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Entre churrasco, música e família, torcedoras contam o jeito paraense de torcer

Relatos de azulinos e bicolores mostram rituais, afetos e tradições nos estádios

Fabyo Cruz
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Entre o som do brega, do samba e do pagode, o cheiro de churrasco e a reunião de amigos e familiares, o ato de torcer no Pará vai além dos 90 minutos de jogo. Para torcedoras de Paysandu Sport Club e Clube do Remo, a experiência envolve tradição, memória afetiva e uma rotina que começa muito antes do apito inicial e segue depois do fim da partida.

Professora e moradora do bairro do Telégrafo, em Belém, Inêz Medeiros, de 38 anos, cresceu em uma família majoritariamente bicolor. “Eu tenho uma família muito grande, eu tenho 15 irmãos e a influência significativa na nossa vida para torcer para o Paysandu, de fato, foi pelo meu pai”, conta. “A gente costuma dizer que tem uma irmã desgarrada que torce para o pior [Remo] e os outros 14 irmãos todos torcem pro Paysandu”, completou rindo.

A ligação com o clube atravessa gerações e se consolidou desde a infância. “Eu lembro da minha irmã me oferecer dinheiro e dizer que, se eu aceitasse, teria que torcer para o Remo. Eu pegava o dinheiro e depois dizia: ‘mas eu sou Paysandu’”, relembra.

image Inêz Medeiros e amigos (Foto: Reprodução/Arquivo pessoal)

Apesar da paixão antiga, a ida ao estádio só começou na vida adulta. “Meu pai tinha receio de nos levar. Eu perdi meu pai com 19 anos e, depois do falecimento dele, foi que comecei a frequentar o estádio”, diz. Ainda assim, as lembranças de infância são marcadas por encontros familiares em dias de jogo: “A gente parava no meio da chuva para assistir, comemorava junto. Era uma rotina”.

Hoje, Inêz mantém frequência alta nas arquibancadas e organiza a agenda em torno das partidas. “Tem compromisso que eu não marco quando é dia de jogo. Na maioria das vezes, eu desmarco qualquer coisa para estar no estádio”, afirma. Nem mesmo a ausência de companhia impede a presença: “Já fui sozinha aos jogos. O estádio também proporciona isso: às vezes, na hora do gol, tu abraça um desconhecido e comemora junto”.

O pré-jogo, segundo ela, é um evento à parte. “A gente juntou dinheiro para comprar mesa, churrasqueira, barraca. Cada um leva uma coisa, a gente guarda vaga, monta tudo e fica ali comendo churrasco, tomando cerveja, ouvindo música. É muito brega, que é tradicional nosso, mas também tem samba e pagode”, descreve. A celebração, garante, não termina com o apito final: “Quando volta com vitória, a festa aumenta ainda mais. E depois a gente ainda vai para um after, para casa de alguém ou um bar”.

Azulina de berço

Para a engenheira de pesca Taiana Passos, 30 anos, torcedora do Remo, a relação com o clube também começa no berço — literalmente. “Na nossa família, o bebê não sai da maternidade com roupa comum. Sai com o manto do Remo”, conta. “Torcer foi algo passado geração em geração”, completa.

A influência veio do avô, Amadeu Passos, pescador e marinheiro do Marajó. “Ele era apaixonado. Ensinou a gente desde sempre. Quando tinha jogo contra o Paysandu, ele escrevia os nomes dos jogadores e colocava na geladeira. E dava certo, amarrava os pés dos jogadores do Paysandu”, diz, rindo. O costume foi herdado pelo pai e mantido pelas filhas: “Ele [pai] sempre levou a gente para o estádio. Nunca teve distinção por sermos mulheres”.

Para Taiana, o futebol se mistura com laços familiares. “O Clube do Remo virou mais do que um esporte. Virou amor familiar, fraternidade. Não é só futebol”, afirma.

image Taiana Passos e família (Foto: Reprodução/Arquivo pessoal)

O ritual começa dias antes da partida. A torcedora, que reside no bairro Centro, em Ananindeua, Região Metropolitana de Belém (RMB), diz que se encontra com o pai no Ver-o-Peso, local onde ele trabalha, para o chamado “esquenta”.

“Tem churrasco com peixe assado, família, amigos. Se o jogo é às quatro, meio-dia a gente já tá lá no estádio”, relata. De lá, o grupo segue para o estádio, onde monta uma estrutura própria. “A gente tem cooler personalizado, barraquinha, cada um leva alguma coisa. Tem música também, o papai mandou gravar um CD, agora é pen drive, só com músicas do Remo”.

Durante o jogo, cada integrante mantém seus próprios rituais, mas o coletivo reaparece nos momentos decisivos. “Quando tem gol, todo mundo se abraça, comemora. É aí que mistura o afeto familiar com o amor pelo clube”, diz.

O pós-jogo depende do resultado, mas raramente acaba cedo. “Se for positivo, a gente continua no estádio e depois emenda em algum lugar. Se não, volta mais cedo, mas sempre juntos para o bairro do Jurunas, lugar onde cresci e local onde minha família ainda reside”, afirma.

Entre bicolores e azulinos, as diferenças dão lugar a um ponto em comum: torcer, no Pará, é uma experiência coletiva, marcada por vínculos afetivos, música, comida e encontros que transformam o futebol em extensão da vida cotidiana.

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