Setor da beleza no Pará cresceu 9,6% e ampliou vagas formais em 2025

Datas comemorativas em janeiro destacam resiliência de um mercado que alia cuidado pessoal, saúde mental e tecnologia para vencer concorrência

Gabriel da Mota

Neste domingo (18), celebra-se em todo o Brasil os Dias do Esteticista e da Manicure. Já na segunda-feira (19), a homenagem se estende aos cabeleireiros. Para além do simbolismo, os números revelam um setor em plena aceleração: segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos no Pará (Dieese/PA), o mercado de trabalho formal para tratamento de beleza no Estado fechou o período de janeiro a novembro de 2025 com um saldo positivo de 103 postos, número 9,6% superior ao mesmo intervalo de 2024. O crescimento das admissões, que saltou 17,2%, indica que, embora a informalidade ainda seja alta, a busca pela carteira assinada ganha fôlego em um segmento que se tornou essencial para o bem-estar paraense. 

Com 17 anos de atuação no mercado de Belém, a esteticista Sayuri Suzuki, de 46 anos, personifica a evolução técnica do setor. Especialista na técnica milenar japonesa Kobido — conhecida como "lift natural" —, ela relata que os últimos dois anos foram divisores de águas para sua carreira. "Eu trabalho com a técnica japonesa Kobido, que faz a diferença na pele e é reconhecida pelos resultados naturais. Esses dois últimos anos têm feito uma diferença enorme aqui na clínica, com uma procura que não para de crescer e que exige resultados reais", explicou.

image Tecnologia e técnica japonesa transformam a estética paraense (Carmem Helena / O Liberal)

O desafio de se manter relevante em um mercado que lança novidades quase diariamente é uma das maiores pressões sobre a rotina de Sayuri. Para ela, a diferença entre o sucesso e a obsolescência está na capacidade de filtrar o que chega às prateleiras e aparelhos. "É preciso acompanhar o ritmo acelerado de inovações, tanto em aparelhos quanto em produtos, e isso exige dedicação contínua. É necessário saber discernir entre o que é apenas uma tendência passageira e o que realmente são avanços cientificamente comprovados", afirmou.

Mais do que a aplicação de princípios ativos, a esteticista enxerga o impacto profundo de seu trabalho na mente de quem deita em sua maca. O consultório tornou-se um espaço de escuta e acolhimento que vai muito além do viço da pele. "As pessoas aqui cada dia mais estão se cuidando, e cuidar da aparência vai além da vaidade. Esse autocuidado afeta diretamente a autoestima, a saúde mental e a autoconfiança, transformando-se em algo fundamental para a vida do paciente", destacou.

image A esteticista Sayuri Otsuki, 46, busca discernir as inovações cientificamente comprovadas das tendências passageiras para se manter relevante no setor (Carmem Helena / O Liberal)

Ao analisar o cenário competitivo de Belém, Sayuri acredita que o potencial de expansão é vasto, mas não aceita o amadorismo. Para ela, o mercado paraense está saturado de opções, mas carente de profissionais que pensem de forma estratégica e qualificada. "O setor da estética oferece um vasto potencial de crescimento, mas exige que os profissionais estejam preparados para esse ambiente competitivo. É necessário ser estratégico para conseguir prosperar e se diferenciar no mercado atual", concluiu.

A empatia como ferramenta de trabalho das manicures

Para Joaida Teixeira, de 32 anos, as unhas são apenas o ponto de partida de um atendimento que prioriza a vida por trás do cliente. Com dez anos de profissão, ela vê no ofício de manicure um papel de cuidado pessoal que exige extrema responsabilidade técnica e emocional. "É preciso ter disponibilidade de horário e manter os materiais sempre limpos e esterilizados, mas o principal diferencial é ser empática. Cada cliente deve ser tratada de forma especial, com a sensibilidade de entender que lidamos com vidas e não apenas com uma fonte de renda", relatou.

