Especial: Glória Maria e a história da TV brasileira

Primeira repórter negra da TV brasileira, Glória conta que, quando começou a carreira, não tinha em quem se inspirar

Agência Estado

Com 40 anos de jornalismo, Glória Maria ficou conhecida, sobretudo, pelas reportagens que faz ao redor do mundo e pelas entrevistas com personalidades nacionais e internacionais. Agora, Glória vai ajudar a contar a história dos 70 anos da televisão no País - da qual ela própria faz parte - no Globo Repórter que vai ao ar nesta e na próxima sexta-feira, 18 e 25 de setembro.

Os dois programas serão apresentados por ela e Sandra Annenberg, que se unem a Edney Silvestre, Renato Machado e Isabela Assumpção para entrevistar atores, personalidades e apresentadores.

"A gente pretende contar um pouco da história da televisão desde que ela surgiu. Vamos passar pela dramaturgia, pelo esporte, pelo jornalismo, pela música. É óbvio que não temos condições de mostrar tudo, primeiro, por causa do tempo e também muita coisa se perdeu", diz Glória, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, por telefone, do Rio.

Glória conta que um dos entrevistados, o "Rei" Roberto Carlos, que apresentou o programa Jovem Guarda, exibido ao vivo, nos anos 1960, lembra que foi um dos momentos mais emocionantes quando se viu pela primeira vez num programa gravado.

A apresentação desse especial marca o retorno de Glória ao Globo Repórter, onde está há dez anos. Ela estava afastada havia nove meses do programa, após passar por uma cirurgia no cérebro.

Ela descobriu um tumor depois de desmaiar em casa. "Eu não tinha nenhum sintoma, nenhuma dor de cabeça. Caí em casa; tive um corte na cabeça. Fui ao hospital para costurar, e, no exame para descobrir por que eu tinha desmaiado, descobriram o tumor", conta.

"A cirurgia foi em novembro; quase em março eu estava recuperada. Não estava totalmente, mas já daria para trabalhar com muito cuidado. Não daria para viajar, porque eu ainda estava em tratamento. Aí veio a pandemia. Quando tive de parar de ir para o mundo, o mundo também parou."

Com passagens pelo Jornal Nacional, pelo Jornal Hoje, entre outros, Glória lembra que foi para o Globo Repórter para concentrar as viagens pelo Brasil e poder cuidar mais das filhas, já que, no Fantástico, ela estava sempre em algum lugar do mundo.

"De repente, mudou tudo: estou muito mais no mundo (risos). Mudou de uma maneira natural, mas consegui administrar minha vida como mãe, e as viagens foram surgindo cada vez mais porque deram supercerto no programa."

Mick Jagger

Aliás, por causa dessas viagens pelo mundo, Glória se tornou uma espécie de rainha dos memes. "Eu adoro. Acho que é oficial: até bati a Gretchen no recorde de memes. Fazer trabalho jornalístico, que realmente me faz bem, me dá orgulho, orgulha as minhas filhas e ainda tem um lado de humor que as pessoas conseguem tirar disso, desse mundo tão triste, tão desigual, tão amargo. Você quer coisa melhor do que isso?", diz. "Tudo é tirado do meu trabalho e não da minha vida pessoal; isso é o que me dá o maior orgulho."

Ela relembra a reportagem na Jamaica, onde fumou ganja, e a cena virou meme. "Foi um país que me marcou, porque fiz uma coisa que nunca tinha sido feita na TV brasileira e talvez na TV mundial, que foi ter fumado aquele negócio dos rastafáris. Então, se isso vira meme, que honra."

Agora, um antigo vídeo de Glória entrevistando Mick Jagger para o Jornal Nacional viralizou nas redes sociais. Em 1984, o líder dos Rolling Stones veio ao Brasil para gravar o clipe de Lucky in Love, de seu primeiro disco solo, She's the Boss, e falou com exclusividade com a então novata jornalista.

Chamaram atenção dos internautas, em especial, os olhares que Jagger lançava para Glória e o beijo que ele deu em seu rosto.

E, realmente, houve um flerte dele? "Quando estou trabalhando, não presto atenção em nada. Eu estava preocupada com meu inglês, que era péssimo na época, estava em pânico de estar com aquele ídolo que é o Mick Jagger. Nem prestei atenção se ele me olhou ou não. Aliás, hoje até lamento ter perdido essa chance, porque eu estava tão preocupada em fazer o trabalho direito", diverte-se.

"Fui prestar atenção agora. O que achei é que ele me olhou de um jeito carinhoso, de quem queria me dar uma força, uma pessoa totalmente sem preconceito. Estou lá com meu cabelinho black power. Eu era uma mulher negra, jovem, começando a fazer um trabalho, e ele estava lá encantado, tentando me ajudar naquele trabalho. Essa foi a leitura que fiz daquele vídeo. Vi que ele estava ali para me ajudar e não para me paquerar."

Primeira repórter negra da TV brasileira, Glória conta que, quando começou a carreira, não tinha em quem se inspirar. "Porque não tinha outra repórter negra, eu tinha um caminho aberto para percorrer. Tive o privilégio, a sorte de entrar na TV Globo numa época em que tudo estava começando. Não tive obstáculo porque eu era negra. O fato de eu ser negra acho que até me ajudou", afirma ela.

"Eu tinha barreiras comigo mesma, de insegurança, de estar começando, de não saber direito o que fazer, porque eu não tinha em quem me espelhar. Eu tinha que correr atrás, tinha que aprender. Iniciei muito jovem. Então, as minhas dificuldades eram comigo mesma. E tive todo um caminho a percorrer."

Televisão
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