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Pará descartou 63,13% de vagas com trabalhadores de 65 anos ou mais em 2025

Especialistas de RH apontam etarismo e falta de políticas de valorização como barreiras, enquanto empreendedores 60+ ganham espaço no estado.

Jéssica Nascimento
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O mercado de trabalho formal no Pará apresentou crescimento em 2025, mas nem todos se beneficiaram. Trabalhadores com 65 anos ou mais foram responsáveis por 63,13% das vagas perdidas, segundo levantamento do Dieese/PA. Entrevistados pelo Grupo Liberal apontam que a falta de estratégias empresariais para atrair e reter essa mão de obra mantém muitos sêniores à margem do emprego formal, enquanto o empreendedorismo entre os 60+ cresce como alternativa estratégica.

Um relatório recente da Society for Human Resource Management (SHRM) mostra que, em um cenário de alta demanda por habilidades técnicas, os trabalhadores acima de 65 anos se destacam pelo conhecimento, lealdade e contribuição à diversidade etária. Apesar de 98% dos profissionais de RH reconhecerem essas qualidades, apenas 7% das empresas têm estratégias estruturadas para atrair ou reter esse público.

Trabalhadores 50+ enfrentam perdas no mercado formal do Pará mesmo em cenário de crescimento do emprego

Apesar de o mercado formal de trabalho no Pará ter registrado saldo positivo de 51.288 vagas entre janeiro e novembro de 2025 — com 487.261 admissões e 435.973 desligamentos —, os trabalhadores com 50 anos ou mais enfrentaram um quadro oposto, segundo levantamento do Dieese/PA, com base em dados do CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).

No período, esse grupo etário teve 31.943 contratações contra 33.695 desligamentos, resultando em saldo negativo de 1.752 postos de trabalho formais. A maior parte dessa perda foi concentrada entre os profissionais com 65 anos ou mais, responsáveis por 63,13% do total de vagas perdidas, enquanto a faixa entre 50 e 64 anos respondeu pelos 36,87% restantes.

O estudo também revela que nenhum setor da economia paraense conseguiu gerar saldo positivo para os trabalhadores mais velhos. A maior perda absoluta e relativa ocorreu no Setor da Construção, que eliminou 799 postos, ou 45,53% do saldo negativo total. Em seguida, a Agropecuária perdeu 503 empregos (28,66%), o Comércio reduziu 190 vagas (10,83%), a Indústria registrou 178 desligamentos (10,14%) e o Setor de Serviços teve saldo negativo de 85 postos (4,84%).

Segundo o Dieese/PA, a exclusão do mercado formal afeta não apenas a renda, mas também o papel social desses trabalhadores, já que muitos continuam sendo os principais provedores familiares.

“Embora a experiência profissional seja valorizada pelo mercado, os números mostram que ela não tem sido suficiente para garantir a manutenção dos vínculos formais de mais de 1.700 trabalhadores com 50 anos ou mais no Estado do Pará ao longo de 2025”, alerta o estudo.

O levantamento reforça a importância de políticas de qualificação, requalificação e valorização da experiência, além de investimentos em geração de emprego e renda, como caminhos para melhorar a inclusão e permanência desse segmento no mercado formal. Em um cenário nacional marcado por 6 milhões de desempregados, sendo cerca de 260 mil no Pará, a situação evidencia a necessidade de medidas estratégicas para que a mão de obra sênior deixe de ser vista apenas como grupo vulnerável e passe a ser reconhecida como ativo valioso e estratégico para empresas e sociedade.

“Os 60+ são uma alternativa concreta e estratégica”, defende gerente de RH

Para Anna Padinha, gerente de Recursos Humanos e diretora da ABRH-PA (Associação Brasileira de Recursos Humanos do estado do Pará), a presença de profissionais mais velhos no mercado paraense vem crescendo devido à dificuldade das empresas em encontrar talentos qualificados.

“Essa demanda é mais perceptível em áreas administrativas, financeiras, atendimento, vendas consultivas, logística e funções técnicas, onde experiência, estabilidade e maturidade fazem diferença nos resultados”, afirma.

No entanto, ela alerta que o principal entrave ainda é cultural. “Persistem estigmas ligados à idade e falta de políticas estruturadas de diversidade etária. Poucas empresas investem em modelos de trabalho flexíveis e em estratégias de requalificação contínua voltadas a esse público”, explica.

Para Anna, medidas como capacitação contínua, integração tecnológica, processos seletivos mais inclusivos e programas que valorizem a troca de conhecimento entre gerações podem reduzir essas barreiras.