Mesmo com o mercado aquecido, Joaida aponta que o preconceito e a falta de acesso a cursos ainda barram o crescimento de muitas profissionais. Para ela, a profissão ainda luta para ser vista com o respeito técnico que merece. "Conseguir materiais acessíveis e cursos para se manter atualizada é um grande desafio, pois a profissão de manicure ainda é vista de forma inferior e preconceituosa por muitos. No entanto, acredito que há espaço para todos e que o mercado oferece grandes chances de renda para quem foge da negligência", pontuou.

Homens buscam bem-estar nos salões de bairro 

No bairro da Pedreira, a cabeleireira Carla Trindade, 40, observa uma mudança estrutural no público que frequenta seu salão. Com 18 anos de experiência e especializada em alisamentos para os cabelos das mulheres, ela viu o público masculino deixar de ser ocasional para representar 30% de seu faturamento. "O público masculino hoje é um dos mais fiéis da área da beleza. De três anos para cá, esse número cresceu bastante e os homens procuram o salão não só pela vaidade, mas pelo bem-estar que o ambiente proporciona", explicou. 

image Cabeleireira Carla Trindade, proprietária de um salão especializado em alisamentos no bairro da Pedreira, já tem no público masculino 30% de sua clientela (Thiago Gomes / Arquivo O Liberal)

Para Carla, o segredo da longevidade no setor é não se deixar vencer pela rotina. Ela acredita que a demanda crescente em Belém permite que profissionais autônomos ou com pontos fixos alcancem rendas expressivas, desde que invistam em aperfeiçoamento constante. "O diferencial é gostar do que faz e buscar sempre o aperfeiçoamento através de cursos. Os maiores desafios são não cair na rotina e estar sempre atualizada com as tendências de cada ano para não ficar atrás da concorrência, que é grande mas cheia de oportunidades", ressaltou.

Informalidade e falta de qualificação desafiam o setor 

A análise do Dieese/PA reforça que a resiliência do setor de beleza no Pará é sustentada por uma demanda recorrente, mas enfrenta gargalos qualitativos. Para o supervisor do órgão, Everson Costa, existe uma dificuldade real de reposição de mão de obra em funções que exigem técnica e experiência.

"Há sinais de dificuldade de qualificação no segmento. A carência no Pará costuma ser mais qualitativa do que quantitativa; não falta gente interessada em trabalhar, mas sim um descompasso visível entre a demanda e a certificação profissional", analisou.

A informalidade ainda atinge mais da metade dos trabalhadores ocupados no estado, o que torna a renda do setor de beleza muito instável e dependente do poder de compra local. Costa explica que trabalhadores autônomos e microempreendedores individuais (MEIs) muitas vezes precisam recorrer a múltiplas atividades para complementar a renda quando o consumo desacelera. "Como a renda é instável, vem a necessidade de complementos, com mais horas de trabalho e múltiplas atividades, gerando vulnerabilidade quando o consumo local perde o fôlego ou os insumos sobem", pontuou. 

Por fim, o Dieese/PA destaca que a formalização é o caminho para garantir a permanência desses negócios em um mercado competitivo. Embora o setor consiga se ajustar rapidamente a crises através de promoções e flexibilidade de preços, a falta de acesso a crédito e fomento para os informais limita o potencial de crescimento. "A combinação de alto custo de insumos e escassez de mão de obra qualificada influencia no desempenho. Garantir o apoio adequado e a formalização do negócio assegura não só a expansão, mas a manutenção de um mercado gerador de emprego e renda no Pará", concluiu Costa.

O MERCADO DA BELEZA* NO PARÁ (2025)

  • Saldo de empregos formais: 103 postos (alta de 9,6%)
  • Aumento nas admissões: 17,2% em comparação a 2024
  • Renda média mensal: estimada entre R$ 3 mil e R$ 5 mil em serviços especializados
  • Impacto masculino: crescimento relevante na procura por serviços nos últimos 3 anos

*Cabeleireiros e outras atividades de tratamento de beleza

Fontes: Ministério do Trabalho/CAGED (com análise e elaboração do Dieese/PA) e profissionais ouvidas pela reportagem

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