Após a polêmica envolvendo o vídeo do açaí sendo jogado fora no Ver-o-Peso, em Belém, a prefeitura realizou, na madrugada desta sexta-feira (27), uma ação de fiscalização e orientação sobre o descarte do caroço do fruto na Feira do Açaí. A medida ocorreu após a repercussão das imagens nas redes sociais, que levantaram questionamentos sobre desperdício e possível retenção para alta de preços.
A operação contou com equipes da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semas), Secretaria Executiva de Zeladoria e Conservação Urbana (Sezel), Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedcon) e Vigilância Sanitária (Sesma), com apoio da Guarda Municipal, sob coordenação da Segbel. Durante a ação, trabalhadores receberam orientações sobre o descarte adequado e foram instalados contêineres para armazenamento dos caroços.
Descarte e impacto nos preços
As imagens que viralizaram foram registradas na quarta-feira (25) e geraram críticas diante do valor do açaí na entressafra. Trabalhadores ouvidos pela reportagem negam que o descarte tenha ocorrido para forçar aumento de preços.
O batedor Luiz Silva, que mantém ponto de venda no bairro da Pedreira, afirma que a carga já chegou comprometida por falhas na conservação durante o transporte fluvial. “Houve atraso na viagem e o gelo acabou. O primeiro açaí que entrou ficou no fundo do porão e foi o que estragou. Não foi retenção para subir preço”, disse. Segundo ele, o produto em boas condições foi vendido entre R$ 110 e R$ 120 a lata, enquanto o que estava deteriorado precisou ser descartado.
Com mais de 30 anos de atuação no complexo do Ver-o-Peso, o comerciante César Ribeiro reforça que a formação de preços segue a lógica da oferta e da procura. “Quando tem muita oferta, o preço cai. Quando tem pouca, sobe. Não existe tabelamento”, afirmou.
O batedor Sebastião Brito, defendeu maior rigor na fiscalização da venda do fruto, especialmente quanto ao tempo de exposição e à qualidade do produto comercializado.
“Na parte de cima do paneiro está um açaizinho bom, mas embaixo já está comprometido. Tem gente que costuma fazer isso, daí, quando a gente compra, acreditamos que está bom. Quando chega na máquina, percebemos que não está, e aí é prejuízo”, afirmou.
Sebastião avalia que, sem controle mais rígido, o prejuízo recai sobre quem bate e vende ao consumidor final. “A gente termina levando a culpa. Precisava ser mais rigoroso. Tem que fiscalizar mais, porque a qualidade do açaí hoje depende disso. Se não houver controle aqui nessa ponta, quem paga é o consumidor e quem trabalha certo.”
Para ele, a presença da Vigilância Sanitária e de outros órgãos é positiva, mas precisa ser contínua. “Tem que existir fiscalização frequente. Se não tiver, fica difícil garantir a qualidade.”
Prejuízo e queda nas vendas
Diretor da associação dos batedores de açaí, Rochinha Júnior avaliou que a ação da prefeitura é positiva para o ordenamento da feira, mas reconheceu o impacto econômico recente sobre o setor.
“Hoje foi importante porque isso é um passo de educação, de conscientização. A gente precisa melhorar o ordenamento, descartar o açaí irregularmente em local adequado e parar de comercializar fruto impróprio para consumo. A presença da prefeitura foi importante para começar uma mudança dentro da Feira do Açaí”, afirmou.
Segundo ele, o prejuízo tem atingido diretamente os pequenos trabalhadores. “A cadeia produtiva está sofrendo com a falta de apoio à agricultura familiar e aos ribeirinhos. Aqui é o termômetro do estado. Se der muito açaí aqui, deu no Pará todo. Se não der aqui, não deu em lugar nenhum”, disse.
Rochinha também citou que a repercussão sobre casos de doença de Chagas afetou a confiança do consumidor. “Isso atrapalhou muito a venda. Eu mesmo saí de 20 latas batidas por dia para 15 ou até 10 no início da semana. Os pontos comerciais estão sendo atingidos pela economia”, relatou.
Fiscalização e confiança do consumidor
Para o dirigente, a presença dos órgãos municipais pode contribuir para melhorar o controle sanitário e recuperar a confiança do mercado. Ele destacou que contêineres foram instalados para garantir a destinação correta do caroço, medida que, segundo ele, não ocorria há anos.
A reportagem do Grupo Liberal acompanhou parte da ação de fiscalização na madrugada desta sexta-feira. No entanto, não teve acesso ao porta-voz oficial da operação até o fechamento deste texto e aguarda mais informações da Prefeitura de Belém sobre os desdobramentos da ação.