No Ver-O-Peso, peixeiros dizem que Semana Santa perdeu força nas vendas de pescado em Belém
Vendedores afirmam que aumento da concorrência e mudanças no consumo reduziram impacto do período religioso no faturamento
Tradicionalmente associada ao aumento no consumo de peixe, a Semana Santa já não tem o mesmo impacto nas vendas de pescado em Belém. No mercado do Ver-o-Peso, um dos principais pontos de comercialização do produto na capital paraense, peixeiros afirmam que o período deixou de ser o auge do faturamento e hoje é visto como uma semana de trabalho quase normal.
Segundo Fernando Souza, presidente do Sindicato dos Peixeiros de Belém e Ananindeua, a procura pelo pescado ainda não começou a crescer, mesmo com a aproximação da data religiosa. Ele explica que, diferente de anos anteriores, os consumidores já não mantêm o hábito de consumir peixe durante todo o período da quaresma.
“Hoje a gente ainda não vê essa demanda. Está muito no início de março e as pessoas já não têm mais aquele costume antigo de preservar todo o período da quaresma. A procura maior começa mesmo na semana da Semana Santa ou, às vezes, poucos dias antes”, afirma.
De acordo com ele, neste momento o mercado enfrenta um cenário de menor oferta de peixe, provocado principalmente pelo período chuvoso na região.
“Agora a gente está com uma oferta menor por causa das chuvas. Se você observar na Pedra do Peixe, tem muitos boxes até parados porque falta pescado. Essa situação costuma melhorar quando chega a Semana Santa, porque os barcos vêm vender e aumenta a oferta”, explica.
Mercado funciona como “bolsa de valores”
No Ver-o-Peso, os preços do pescado podem mudar diariamente, dependendo da quantidade de peixe disponível. Por isso, segundo Souza, não existe um cálculo prévio de reajuste específico para a Semana Santa.
“Aqui a gente costuma dizer que a Pedra do Peixe funciona como uma grande bolsa de valores. Tem dia que o preço está um, no outro já muda. Pode subir ou baixar dependendo da oferta do pescado”, diz.
Entre os peixes mais procurados no período estão espécies bastante presentes na culinária amazônica, como filhote, dourada e tambaqui. Os valores variam conforme a oferta do dia, mas, em média, podem custar entre cerca de R$ 25 e R$ 60 o quilo no mercado.
Mesmo assim, os vendedores afirmam que o aumento de preços durante a Semana Santa costuma ser pequeno.
Dados mostram, no entanto, que o pescado já vem registrando alta nos mercados municipais da capital. Pesquisa divulgada nesta quinta-feira (12) pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (Sedcon) e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese/PA) aponta que a maioria das espécies comercializadas em Belém apresentou aumento de preço no mês de fevereiro.
Segundo o levantamento, 20 das 23 espécies de pescado pesquisadas registraram alta entre janeiro e fevereiro de 2026. O destaque foi o tucunaré, espécie de maior valor agregado, que liderou os reajustes com aumento de 24,40%. Em seguida aparecem o tamuatá (+10,31%), o cação (+7,05%), a arraia (+6,76%) e a pescada gó (+6,14%).
Também tiveram aumento a serra (+5,88%), a pescada amarela (+5,68%), a traíra (+3,94%), o filhote (+3,90%), o mapará (+3,47%), o bagre (+3,37%), o curimatã (+2,41%), a pratiqueira (+2,34%), a sarda (+2,29%), o tambaqui (+1,74%), a piramutaba (+1,47%), a corvina (+0,60%), a gurijuba (+0,25%) e a dourada (+0,20%).
Na outra ponta, apenas três espécies apresentaram recuo no período: tainha (-3,70%), pescada branca (-2,03%) e aracu (-1,95%).
Medidas
Para evitar extrapolações de preços e garantir o abastecimento durante a Semana Santa, a Prefeitura de Belém informou que realizará fiscalizações para controlar a saída de pescado da capital a partir do próximo dia 23 de março.
“Para isso uma Guia de Transporte do Pescado (GTP) será emitida pela Sedcon a todos os comerciantes que desejam comprar peixe por atacado na Pedra do Peixe do Ver-o-Peso e levar até outra localidade. Com o controle dessa saída, a ideia é garantir o abastecimento local e evitar especulações de valores do peixe”, explicou o Secretário de Desenvolvimento Econômico, André Cunha.
André explicou, ainda, que o controle da saída do peixe para outros localidades deve garantir o abastecimento da capital, e assim evitar preços abusivos no período da Semana Santa, tanto para quem revende, quanto para o consumidor final.
