Acordo Mercosul–União Europeia promete baratear perfumes, vinhos e artigos de luxo em Belém
Enquanto vitrines da capital podem exibir produtos europeus mais acessíveis, entraves logísticos, tributários e institucionais indicam que o Pará corre o risco de perder a chance de transformar o acordo em desenvolvimento produtivo e protagonismo exportador
O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, negociado há mais de duas décadas e agora em fase final de ratificação, começa a redesenhar as expectativas do mercado brasileiro de importados. Em Belém, importadores de produtos e itens de luxo produzidos em países europeus aguardam os efeitos da redução gradual das tarifas de importação, que hoje podem chegar a 35%. Para profissionais do setor, a medida pode ampliar o acesso a novos públicos, aumentar o leque de marcas disponíveis e diversificar a oferta de produtos; já para especialistas em economia, relações internacionais e representantes do setor produtivo, os impactos tendem a ser mais estruturais, graduais e desiguais entre consumo, indústria e exportação.
A expectativa de redução gradual das tarifas de importação sobre produtos manufaturados europeus reacendeu o otimismo no comércio de importados em Belém. Itens como perfumes franceses, vinhos, bolsas italianas, calçados espanhóis, equipamentos eletrônicos e lentes europeias para óculos estão entre os produtos que podem chegar ao consumidor final com preços mais competitivos após a entrada em vigor do acordo entre Mercosul e União Europeia.
No setor varejista, a percepção é de que o acordo pode alterar a dinâmica de consumo. Para Marta Gómez, gerente comercial de uma loja especializada em produtos importados com atuação em Belém e outras capitais da região Norte, a redução de impostos tende a quebrar a ideia de que o produto europeu é, necessariamente, inacessível.
“O importado sempre foi visto como algo muito caro por causa da carga tributária. Com o acordo funcionando, será possível trabalhar com mais marcas, ampliar o portfólio e tornar esses produtos mais acessíveis”, afirma.
Segundo ela, embora não seja possível estimar o percentual exato de queda nos preços, qualquer redução já gera efeitos ao longo da cadeia. “Desde a fabricação na Europa até o transporte, o armazenamento e a estocagem, tudo envolve custos. Quando a carga tributária diminui em algum nível, isso acaba impactando outros custos também”, explica.
Ela revela que além de reduzir os custos e ampliar a freguesia, com o corte dos impostos, será possível oferecer uma gama ainda maior de produtos. “A gente conseguirá ampliar a quantidade de produtos e de marcas que trabalhamos”, explica.
Repasse ao consumidor
Apesar do otimismo no varejo, especialistas ponderam que o repasse integral da redução tarifária ao consumidor final não é automático. Segundo o economista e doutor em Relações Internacionais, Mário Tito, a ratificação pela União Europeia deve ocorrer até meados de maio, enquanto no Brasil o processo tende a se concluir até o fim do primeiro semestre. “A partir do segundo semestre, o país já pode começar a usufruir dos benefícios do acordo”, projeta.
Tito explica que o efeito da alíquota zero sobre o preço final será condicionado por fatores como o ICMS, os custos logísticos amazônicos e a estrutura concentrada do varejo local. “Do ponto de vista matemático, a retirada do imposto de importação reduz o preço. Isso deve acontecer, por exemplo, com vinhos, azeites, chocolates e perfumes. No entanto, esses bens de alto valor agregado continuam ligados à capacidade de pagamento de determinadas classes”, avalia.
Para ele, o acordo não deve promover uma democratização ampla do consumo. “Esses produtos não vão baratear a ponto de alterar o padrão de consumo. O acesso continuará restrito às faixas de renda mais elevadas.”
Varejo físico, comércio eletrônico e logística
A eliminação do imposto de importação também tende a pressionar o varejo físico em Belém diante do avanço do comércio eletrônico. Sem o peso da tarifa federal, plataformas digitais passam a operar com preços mais competitivos, maior transparência e margens reduzidas, forçando lojas físicas a rever estratégias.