O desafio da adaptação tecnológica e da valorização da experiência

A psicóloga clínica e organizacional Rebeca Barbosa, vice-presidente da Diretoria de Relacionamento da ABRH-PA, reforça que o impacto do envelhecimento da população no mercado de trabalho paraense já é sentido.

“Algumas empresas começaram a contratar mão de obra acima de 50, 60 anos porque essas pessoas entenderam que, se a longevidade aumentou, elas precisam ter também produtividade”, afirma.

Ela destaca que, apesar de o comprometimento e a experiência desses profissionais serem diferenciais, há necessidade de adaptação tecnológica e suporte adequado, além de atenção a questões de saúde física e mental.

Sobre iniciativas locais, Rebeca observa que ações voltadas à contratação e requalificação de trabalhadores 60+ ainda são pontuais, muitas vezes restritas a multinacionais. “Se há alguma empresa no Pará trabalhando com isso, são setores e empresas isoladas. Ainda não há um movimento amplo no estado”, diz.

Na visão dela, mudar a percepção cultural é central. “Quando a gente entende que a longevidade aumentou, uma pessoa de 60 anos ainda está na vida produtiva. Mesmo que ela não precise ganhar dinheiro, ela tem necessidade de ter vida útil, mental e física. Essas pessoas são mais experientes, mais pacientes e preparadas para lidar com estresse e pessoas. O que falta é treinamento e qualificação para a tecnologia atual”, explicou.

Comércio varejista paraense reconhece valor estratégico da mão de obra 60+

No comércio varejista de Belém, os profissionais acima de 60 anos vêm ganhando atenção especial como solução para a escassez de trabalhadores qualificados. Muzaffar Douraid Said, empresário e diretor do Sindilojas, afirma que “o potencial dos profissionais acima de 60 anos é altíssimo e cada vez mais valorizado no comércio varejista, principalmente diante da dificuldade crescente em preencher vagas que exigem experiência e atendimento qualificado”.

Segundo ele, experiência, resiliência e autoridade são recursos valiosos para o setor, complementando o dinamismo das equipes mais jovens.

“Credibilidade, empatia, equilíbrio de equipes, diversidade etária nas equipes combinam com o dinamismo dos mais jovens e a experiência dos mais velhos cria um ambiente mais equilibrado e produtivo”, explica Muzaffar.

O retorno ao mercado de trabalho, destaca o empresário, vai além da necessidade financeira: “Para muitos, significa qualidade de vida e saúde emocional, o que reflete no maior comprometimento e propósito”. Ele observa ainda que a geração 60+ traz conhecimento prático e habilidade de atendimento ao cliente desenvolvidas ao longo dos anos, contribuindo para a retenção de talentos e a redução da rotatividade nas empresas.

No entanto, Muzaffar ressalta que desafios persistem, como o etarismo e a necessidade de adaptação tecnológica. Para enfrentá-los, o sindicato atua em frentes legislativas e de conscientização, incluindo convenções coletivas que prevêem incentivos fiscais e projetos de lei para facilitar a contratação e valorização desses profissionais.

Profissionais 60+ mostram que experiência e flexibilidade podem andar juntas no mercado paraense

No Pará, trabalhadores acima de 60 anos estão redefinindo o conceito de vida profissional ativa, mostrando que experiência, conhecimento e engajamento continuam sendo valiosos mesmo após a aposentadoria. Vera Fidalgo, 63 anos, consultora empresarial e docente universitária, destaca que permanecer no mercado é uma forma de atualizar constantemente habilidades e competências, inclusive em tecnologias e inteligência artificial.

“Graças a Deus, não tenho dificuldade no trabalho por causa da minha idade. Procuro entender as expectativas futuras e criar estratégias para manter a vanguarda nas atualizações”, afirma.

Vera também valoriza a possibilidade de combinar trabalho com qualidade de vida, optando por atividades remotas, híbridas e presenciais, além de palestras e workshops.

Para Cleo Mendes, 72 anos, que atua na área de Gestão de Pessoas, o trabalho é mais que renda: é uma forma de gerar impacto estratégico e humano. “A motivação é desenvolver talentos, fortalecer lideranças, melhorar processos e cuidar das pessoas para que elas entreguem o seu melhor de forma sustentável”, explica.

Cleo lembra que, mesmo trabalhando até os 69 anos com carteira assinada, manteve a própria consultoria, equilibrando produtividade com qualidade de vida.

“Máquinas, sistemas e tecnologia são importantes, mas são as pessoas que fazem a empresa crescer. Cuidar de gente é cuidar do futuro do negócio”, completa.

