Museu Goeldi expõe a Belém histórica na plataforma Brasiliana Fotográfica
Em 34 fotos, público conhece nuances da Cidade de Belém do final do século XIX, no momento em que a capital do Pará acaba de completar 410 anos de história na Amazônia
Quem gosta de observar a Cidade de Belém, que acaba de completar 410 anos de fundação, sempre se interessa por imagens relacionadas à capital paraense. Seja uma foto recém-tirada por meio de um celular ou uma foto de dois séculos atrás. E é aí que entram fotos e artigo reunidos no Portal Brasiliana Fotográfica (https://brasilianafotografica.bn.gov.br/) sobre a capital paraense com registros fotográficos do final do século XIX. Esse material foi organizado por servidores do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), que este ano completa 160 anos de funcionamento. Além de marcar a estreia da instituição nesse portal, os dados contribuem para que sejam descobertos novos ângulos da trajetória histórica e cultural da “Cidade das Mangueiras.
O MPEG é a 15ª instituição parceira do Portal Brasiliana Fotográfica, organizado pela Fundação Biblioteca Nacional e Instituto Moreira Salles. O artigo no Brasiliana intitula-se “Belém na coleção fotográfica do Museu Goeldi”, de autoria de Nelson Sanjad, Lilian Bayma de Amorim e Pablo Borges, servidores do Museu Goeldi. A maior parte das imagens do artigo é publicada no portal pela primeira vez.
E assim o público pode conferir parte da Coleção Fotográfica do Arquivo Guilherme de La Penha, setor localizado no Campus de Pesquisa do MPEG, responsável pela preservação e salvaguarda de documentos históricos da instituição. O acervo da coleção fotográfica reúne cerca de 20 mil documentos, entre negativos de vidro, reproduções em papel, cópias digitais de coleções privadas e impressões em fototipia. No Brasiliana Fotográfica estão publicadas 34 imagens de Belém e ilhas, como Mosqueiro, com o artigo dos pesquisadores trazendo descrições minuciosas e explicações sobre o contexto de cada uma das imagens.
Como informa o MPEG, além dessas 34 fotografias, outras imagens já estão sendo inseridas, dando continuidade ao processo de digitalização e publicação da coleção. Até o momento, são 68 fotografias na coleção virtual.
Pesquisas e fotos
Em suas viagens e pesquisas de campo, pesquisadores e servidores do Museu Goeldi fizeram esses registros fotográficos de seus objetos de estudo. Em outras palavras, as fotografias funcionam na época como ferramentas importantes na realização de pesquisas. E isso o público pode observar no Brasiliana Fotográfica por meio do material fotográfico feito pelo botânico suíço Jacques Huber (1867-1914) e o fotógrafo alemão Ernst Lohse (1873-1930).
O próprio pesquisador suíço que dá nome ao MPEG Emílio Goeldi utilizava-se de uma máquina fotográfica em seus afazeres. Além de Goeldi, outros pesquisadores da instituição também, como Gottfried Hagmann, Emilia Snethlage, Andreas Goeldi, Friedrich Katzer, Adolf Ducke e Rodolpho de Siqueira Rodrigues. Deixaram um legado fotográfico importante para a história do Museu e de Belém.
O Museu Goeldi ingressou, em 2025, no rol de parceiros do Brasiliana, sendo a primeira instituição do Norte do Brasil a ter o seu acervo fotográfico disponibilizado no repositório. Essa parceria com o Brasiliana Fotográfica vem sendo pensada e estruturada desde 2022, como destaca Lilian Bayma de Amorim, chefe do Serviço do Arquivo e Memória Guilherme de La Penha.
O pesquisador do MPEG Nelson Sanjad teve participação fundamental na construção do diálogo entre as duas instituições e nas pesquisas. Os servidores do Arquivo sempre objetivaram um maior alcance para a coleção fotográfica.