Para o internacionalista Rodrigo Lopes, pesquisador de Geografia da Universidade do Estado do Pará (Uepa), esse movimento não deve ser analisado apenas a partir das limitações históricas da Amazônia. “O Pará possui ativos logísticos importantes, como o Complexo Portuário de Vila do Conde, que já opera cargas conteinerizadas e de maior valor agregado. A proximidade geográfica com a Europa é uma vantagem comparativa relevante”, afirma.
Ele cita ainda a retomada das obras do Pedral do Lourenço, que pode ampliar a navegabilidade do rio Tocantins, além de projetos como a Ferrogrão, como fatores capazes de reduzir custos e aumentar a previsibilidade logística no médio prazo. “Isso tende a reposicionar a região nas cadeias de comércio, inclusive no ambiente digital”, avalia.
Indústria, têxtil e efeitos estruturais
No campo industrial, o acordo também é visto como estratégico. Em nota oficial, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT) celebrou a aprovação do acordo pelos países da União Europeia, destacando oportunidades como expansão do comércio de bens manufaturados, atração de investimentos, cooperação tecnológica, sustentabilidade e qualificação de mão de obra.
De acordo com a entidade, os artigos têxteis e confeccionados terão cronogramas de desgravação tarifária diferenciados, podendo chegar a até oito anos. Em 2025, o Brasil exportou US$ 66 milhões em produtos têxteis para a União Europeia e importou US$ 333 milhões do bloco. A Europa também figura como a segunda principal origem das importações brasileiras de máquinas para a indústria têxtil.
Indicações geográficas e risco de oportunidade perdida
Apesar do potencial comercial, especialistas alertam para o risco de o Pará se consolidar apenas como mercado consumidor. O debate sobre Indicações Geográficas (IGs) evidencia essa fragilidade. Produtos como o queijo do Marajó, o cacau de Tomé-Açu e a farinha de Bragança possuem forte identidade territorial, mas ainda enfrentam entraves como certificação sanitária, padronização, escala produtiva e adequação às exigências ambientais do mercado europeu.
Mário Tito defende que a estratégia passe pela agregação de valor, qualidade e sustentabilidade. “O mercado europeu é extremamente sensível à pauta ambiental. Produtos com selo verde têm grande aceitação. É preciso articular políticas públicas, cooperativas e o setor privado para estruturar toda a cadeia produtiva”, afirma. Ele também alerta para a necessidade de equilíbrio entre exportação e abastecimento interno, evitando pressão inflacionária local.
Impactos no Agro
O diretor da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa), Guilherme Minssen, destaca preocupações específicas do setor agropecuário. “Nossa maior preocupação está em produtos fortemente subsidiados na Europa, como os lácteos. Os produtores paraenses já enfrentam dificuldades com importações do Uruguai e da Argentina”, afirma.
Na avaliação do presidente da Associação dos Produtores de Soja do Pará (Aprosoja), Vanderlei Ataíde, o acordo entre Mercosul e União Europeia tem caráter estritamente econômico e não estabelece, em seu texto principal, critérios ambientais relacionados ao desmatamento.
Segundo ele, as exigências ambientais que impactam diretamente o produtor rural brasileiro estão concentradas em outra normativa europeia, a EUDR (Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento), cuja implementação já foi adiada para o fim de 2026 e pode sofrer novas prorrogações devido às dificuldades operacionais, como a rastreabilidade da produção.
Ataíde destaca que o Brasil, e especialmente o Pará, já possui uma das legislações ambientais mais rigorosas do mundo, com exigências claras de licenciamento, autorização de supressão vegetal e controle territorial. Nesse contexto, ele aponta o papel de entidades como a Aprosoja no apoio técnico e institucional aos produtores, especialmente no processo de desburocratização e garantia de segurança jurídica para quem atua dentro da legalidade.
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