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O que a jogada de Vini Jr. nos ensina sobre a vida?

Leia o texto do professor e pesquisador Relivaldo Pinho, escrito especialmente para O Liberal.

Relivaldo Pinho (especial para O Liberal)

Para o Reli, meu irmão. In memoriam.

 

A bola atravessa o meio de campo em velocidade. Vini Jr. sabe o que fazer. Ele dá um tapa entre as pernas do marcador japonês. O adversário, naquele momento, parece ter sentido que era impossível tentar parar o que nenhuma lógica de prancheta ou preleção de incentivo poderia prever. 

Zoom! Vini Jr. dispara. A caneta improvável, imediata e imprevisível não é apenas um drible; ela é um arranque impetuoso em direção ao gol.

Como o jogador anteviu e calculou a distância e o movimento do marcador? E como, no mesmo momento, uniu a beleza do drible ao avanço incontrolável?

Talento? Genialidade? Instinto? Coragem? Tudo isso e algo mais, algo que caracteriza a essência das ações humanas que precisam romper uma lógica imóvel, estática, dura, repetitiva.

Muitas vezes nos deparamos com situações assim. Uma barreira intransponível, um desafio que parece invencível. Uma situação que parecia não poder mudar.

Mas talvez seja da necessidade do rompimento com uma realidade aparentemente invencível que a voluptuosidade, a força, o talento podem surgir.

Não há genialidade que surja sem uma ruptura fulminante com a realidade das coisas.

O insight surge menos porque você é genial, mas mais porque você, incansavelmente, não se dobra, não se rende e, em vez disso, ataca.

Ataca porque a jogada do atleta brasileiro segue; e ele, ao chegar na área adversária, vai para a direita, levando quatro marcadores. Em seguida, ele corta para a esquerda, balançando os adversários que já não estão em sua dimensão.

Agora, aqueles quatro jogadores que estavam em seu caminho fazem parte do passado. Se antes poderiam parecer um obstáculo intransponível, naquele momento, com a disposição de avançar, Vini Jr. os deixou de lado, os abandonou, os ignorou.

Às vezes devemos ter a coragem de enfrentar as coisas desse modo. Para que a volúpia rompa barreiras, para que as forças se redobrem, para que balancemos a vida, derrubando nossas adversidades.

Nem sempre dá tudo certo. No fim do lance, no jogo da Copa, o craque brasileiro bate na bola com o lado externo do pé direito. O goleiro dá um leve toque, um toque suficiente para a bola beijar a trave e negar ao futebol a conclusão de um ato de coragem e beleza.

E, acreditem, isso já foi a essência do estilo de jogar do brasileiro. Mas deve permanecer como possibilidade de jogarmos na vida, diante de desvios que podem parecer definitivos.

Coragem e beleza, porque não existe vitória que, sendo movida pela vontade criadora de mudar as coisas, de mudar a vida, não carregue alguma beleza.

Se nem sempre a beleza pode aparecer como um fim ideal, como no lance da Copa do Mundo, é preciso recordar, parafraseando Paulo, o Apóstolo, que você combateu o bom combate, correu até o fim, guardou a fé.

Talento. Genialidade. Instinto. E esse algo mais que podemos chamar de Arte.

Arte no sentido de ser único. Arte no sentido de ser resultado do talento. Arte no sentido de ser próprio do brasileiro. Mas também a arte no sentido do combate, do homem consigo mesmo e com sua realidade.

A arte do futebol brasileiro, hoje, talvez, seja vista mais nos museus de futebol. Mas naquele lance de Vini Jr. tivemos uma ideia de como uma jogada pode virar um quadro em movimento.

Um quadro como uma vida em movimento.

Como ele dimensionou o tempo da bola, a distância do marcador, a hora exata da caneta e a velocidade do arranque?

Como na vida, é preciso sentir a arte. Nem sempre explicá-la.

 

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