“Para nós, foi muito importante, porque o nosso acervo fotográfico, até então, só está disponível para quem vem presencialmente. E nós recebemos muitas demandas de pesquisadores locais, de pesquisadores de fora do estado e de fora do país. A gente sabe da necessidade, porque não é só preservar, conservar, guardar… É disponibilizar”, explica Lilian Bayma. Agora, pesquisadores de diversos lugares do Brasil e de outros países e interessados em geral podem acessar essas imagens sem precisar ir até o Campus de Pesquisa do MPEG, onde está o arquivo físico.
Floresta e cidade
Fotografias feitas por Jacques Huber e Ernst Lohse sobre Belém são uma atração ao público no Portal Brasiliana Fotográfica. Isso é ressaltado, inclusive, no artigo que acompanha o álbum: “Lohse produziu imagens extraordinárias da cidade que se modernizava, com todos os ícones característicos da época: a locomotiva, a arquitetura de ferro, a rede de iluminação pública, o calçamento de ruas, os trabalhadores braçais etc. Huber, por sua vez, ao olhar para Belém, não via uma cidade em expansão ou o processo acelerado de urbanização, mas uma floresta que estava desaparecendo, sendo substituída, se arruinando. Trata-se de uma inversão epistêmica, que repõe, no lugar do humano, o vegetal como o principal protagonista das imagens que ele criou”.
É possível ver nas imagens as transformações ocorridas no bairro de São Brás, um dos principais cenários registrados nas fotos. Nota-se que perdura a Caixa D'Água localizada em frente ao Mercado de São Brás, na confluência das avenidas Magalhães Barata e José Bonifácio. A rica vegetação do bairro foi aos poucos sendo substituída por ruas, calçadas e edificações variadas.
O artigo que acompanha o acervo traz considerações dos pesquisadores sobre a aventura do conhecimento por meio da arte da fotografia tanto para a pesquisa científica como para o avanço socioeconômico de comunidades, em especial, na Amazônia.
“Os registros produzidos por esses homens e por essas mulheres podem nos contar muito sobre os habitantes da região, humanos e não humanos; sobre as paisagens do passado, a cultura material, a arquitetura de cidades; sobre nosso legado colonial e também sobre nossa perspectiva de futuro. Esperamos que, ao estudar e interpretar esse acervo, possamos valorizá-lo no que ele tem de melhor: a diversidade de olhares e de percepções do mundo que nos rodeia”.
Para tornar mais acessíveis a coleção fotográfica e o acervo documental do Arquivo Guilherme de La Penha, o Museu Goeldi vai contar em breve com o software de descrição de arquivo multilíngue AtoM, sigla que vem do inglês “Access to Memory” (Acesso à Memória, em português). O software é totalmente baseado na Web e pode ser acessado por qualquer navegador. No momento, ele está em fase de estudo, treinamento e implementação no MPEG.
Para março próximo está prevista mais uma série de publicações da Coleção Fotográfica do Arquivo Guilherme de La Penha no Portal Brasiliana Fotográfica. Desta vez, em homenagem ao aniversário de Emilia Snethlage, a primeira mulher a presidir uma instituição científica no Brasil (o Museu Goeldi), em 1914.
O portal Brasiliana Fotográfica é uma iniciativa da Fundação Biblioteca Nacional e do Instituto Moreira Salles, e funciona como um repositório digital de acervos fotográficos. O objetivo é disponibilizar acervos documentais enquanto fontes primárias de pesquisa e informação, mas também salvaguardar este patrimônio imagético brasileiro. Ao todo, a plataforma reúne mais de dez mil imagens históricas produzidas no século XIX e XX provenientes de quinze instituições brasileiras, como o Arquivo Nacional, Fundação Biblioteca Nacional, Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Fundação Joaquim Nabuco e Museu Histórico Nacional.
Confira a íntegra do artigo aqui
As imagens da coleção do Museu Goeldi no Brasiliana podem ser conferidas aqui
Palavras-chave
COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA