fecha
Atualmente, o Paysandu disputa a Série C e tem como principal receita um patrocínio master estimado em cerca de R$ 6 milhões, valor considerado irrisório diante do tamanho do passivo real.
A situação se torna ainda mais sensível com a declaração pública de Roger Aguilera de que o clube lhe deve cerca de R$ 12 milhões. O dirigente afirmou que abrirá mão do valor por “amor ao Paysandu”.
Para críticos, a declaração reforça o grau de confusão financeira que tomou conta do clube. “Se o próprio presidente diz que o clube deve milhões a ele, isso mostra o nível de desorganização. E abrir mão dessa dívida não resolve um passivo de 75 milhões”, avalia Frederico.
Recuperação judicial sem dinheiro?
Para especialistas, o pedido de recuperação judicial só faz sentido se houver uma fonte concreta de recursos para sustentar o plano de pagamento — algo que hoje não está claro. “Recuperação judicial não é milagre. Sem dinheiro novo, ela não se sustenta”, diz Petterson Sousa.
“Ou o clube tem uma proposta para virar SAF, ou essa recuperação não se sustenta. Não existe plano possível para pagar 75 milhões sem receita estrutural, sendo que o maior patrocínio do clube é de R$ 6 milhões. Essa conta não fecha, é coisa de maluco”., avalia Frederico.
Possível SAF
Nos bastidores, a possibilidade de transformação do Paysandu em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) ganha força como saída viável para um clube que, segundo críticos, já ultrapassou o limite da autossustentação financeira.
“O presidente pode ser que já tenha uma proposta de compra, é possível como saída, pois o clube não tem dinheiro pra pagar o que está se comprometendo no pedido de recuperação judicial, então a SAF viria como a solução deles, vamos aguardar”.
Nos próximos 60 dias, o Paysandu terá de apresentar à Justiça um plano detalhando como pretende pagar suas dívidas. Até lá, o pedido de recuperação judicial expõe não apenas a fragilidade financeira atual, mas também um modelo de gestão que empurrou problemas por mais de uma década — até que não houvesse mais para onde empurrar
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