Nem todos os profissionais seniores tiveram trajetórias sem obstáculos. Rute Ribeiro, 63 anos, recepcionista bilíngue do gabinete da Presidência de um órgão público, enfrentou dificuldades para conseguir emprego após os 60. Apesar de ter um currículo considerado bom, precisou buscar vagas abaixo de sua qualificação e passou por sete meses de procura, três entrevistas e um teste antes de ser contratada. Hoje, Rute destaca que ser bem aceita no ambiente de trabalho depende não apenas da experiência, mas também da atitude e personalidade:

“Tenho uma postura alegre e jovial, e isso ajuda bastante”. Ela valoriza a semana de cinco dias, baixo estresse e plano de saúde como condições essenciais.

Por fim, Vera Fonseca, 60 anos, psicóloga concursada e funcionária pública, reforça que nem sempre a idade representa barreira. Com doutorado em andamento e atividades docentes em paralelo, ela afirma que não sofre etarismo e é respeitada pelos colegas, conciliando estudo e trabalho nos dois turnos.

Cresce o empreendedorismo entre pessoas com mais de 60 anos no Pará

O aumento da expectativa de vida tem levado cada vez mais pessoas a empreender depois dos 60 anos. No Pará, o movimento é forte: segundo Rubens Magno, diretor-superintendente do Sebrae no estado, “o número total de empreendedores no Pará gira em torno de 1,35 milhão de pessoas. Desse total, 10,8% têm 60 anos ou mais, o que corresponde a cerca de 145.800 pessoas”.

O estado se destaca no cenário nacional. “Percebemos que o número de empreendedores acima dos 60 anos tem crescido nos últimos quatro anos e o Pará possui uma das maiores taxas de empreendedorismo entre a população sênior do Brasil. O total de empreendedores acima de 60 anos no estado chega a 16,6%, ficando atrás apenas de Mato Grosso, que apresentou taxa de 18%”, afirma Magno.

No Brasil, a tendência também é crescente. Dados do Sebrae indicam que a faixa de empreendedores sênior já representa cerca de 4,3 milhões de pessoas, um aumento de mais de 50% nos últimos 12 anos. 

Para Rubens Magno, “esses dados evidenciam a importância crescente do empreendedorismo sênior para a economia do Pará, gerando impacto positivo e valorizando o conhecimento e a experiência acumulada ao longo da trajetória profissional”.

Experiência e segurança como diferencial

Segundo Magno, os motivos para empreender depois dos 60 são variados.

“O desejo de se tornar dono do próprio negócio se faz presente em todas as idades, mas o empreendedorismo sênior mostra que sempre é possível criar oportunidades de desenvolver uma nova carreira, buscar novas formas de renda e conquistar realização pessoal”, destacou.

A experiência de vida faz diferença na escolha do negócio. “Percebemos que essa parcela dos empreendedores costuma ser mais criteriosa quanto à escolha do modelo de negócio e busca oportunidades de baixo risco, ou seguem prestando serviços na carreira que exerceram ao longo da vida profissional. A opção pela segurança se deve principalmente por estarem investindo as economias de uma vida”, explica.

Orientações para quem quer empreender depois dos 60

Rubens Magno reforça que, mesmo com experiência prévia, é fundamental buscar atualização. “Orientamos a todos que se informem sobre as tendências do segmento escolhido, aprimorem habilidades técnicas, se adaptem às mudanças do mercado, conheçam novas tecnologias e se capacitem em gestão de empresas. Participar de seminários, feiras e capacitações sobre planejamento estratégico, formação de preços e marketing é essencial”, disse.

Ele conclui destacando que determinação é tão importante quanto conhecimento: “Investir em um negócio exige coragem para arriscar, independentemente da idade. Além da ideia e do conhecimento técnico, é preciso ter determinação para colocar o projeto em prática”.

Saldo geral do mercado formal no Pará (jan-nov/2025), segundo o Dieese/PA

  • Saldo positivo: 51.288 vagas
  • Admissões: 487.261
  • Desligamentos: 435.973

Trabalhadores com 50 anos ou mais:

  • Admissões: 31.943
  • Desligamentos: 33.695
  • Saldo: negativo de 1.752 vagas

Distribuição das perdas por faixa etária (50+):

  • 65 anos ou mais: 63,13% do total de vagas perdidas
  • 50 a 64 anos: 36,87%

Perda de vagas por setor econômico de trabalhadores 50+ no Pará:

  • Construção: 799 postos perdidos (45,53% do saldo negativo)
  • Agropecuária: 503 postos (28,66%)
  • Comércio: 190 postos (10,83%)
  • Indústria: 178 postos (10,14%)
  • Serviços: 85 postos (4,84%)

Contexto nacional e regional:

  • Desempregados no Brasil: 6 milhões
  • Desempregados no Pará: ≈260 mil

 

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