'Meretrizes' revela em Belém o respeito à mulher a partir da realidade das prostitutas

Espetáculo começa a ser exibido na Caixa Cultural Belém a partir desta quinta (19) e poderá ser conferido até o dia 19 deste mês

Eduardo Rocha
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Até que ponto você respeita uma mulher? Ela precisa estar no perfil que você aceita ou ela pode e deve ter suas próprias escolhas? Você estaria interessado em descobrir o contexto dessa escolha? Perguntas como essas podem surgir para reflexão da plateia a partir da apresentação do espetáculo "Meretrizes", a ser exibido a partir desta quinta-feira (9) até o dia 19 deste mês, na Caixa Cultural Belém. O espetáculo tem montagem do Coletivo Gompa, com direção de Camila Bauer e a atriz Liane Venturella como condutora da narrativa, ao lado de Mel Souza. A trilha sonora original é de Catarina Domenici.

"Meretriz" é considerada uma das produções mais relevantes do teatro documental brasileiro contemporâneo e combina teatro, música executada ao vivo e depoimentos reais para lançar luz sobre as vivências de mulheres que exercem a prostituição, colocando em cena histórias frequentemente silenciadas pela sociedade. Apresentado há três anos, o espetáculo foi formatado a partir de entrevistas realizadas ao longo de mais de um ano com profissionais do sexo de diferentes contextos. No caso, fragmentos de vidas marcadas por preconceitos, discriminação e resistência. 

Esse trabalho nasceu da vontade do grupo de falar sobre mulher e respeito. E, para isso, buscou-se o mote das prostitutas, como opção das mulheres, e não com foco em pedofilia ou em tráfico sexual. Mas, sim, de prostituição, um jogo muito claro: "Eu tenho algo a vender, e alguém tem algo a me pagar", como frisa Liane. E com regras. "Prostituição é um trabalho, uma troca", completa a atriz.

Liane Venturella enfatiza que essas pessoas merecem respeito, como em relação a qualquer outro trabalho. "Cada um deve decidir o que fazer nesta vida. E elas, as prostitutas, estão por todos os lugares. Inclusive, seus filhos estudam com filhos de pessoas que têm preconceito e nem sonham que essas mulheres são prostitutas. É uma peça fundamental para homens, mulheres e jovens a partir de 16 anos assistirem", ressalta. 

O espetáculo tem, sim, prostitutas de verdade conversando com o público e resulta de entrevistas com prostitutas, mediante a parceria da historiadora Juliana Wolkmer e do Núcleo de Estudos sobre a Prostituição (NEP), de Porto Alegra (RS). A prostituição é reconhecida como trabalho livre pela Classificação Brasileira de Ocupações. Contudo, os trabalhadores dessa categoria não têm direitos garantidos pela legislação brasileira.

"Elas não contam, por exemplo, com benefícios que qualquer trabalhador. Não adianta dizer que agora existem as profissionais do sexo. OK, é profissão. Então, como qualquer trabalhador, elas deveriam ter direito à aposentadoria. Tem certas questões legais a que só foi dado um nome. Como nos anos 80, 90, elas não apanham mais na rua, não são mais presas. Por isso, elas não precisam mais de um cafetão para representá-las, mas elas não têm todos os direitos que um trabalhador de outras áreas tem", salienta Liane Venturella.

Liane destaca ser "impossível entrar para assistir a 'Meretrizes' e sair da mesma forma. Se quebram tantos preconceitos que a gente tem, e para isso nós temos duas moças do trabalho ao vivo lá com a gente", detalha a atriz.

Dignidade

A proposta do Coletivo Gompa com esse espetáculo é romper estigmas e oferecer ao público um encontro verdadeiro com histórias que costumam permanecer à margem. "Ao longo do processo, entendemos que nosso papel não era falar por essas mulheres, mas criar um espaço para que suas vozes fossem ouvidas com dignidade e complexidade. O espetáculo convida o público a enxergar para além dos julgamentos e reconhecer a humanidade presente em cada relato", afirma Liane. Ela assina a dramaturgia da obra ao lado de Camila Bauer.

Em contraponto ao uso contumaz do palavrão "filho da pu..!", o espetáculo convida o público a refletir sobre julgamentos relacionados a mulheres com trajetórias reduzidas a estereótipos. "Meretrizes" retrata uma realidade social e, ao aproximar espectadores dessas histórias reais, questiona padrões morais, evidencia a humanidade por trás dos rótulos e propõe um olhar mais empático sobre um tema ainda cercado por tabus, como adianta a coordenação do espetáculo.

Nas cidades por onde passa, o espetáculo dialoga com profissionais do sexo locais. Essa prática fortalece o intercâmbio de experiências e amplia as discussões propostas em cena. Trata-se, assim, de uma experiência artística em constante transformação, conectada às realidades de cada território. Essa obra, enfim, transita entre o teatro documental e a performance, englobando narrativa, música e testemunhos reais, para transformar o palco em um espaço de escuta, respeito e reflexão.

 

Serviço: 

Espetáculo 'Meretrizes'

Realização e produção geral: Coletivo Gompa

Data: 9 a 19 de julho de 2026 (exceto segundas-feiras)

Horário: 19h

Local: Caixa Cultural Belém

Endereço: Porto Futuro 2 – Av. Marechal Hermes, s/n, Armazém 6A, Umarizal, Belém (PA)

Ingressos: Disponíveis no site e na bilheteria da Caixa Cultural

Classificação indicativa: 16 anos

Sessões com interpretação em Libras: 10 e 17 de julho

Bate-Papo: 10 e 17 de julho (pós-espetáculo)

 

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