Telas de Dias Júnior revelam em Belém cenas das periferias amazônicas
Artista plástico de apenas 28 anos mostra sensibilidade, vigor e senso crítico em 48 trabalhos que podem ser contemplados na Galeria Theodoro Braga, no Centur, a partir desta quinta (12)
Pessoas nas periferias das cidades da Amazônia têm dias intensos, e, por isso, geram cenas fortes em todos os sentidos. Essas cenas foram captadas pelos olhos do jovem artista plástico Dias Júnior, de 28 anos, natural de Abaetetuba, e agora, transformadas em pinturas, poderão ser contempladas na exposição “Paralelos: Do interior ao subúrbio”, na Galeria Theodoro Braga, no Centur, a partir desta quinta-feira (12). Os trabalhos dessa primeira mostra individual de Dias Júnior mostra muito do talento desse artista, mas, em especial, expõe a vida dura de muita gente e a beleza de quem não se entrega às dificuldades do dia a dia e busca sempre um futuro melhor.
A partir de um olhar mais arguto, dialético, toda cena produzida por cidadãos no mundo gera reflexões sob vários ângulos, e isso ganha relevo quando se trata de periferia. Isso porque a vida nessas áreas urbanas difere muito dos centros das cidades, ou seja, o cenário, as pessoas, as atividades, os olhares são diferentes. E isso é o que as 48 obras de Dias Júnior, morador do bairro do Guamá, conseguem repassar ao público. A exposição é viabilizada pelo Edital Branco de Melo da Fundação Cultural do Estado do Pará.
“Essa minha primeira mostra individual é sobre a minha trajetória e pesquisa, onde eu vim do interior para morar próximo da Universidade, a qual está localizada em um bairro considerado periférico. Então, tento retratar cenas que estão presentes pra mim nesse cotidiano e trazer também temas que são sensíveis a nossa sociedade, como desigualdade social, a desvalorização de trabalhadores que atuam nas ruas, etc. ‘Paralelos" é um resultado de anos de pesquisa e entendimento de como posso conscientizar e trazer reflexões para as pessoas por meio da minha arte”, destaca Dias Júnior.
Ele constrói sua pesquisa a partir do deslocamento entre interior e cidade, observando situações cotidianas que revelam estruturas de exclusão social profundamente enraizadas. Esse olhar se traduz em uma narrativa visual que articula estética e política, tendo como foco corpos, territórios e experiências frequentemente invisibilizadas. Dias Júnior formou-se em bacharelado em Artes Visuais pela UFPA em 2025.
Esse momento de expor trabalhos seus é muito representativo na trajetória do artista. “Desde pequeno, eu já fazia vários desenhos e participava de pequenas exposições na minha cidade natal. Com 11 anos, durante uma visita a uma psicóloga, foi detectado que eu tinha altas habilidades e, desde lá, participei de uma turma com outras crianças com altas habilidades na escola onde estudava”.
“Eu estou atuando como artista visual desde 2019, quando comecei meu curso na UFPA. Durante os anos de 2021 e 2023, fui assistente no ateliê do artista Éder Oliveira e, desde lá, comecei a trabalhar em minha pesquisa como artista visual”, conta Dias Júnior.
Paralelos
“Muitas coisas que eu vejo no bairro do Guamá ou até em outras periferias de Belém me fazem lembrar de algumas cenas que eu via em Abaetetuba. Por isso, trago esses paralelos, que são imagens cotidianas e congêneres em diferentes lugares que eu estive presente”, ressalta Dias Júnior.
O artista detalha algumas cenas que ocorrem tanto em Belém como em Ananindeua e vice-versa. “O quadro ‘Galera da Gentil’, onde retrato jovens saindo de uma quadra onde praticam esportes para um momento descontraído em uma praça; a série ‘Pessoas da Amazônia Paraense ‘, onde as pessoas esperam por barcos ou pontos de ônibus; e a série ‘Deslocamentos Fluviais’, onde o interior e a capital se ligam, pois é retratado um momento de viagem”.
Dias Júnior acredita que, mesmo com tantas dificuldades econômicas e sociais, “existem muitas coisas bonitas e pessoas incríveis nas periferias”. Nesse sentido, destaca estilos musicais, dialetos, o modo de se vestir e “até eventos culturais que se iniciaram com as pessoas das periferias, que por muito tempo foram marginalizadas e agora têm voz em vários âmbitos, e isso é extremamente importante”.
Desse modo, o público visitante da mostra vai poder contemplar trabalhos confeccionados ao longo de quatro anos, entre pinturas e desenhos em técnicas mistas, com predominância da tinta a óleo. Ele utiliza papel craft nos trabalhos. “O craft traz uma estética muito singular para os trabalhos, fazendo que a imagem principal se sobressaia sem eu precisar de um fundo muito definido”, diz o artista plástico.
“Pintar pra mim é algo que muitas vezes se torna cansativo, mas é mais que um trabalho. O processo às vezes é longo e você não fica satisfeito durante a produção de um trabalho, mas o resultado final é gratificante”, pontua Dias Júnior.
A exposição é organizada em sete séries e quatro peças únicas, enfocando a ancestralidade negra, trabalhadores das ruas, o corpo em trânsito entre capital e interior, o cotidiano do Guamá e a realidade de pessoas em situação de rua, e, ainda, cenas de lazer juvenil na periferia, releituras autobiográficas sobre identidade racial, paisagens simbólicas ligadas à cidade natal do artista e o trabalho informal nos rios do Pará.
Além da exposição, haverá uma programação de atividades de mediação, incluindo rodas de conversa, debates, e visitas guiadas. A mostra contará com audiodescrição, montagem adequada para pessoas com mobilidade reduzida, e apoio de monitores, para o acesso de públicos diversos, incluindo pessoas com deficiência visual.
Serviço:
Exposição: ‘Paralelos: Do interior ao subúrbio’
Do artista plástico Dias Júnior
Abertura: 12 de fevereiro de 2026, das 19h às 22h
Visitação: 19 de fevereiro a 31 de março de 2026
(Segunda à sexta, de 9h às 17h).
Local: Galeria Theodoro Braga,
na Av. Gentil Bittencourt, 650. subsolo do Centur - Nazaré, Belém - PA
Entrada Franca
Informações:
Instagram: @diasjuniorart
E-mail: diasjunior.art@gmail.com
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