R$ 42 o litro: açaí médio e grosso têm leve alta em janeiro, mas encarecem até 17% em um ano
Entressafra, chuvas e falta de Incentivo agrícola elevam preços do açaí em Belém
O preço do açaí voltou a subir em Belém no início de 2026, com o litro do tipo grosso chegando a R$ 41,95 e acumulando alta de 17,6% em 12 meses, segundo levantamento do Dieese/PA. Para o consultor agrícola da Amaçaí, Emerson Menezes, a entressafra e a falta de incentivos para ampliar a produção em terra firme mantêm a oferta abaixo da demanda e pressionam os valores. Já Jhoy Gerald Rochinha Jr, diretor da ACPAB, aponta que as chuvas prolongadas e dificuldades na colheita reduzem o volume e a qualidade do fruto, cenário que deve sustentar preços elevados até o fim do período de menor safra.
De acordo com a pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos no Pará, os reajustes variam conforme o tipo — médio ou grosso — e o local de comercialização. Ainda assim, o cenário é de encarecimento generalizado, tanto na comparação mensal (dezembro de 2025 a janeiro de 2026) quanto no acumulado dos últimos 12 meses.
Açaí médio acumula quase 11% em 12 meses
No caso do açaí tipo médio, o levantamento mostra uma trajetória contínua de alta. Em janeiro de 2025, o litro era vendido, em média, a R$ 26,02. Em dezembro do mesmo ano, passou para R$ 28,77 e, em janeiro de 2026, chegou a R$ 28,82.
A variação mensal foi discreta, com aumento de 0,17% em relação a dezembro. No entanto, no acumulado de 12 meses, a alta alcança quase 11%, percentual bem acima da inflação estimada em cerca de 4% para o período.
Tipo grosso chega a R$ 41,95 e sobe 17,6% no ano
O açaí tipo grosso apresentou elevação mais expressiva. Em janeiro de 2025, o litro custava, em média, R$ 35,67. Em dezembro, o valor já havia subido para R$ 41,65 e, no mês passado, atingiu R$ 41,95.
A alta foi de quase 1% na comparação com dezembro. Já no acumulado de 12 meses, o reajuste chega a 17,61%, mais que o dobro da inflação do período.
Diferença de preços chega a R$ 12 entre pontos de venda
A pesquisa também aponta grande variação de preços conforme o local de venda. Na última semana de janeiro, o litro do açaí médio foi encontrado entre R$ 24 e R$ 30 nas feiras livres. Nos supermercados, os valores oscilaram entre R$ 26 e R$ 28.
Para o tipo grosso, os preços são mais elevados. Nas feiras, variaram entre R$ 30 e R$ 40 por litro. Já nos supermercados, o consumidor encontrou o produto custando entre R$ 37,99 e R$ 42 — diferença que pode chegar a R$ 12 dependendo do estabelecimento.
Entressafra e custos pressionam mercado
Segundo o Dieese/PA, a entressafra do açaí é um dos principais fatores para a elevação dos preços, já que há redução significativa na oferta da matéria-prima. Além disso, pesam no custo final despesas com produção, transporte, energia e armazenamento.
Outro ponto destacado é a manutenção da demanda aquecida, tanto no mercado interno quanto no externo, o que aumenta a concorrência pelo produto e intensifica a pressão sobre a oferta.
Tendência é de preços elevados no início do ano
A avaliação do Dieese/PA é de que o primeiro quadrimestre de 2026 deve manter o açaí em patamares elevados, com viés predominante de alta. Não estão descartados novos reajustes nos próximos meses.
Segundo a entidade, caso a tendência se confirme, o impacto deve ser sentido diretamente no orçamento das famílias paraenses, especialmente daquelas que têm no açaí um item essencial da alimentação diária.
Entre a sazonalidade e a pressão sobre os preços
Emerson Menezes, consultor agrícola da Amaçaí (Associação dos Produtores de Açaí da Amazônia), explica que durante a entressafra, a oferta de açaí diminui consideravelmente, o que leva a um aumento nos preços.
"Nesta época é natural a oferta ser menor que a demanda, pois a safra se foi! O açaí das ilhas e do Marajó não atende mais o mercado com grande demanda para manter o preço mais competitivo", afirma.
Ele acrescenta que o açaí produzido em terra firme, especialmente no Pará, ainda não consegue suprir a necessidade do mercado, o que contribui para o aumento dos preços.
"Enquanto não há incentivo para que a produção seja ampliada em larga escala, sempre passaremos por esta entressafra com preços mais altos”, disse
Menezes também aponta que o governo estadual precisa estar atento à situação. "O aumento da produtividade merece uma atenção do poder público estadual para incentivar os produtores que estão dispostos a trabalhar em alta escala. Isso contribuiria para regular o preço ao mercado, oferecendo mais frutos nesta época”, conclui.
Impacto das condições climáticas no preço
Jhoy Gerald Rochinha Jr, diretor da Associação da Cadeia Produtiva do Açaí de Belém (ACPAB), também aborda a sazonalidade do açaí e os fatores que contribuem para o aumento dos preços. Ele ressalta que o produto tem dois períodos distintos: safra e entressafra, com um ciclo que impacta diretamente a oferta e o preço.
