Pará se despede de Heliana Barriga, escritora que ensinou gerações amazônicas a gosta de ler a vida

Aos 75 anos de idade, a autora sofreu uma parada cardíaca nessa segunda (2); velório transcorre no Teatro Waldemar Henrique, no centro de Belém

Eduardo Rocha
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No rosto, ela tinha sempre um sorriso estampado. Capaz de chamar mais a atenção do público que os seus cabelos em tom azul. Porque de fato não valeria a pena ter cabelos azuis sem uma alma sorrindo. Pois, a literatura paraense, amazônica,  perdeu nessa segunda-feira (2) pela manhã a escritora Heliana Barriga, aos 75 anos de idade. Ela sofreu uma parada cardíaca, em Belém, e surpreendentemente deixa de escrever poesia, livros para o público infantil e adulto também, deixa de contar histórias, como o fez por mais de 40 anos. O corpo de Heliana Barriga é velado no Teatro Waldemar Henrique, no centro de Belém.

Mas, como a vida pode ser considerada uma história, Heliana Barriga vai ser sempre um personagem que gostava muito do que fazia, ou seja, apresentar o universo da escrita e leitura, da literatura para crianças, jovens e adultos (nunca é tarde para descobrir essa arte). Tinha ênfase no cuidado  de todos com o meio ambiente, com a vida. E com essa intenção, ela não apenas escrevia as histórias. Ia ao encontro dos leitores, em feiras literárias, em praças públicas, em escolas e eventos mil. 

Recebia a todos os leitores e futuros leitores com o seu contumaz sorriso. Juntos, mergulhavam no mundo da literatura, para apreciar a beleza de personagens, de versos, de narrativas em cordel, nas ilustrações, nas brincadeiras motivadas pela leitura, na confraternização de novos amigos. Aprendiam juntos a questionar as ações do poder e a sonhar um mundo mais justo para todos, em particular, para os povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos. 

Na Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes, coordenada pela Secretaria de Estado de Cultura (Secult), Heliana Barriga tinha presença certa. Interagia com o público e transmitia o seu amor pela literatura, pela vida. Tanto que em 2023, na 26ª edição da Feira,  Heliana foi homenageada.

Em Nota nessa segunda-feira (2), a Secult se manifestou: “A Secretaria de Estado de Cultura (Secult) lamenta, com profundo pesar, a morte da autora, compositora, poeta e contadora de histórias Heliana Barriga, nesta segunda-feira (2). Em 2023, a artista foi homenageada na Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes. Nascida em Castanhal, a escritora conquistou um público fiel, que se encantava com sua poética lúdica e cativante. Com mais de 60 publicações, Heliana teve sua trajetória dedicada à literatura infantil, abordando temas importantes, como a consciência ecológica e o imaginário amazônico. A Secult se solidariza com familiares e amigos”.

Impactados

O falecimento de Heliana Barriga deixou também entristecidos familiares, muitos amigos e admiradores do trabalho dela. Letícia Barriga, filha de Heliana, informou que a escritora tinha quatro filhos e era divorciada. “Ela era escritora, compositora com uma extensa obra literária e musical voltada principalmente para o público infantil. A imagem que ficará na nossa memória é a da mamãe feliz sendo homenageada na Feira do Livro de 2023”, diz Letícia.

Deia Palheta, da coordenação do Grupo de Cultura Regional Iaçá, do bairro da Sacramenta. “Perdemos nossa amada amiga,parceira, irmã”, afirmou, emocionada Deia Palheta. Heliana e Deia compuseram canções como “Negra Sereia” e “Manas, Mani, Manizola”. 

“Heliana deixou seu legado de doação de amor, de entrega gratuita aos nossos álbuns ‘Roda de Carimbó’ (2007) e ‘Roda de todos os Batuques’ (2024). O trabalho artístico de Heliana Barriga desde 1987, com o icônico ‘Mala Sem Fundo’, foi o abre- alas da sua longa e brilhante trajetória”, finalmente reconhecida na penúltima feira pra Amazônia do Livro”, pontua Deia Palheta.

Como repassa a amiga, Heliana Barriga  era engenheira agrônoma formada pela então FCAP (atual Universidade Federal Rural da Amazônia) nos anos 1980, com mestrado em Melhoramento de Plantas. Ela foi servidora pública da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), “porém, os caminhos tradicionais lhe eram insuficientes pra sua alegria sem tamanho. Rompeu com tudo e todos que não a compreendiam,e foi viver somente de sua arte a partir de 1986. Hoje vai brilhar no céu das Amazônias corajosas, incólume quanto ao seu caráter de respeito para consigo, para com sua alma Poeta Livre”, destaca Deia.

Para o escritor, poeta e trovador Antônio Juraci Siqueira, “a passagem de Heliana Barriga é uma imensa perda para a arte e a cultura do Pará e do Brasil, uma lacuna difícil de ser preenchida pela dimensão e diversidade de sua arte”. Juraci conhecia Heliana desde desde 1984. Ele ressalta que essa autora escrevia, compõe e canta para todas as idades, “mas dá uma atenção maior para o público infantil”. 

“Eu destaco no trabalho da Heliana a ludicidade de sua obra, tanto para o público adulto quanto para o público infantil. Quando conta e canta, encanta!”, diz Juraci Siqueira, também contador de histórias ao público. 

Ele lembrou que conheceu Heliana Barriga em 1984 na I Semana de Cultura Alternativa no Museu Paraense Emílio Goeldi, sob a coordenação do arqueólogo/poeta Marcos Pereira Guimarães, o Onna Agaia. “Após esse encontro não mais a perdi de vista, apaixonando-me pelo seu trabalho, pela sua força, alegria contagiante e sensibilidade. Não é à-toa que ela declara, na última página de ‘Naturomem’, livro publicado em 1983: ‘Tenho a sensibilidade de uma terra seca quando recebe os primeiros pingos da chuva’ “.

Juraci relembra que Heliana largou um emprego bem remunerado pela aventura de sobreviver de arte em plena Amazônia “tendo, contra si, o pecado de ter nascido mulher numa sociedade machista e misógina”. 

“Mas, sem pensar duas vezes, foi em frente com a cara, a coragem e o talento inconteste, embrenhando-se pelas trilhas da música, da poesia e da literatura infantil. Foram muitos os títulos publicados, alguns adotados em escolas do Rio de Janeiro, São Paulo e outros estados. Em seus livros a Natureza se faz sentir através de seus personagens. A agrônoma que plantava com as mãos da poeta e, agora, a poeta que escreve com as mãos da agrônoma.  A terra está sempre presente em sua obra, ávida e grávida. A terra em seu sentido mais amplo: a Natureza; a Vida”. Esse é um trecho de um texto que Antônio Juraci Siqueira repostou em homenagem a amiga Heliana Barriga. 

Já o ex-prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues, manifestou-se assim: “Recebo com profunda tristeza a notícia do falecimento da minha amiga e companheira de lutas Heliana Barriga. Mais do que uma grande escritora e contadora de história paraense, ela foi uma tecelã de sonhos e de encantamento de crianças, jovens e adultos, que nos deixa um legado incomensurável de criatividade, talento e compromisso com a transformação social. Meus sentimentos à família, aos amigos e aos admiradores dessa grande artista e educadora libertária”. 

 

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