Período já foi o “Natal do peixeiro”
Apesar da tradição religiosa, peixeiros relatam que a data já teve um peso muito maior nas vendas. Fernando Souza lembra que, no passado, o período era conhecido entre os trabalhadores como o “Natal do peixeiro”.
“Hoje a gente considera praticamente uma semana normal de trabalho. Antes era diferente, tinha muito mais movimento. Era o que a gente chamava de Natal do peixeiro”, conta.
Ele atribui essa mudança principalmente ao aumento da concorrência no comércio de pescado.
“Hoje, quando chega esse período, todo mundo quer vender peixe. Tem supermercado, outras feiras, gente vendendo na rua. Isso aumenta a concorrência e acaba diminuindo o impacto nas vendas daqui”, afirma.
Quem também percebe essa transformação é o peixeiro André Cavalcante, que trabalha há mais de cinco décadas no Ver-o-Peso. Ele afirma que a procura pela Semana Santa costuma crescer apenas muito próximo da data.
“A procura maior acontece bem perto mesmo, quase na semana. Antes era diferente, o movimento era muito maior”, relata.
Segundo ele, a popularização da venda de peixe em diferentes pontos da cidade contribuiu para reduzir a exclusividade do mercado tradicional.
“Hoje em dia tem peixe em todo canto. Na Semana Santa aparece gente que nunca trabalhou com peixe e começa a vender. Tem supermercado, tem gente vendendo de bicicleta, tem em vários lugares”, diz.
Mesmo assim, Cavalcante afirma que o Ver-o-Peso continua sendo uma referência para quem busca pescado em Belém.
Preço segue ritmo da safra
Outro fator que influencia os valores do pescado ao longo do ano é o período de safra. De acordo com o peixeiro, os preços costumam cair a partir do meio do ano, quando aumenta a quantidade de peixe disponível.
“Lá por julho começa a baixar porque entra a safra. Aí vai julho, agosto, setembro… e depois volta a subir novamente”, explica.
Até lá, a expectativa dos vendedores é que o movimento aumente gradualmente conforme a aproximação da Semana Santa, mesmo que o período já não tenha o mesmo peso de outras épocas para o setor.
Preços sobem no início do ano
Levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos no Pará (Dieese/PA), realizado em parceria com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico de Belém (Sedcon), aponta que a maioria dos pescados comercializados nos principais mercados municipais da capital apresentou aumento de preços em fevereiro de 2026.
Dos 23 tipos de pescado pesquisados, 20 registraram alta na comparação com janeiro. Entre as maiores variações estão o tucunaré, com aumento de 24,40%, seguido do tamuatá (+10,31%), cação (+7,05%), arraia (+6,76%) e pescada gó (+6,14%).
Apesar da elevação mensal, o comportamento no acumulado do ano foi diferente. Considerando janeiro e fevereiro, 19 das 23 espécies analisadas apresentaram redução de preços. As maiores quedas foram registradas no aracu (-32,43%), filhote (-18,48%), pescada gó (-15,88%) e serra (-14,60%).
Na comparação entre fevereiro de 2026 e fevereiro de 2025, porém, o movimento predominante é de alta. Das 23 espécies pesquisadas, 22 ficaram mais caras, muitas com variações superiores à inflação do período, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que ficou em cerca de 4,5%.
O maior aumento foi observado no tamuatá (+43,72%), seguido da pescada gó (+33,70%), do filhote (+32,12%) e da sarda (+31,77%).
Segundo a análise do Dieese/PA e da Sedcon, o comportamento dos preços está relacionado a fatores sazonais e estruturais, como períodos de defeso, restrições ambientais, alterações no regime de marés e condições climáticas que reduzem a oferta de pescado. Custos operacionais, como combustível e logística, também influenciam os valores.
Com a proximidade da Semana Santa, período tradicionalmente marcado pelo aumento do consumo de peixe, cresce a expectativa de maior movimento nos mercados da capital. Ainda assim, vendedores avaliam que o impacto da data nas vendas já não é o mesmo de décadas anteriores.
Altas de preço em fevereiro
• Tucunaré: +24,40%
• Tamuatá: +10,31%
• Cação: +7,05%
• Arraia: +6,76%
• Pescada gó: +6,14%
Maiores quedas de preço no início de 2026
• Aracu: -32,43%
• Filhote: -18,48%
• Pescada gó: -15,88%
• Serra: -14,60%
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