De acordo com Jhoy, o período de entressafra coincide com condições climáticas adversas, como chuvas prolongadas e feriados, que dificultam a colheita.
"O fator do preço que está muito alto coincide com feriados interiores, alta chuva, né? Em períodos agora prolongado, dois, três dias chovendo direto. Então ninguém sobe na árvore molhada para apanhar açaí”, afirma.
Ele também alerta para a queda na qualidade do açaí durante esse período. "Quando eles apanham o açaí mole, eles têm que abastecer o açaí com açaí gelado, que é o caroço que vem no gelo. É por isso que nesse período agora perde um pouquinho de cor, sabor e textura, justamente porque o açaí perde um pouco de qualidade no seu armazenamento”, explica.
Jhoy acredita que a tendência é de aumento no preço do açaí à medida que se aproxima o final do período de entressafra. "Nesse período agora que vai chegar de fevereiro para março, a tendência é de alta, é aumentar o preço do açaí”, afirma.
No entanto, ele reforça a esperança de que a adoção de técnicas de irrigação possa ajudar a estabilizar o mercado.
"O que nós estamos buscando e torcendo que aconteça, é que os plantios, o pessoal que trabalha com irrigação, comece a tirar o fruto e traga para dentro do município para que possa aumentar o volume e estabilizar o preço, não suba tanto”, conclui.
Vendedoras enfrentam aumento de custos e queda nas vendas
Lays Sampaio, vendedora na Feira da 25, conta que, no início de fevereiro, os preços do açaí tiveram um aumento considerável.
"O açaí médio tá variando entre R$ 36 e R$ 40. O grosso tá R$ 55. Em janeiro, o preço variou em relação a dezembro. Na última semana, ele teve um aumento de mais de 30% devido às chuvas. Quando chove, o ribeirinho não tem como apanhar o açaí. Então, fica mais dificultoso o abastecimento", explica Lays.
Ela ressalta ainda que a lei da oferta e demanda afeta diretamente o preço.
"Toda feira tem a lei da oferta e da procura. Quando a gente vai comprar o fruto, a gente se impacta com pouco produto e um preço maior", conta.
Lays também observa que, com o aumento dos preços, as vendas caíram drasticamente em fevereiro.
"As vendas neste mês de fevereiro estão horríveis. Muito fracas. O consumidor não entende que a gente repassa isso aí porque a gente compra caro, e muita gente também não tem poder aquisitivo pra bancar o custo do açaí todos os dias na mesa. Então as vendas caem muito", lamenta.
Suely Nunes, outra vendedora da Feira da 25, também nota o impacto das chuvas sobre os preços do açaí.
"O açaí médio tá R$ 36 e o açaí grosso tá R$ 72. Neste mês de fevereiro, o preço aumentou. Nós tínhamos um de R$ 24 e um de R$ 30. Agora, nós temos um único de R$ 36", diz Suely.
Ela explica que, como as chuvas prejudicam a colheita, o preço tende a subir, o que reflete na diminuição das vendas.
"As vendas diminuíram bastante. Começa a chuva e começa a falhar o açaí. Todo ano a gente tem esse probleminha", completa.
Consumidoras sentem o impacto, mas nem todos alteram o hábito de consumo
Keila Vale, servidora pública e consumidora habitual de açaí, afirma que a alta nos preços a fez reduzir a frequência de compra.
"Ocorreu um aumento no preço do açaí no último mês em Belém. Antes comprava todos os dias da semana, agora compro entre 4 a 5 dias na semana. Caiu a qualidade. Está vindo oxidado, com sabor diferente. Isso fez com que eu compre com menos frequência", relata Keila.
No entanto, nem todos os consumidores percebem um impacto significativo. Helena Gaspar, dona de casa, observa uma alta, mas não altera seus hábitos.
"Tenho observado um aumento, mas não muito significativo. Devido a eu não ser uma consumidora diária, a variação do preço não afeta minha frequência de consumo. Costumo comprar sempre no mesmo local, não notei mudança na qualidade", explica Helena.
Preço médio do açaí em janeiro de 2026 (Fonte: Dieese/PA)
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Açaí médio: R$ 28,82 o litro (aumento de 0,17% em relação a dezembro de 2025).
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Açaí grosso: R$ 41,95 o litro (aumento de 0,72% em relação a dezembro de 2025).
Variação de preços nos últimos 12 meses
Açaí médio:
- Janeiro de 2025: R$ 26,02
- Dezembro de 2025: R$ 28,77
- Janeiro de 2026: R$ 28,82
- Alta de 10,76% no ano.
Açaí grosso:
- Janeiro de 2025: R$ 35,67
- Dezembro de 2025: R$ 41,65
- Janeiro de 2026: R$ 41,95
- Alta de 17,61% no ano.
Diferença de preços conforme o local de venda
Açaí médio:
- Feiras livres: Entre R$ 24 e R$ 30 o litro.
- Supermercados: Entre R$ 26 e R$ 28 o litro.
Açaí grosso:
- Feiras livres: Entre R$ 30 e R$ 40 o litro.
- Supermercados: Entre R$ 37,99 e R$ 42 o litro.
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