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O silenciamento não apaga a força e a luta da mulher na música

Layse alcança mais uma conquista na carreira com o lançamento do EP "Caso Raro", nesta sexta-feira (14)

Bruna Lima

Uma mulher no comando de uma bateria ainda não é algo comum no mundo da música. Mas algumas, como a Layse do Farofa Tropikal, enfrenta as barreiras e deixa o público encantado com toda a irreverência na condução das baquetas. Ter esse tipo de ousadia requer coragem e força, já que dentro do universo da música as mulheres sofrem de várias formas a violência do silenciamento e da discriminação.  Esta semana, a União Brasileira de Compositores (UBC) divulgou uma pesquisa que mostra essa realidade. De 252 profissionais da música entrevistadas, 79% disseram já sofreram discriminação por serem mulheres.

Trazendo um pouco desse cenário para o mercado local da música, Layse diz que o resultado da pesquisa não lhe causa surpresa. Mas, mesmo diante das tentativas de silenciamento, ela opta pelo enfrentamento e busca por igualdade. "Não é nada fácil lidar com qualquer tipo de abuso, pois é algo esmagador", destaca a artista.

Ela diz que as questões de força, inteligência e experiência são os principais pontos colocados em comparação. Para ir de encontro a tudo isso, a artista diz que opta em enfrentar todos os preconceitos. "Essa pauta faz parte do meu processo de evolução como artista. Sempre soube dessa realidade e tenho certeza que tudo isso só vai melhorar quando a gente conseguir equiparar o número de mulheres com a de homens nesse espaço", disse a artista.

Em busca dessa igualdade, em 2019,  Layse colocou em prática um projeto voluntário, o qual ela ministra curso de bateria de forma totalmente gratuita. "O curso é aberto para o público em geral, mas o meu foco é trabalhar com mulheres. Tenho aluna de cinco anos e outra de 60. É muito bom ver a presença de diferentes gerações", completou a artista.

Como forma de enfrentar mais barreiras, Layse resolveu realizar o sonho de lançar o trabalho autoral "Coisa rara", um EP com quatro faixas inéditas com assinatura na composição, produção e direção. "Quando comecei a colocar em prática esse projeto, ouvi de muitas pessoas o argumento de que eu iria me arrepender e perder dinheiro, mas eu aprendi a me ouvir e realizar o que desejo", destaca a artista.

O álbum possui uma identidade dentro do brega da saudade. As faixas se destacam por deslocar a mulher da posição de objeto de desejo masculino e colocando-a como a voz principal que exprime sentimentos e subjetividade. “Dentre os gêneros musicais paraenses ligados ao universo da "saudade" (como o brega, o bolero e a guitarrada) as composições, que quase sempre são assinadas por homens, impõem à mulher o papel exclusivo de "musa inspiradora" ou alvo, um mero objeto de desejo do artista apaixonado e retratam em suas letras, quase sempre um ponto de vista machista e ofensivo às mulheres.” defende, Layse.

Esse novo trabalho da artista será lançado na próxima sexta-feira, 14 de maio, no Espaço Cultural Apoena. É um projeto contemplado pelo edital Prêmio Rede Virtual de Arte e Cultura, da Fundação Cultural do Pará, 2020, e conta com as faixas 'Caso Raro', 'Hit de Sucesso' e 'Papo Legal', além da faixa bônus 'Parece que o mundo vai acabar".

Um dado importante divulgado na pesquisa da UBC é que 53% das mulheres declararam jamais ter recebido nenhum valor de direitos autorais e que 51% delas afirmam receber no máximo R$ 800 anuais oriundos dessa fonte. As que recebem mais de R$ 54 mil em direitos autorais representam apenas 3% das que responderam, traduzindo inequivocamente a grande disparidade na distribuição dos rendimentos verificada em outros levantamentos - e que se deve, entre outros fatores, à dificuldade de inserção para artistas independentes e de fora do mainstream no mercado musical como um todo.

E sobre essa questão da desvalorização profissional, a rapper Bruna BG destaca que é um dos fatores mais prejudiciais para as artistas. Ela afirma ser explicito que o consumo de arte das mulheres no universo do hip hop é inferior em relação ao consumo da arte dos homens.

 

“A gente percebe isso de forma bem nítida. Muitas mulheres vêm fazendo um trabalho sensacional, mas encontram dificuldade, são questionadas e enfrentam o preconceito que não parte apenas dos homens, mas também de outras mulheres. Mas a gente faz barulho e enfrenta tudo isso”, declara Bruna BG.

A maioria das mulheres (60%) que responderam a pesquisa se declara branca. Pardas, pretas, amarelas e indígenas somando os outros 40%, praticamente uma inversão dos percentuais que vêm sendo verificados há alguns anos pelo IBGE. A escolaridade das mulheres participantes também difere bastante dos dados do conjunto da população, com 46% tendo completado uma carreira universitária; 12% com mestrado e doutorado; e apenas 3% com segundo grau incompleto ou menor escolaridade.

Com iniciativas como a enquete e o relatório anual Por Elas Que Fazem a Música, a UBC quer ressaltar a necessidade de equiparação de condições e rendimentos entre homens e mulheres no mercado musical, algo que beneficiaria toda a cadeia produtiva.

"Além de ter lançado em março a quarta edição do Por Elas, contendo dados da participação feminina entre nossas associadas, quisemos fazer esta pesquisa adicional para ampliar nossos resultados e poder ter acesso a dados mais claros que não constam da nossa base. Temos o compromisso de ampliar esse debate, discutir constantemente o cenário e, através da conscientização, ajudar a construir um panorama melhor para as mulheres", disse Vanessa Schütt, coordenadora do projeto.

Cultura
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