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'Mangueirosamente' vira plateia para ouvir Geraldo Salles e Paulão, do Grupo Experiência

Esses dois nomes do teatro do Pará contam sobre a trajetória do grupo e do desafio de manter a arte cênica em evidência e em diálogo com outras expressões artísticas

Eduardo Rocha

Uma sociedade sem a arte teatral seria como um conjunto de pessoas sem um suporte para a sua crítica, autoanálise e possibilidades de avanço. Por isso, o teatro é sempre um assunto instigante em qualquer conversa, como a que o público confere no videocast "Mangueirosamente" desta sexta-feira (15), a partir das 19h, no Portal OLiberal.com e no Canal O Liberal do YouTube. Isso porque o apresentador Ismaelino Pinto recebe dois expoentes dessa arte no Pará: o ator e diretor Geraldo Salles e o ator Paulo Fonseca, artisticamente mais conhecido como Paulão. No bate-papo saboroso, Geraldo e Paulão revelam histórias apaixonantes sobre o amor pela arte teatral, contando, inclusive, como surgiu o histórico Grupo Experiência, do qual fazem parte; como foi criado o espetáculo "Ver de Ver-o-Peso", de 1982, a partir de uma volta de ônibus por esse ponto turístico de Belém. E ainda sobre "Antônia", o mais recente trabalho do grupo.

Conhecido por seu trabalho como ator e diretor em décadas de teatro, Geraldo Salles conta que havia acabado de se formar pela Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará (Etdufpa) e se perguntava o que iria fazer daquele momento em diante. Não havia em Belém nenhuma companhia, nenhum grupo com uma atividade constante. Porém, Geraldo tinha um amigo chamado José Antônio Cruz, muito interessado nesse tipo de arte, e os dois começaram a conversar sobre a ideia de fundar um grupo de teatro.

"Pela necessidade daqueles atores que acabavam de sair, recém-formados pela escola de teatro, de terem a oportunidade de continuar a fazer teatro em Belém do Pará e não ter que migrar para Rio, São Paulo e tudo mais. Coisa que eu fiz, já tinha feito, inclusive. Eu fiz teatro profissional no Rio. Eu fui dirigido pelo Tite de Lemos, que era um diretor do Rio de Janeiro, e contracenei com a Tetê Medina num texto clássico do Shakespeare, chamado 'A Tempestade', em que eu fazia um dos papéis principais. Depois, voltei para Belém, com o intuito de ver como é que estava ou tentar ver se continuava como professor, qualquer coisa", destaca Geraldo.

Geraldo e Antônio Cruz passaram a incrementar a ideia de fundar um grupo de teatro. "Eu tinha voltado do Rio e queria fazer um teatro que tivesse a cara da Amazônia, a nossa cara, e que fosse universal também". Em meio ao debate sobre o nome do grupo, constatou-se algo. "Bom, experiência é o que a gente não tem, vamos ganhar. E surgiu o Grupo Experiência. E surgiu num grande sucesso. Porque eu sempre fui apaixonado por música, por música no teatro, pelo canto, tudo isso. E, na época, o grande sucesso era um espetáculo que eu já tinha visto no Rio, chamado 'Hair'. E, aí, a gente teve a ideia de montar, de fazer um 'Hair' paraense, que passou a se chamar 'Happening' ".

image Ismaelino Pinto, Geraldo Salles e Paulo Fonseca, o Paulão: bate-papo sobre teatro gera boas histórias (Foto: Reprodução / O Liberal)

O Experiência surgiu em 1971, pelo fato de que, como membro da Escola de Teatro, Geraldo orientou alunos do Colégio Moderno sobre atividades teatrais. O interesse de ambas as partes na arte teatral resultou no surgimento do grupo. O Experiência revelou muita gente famosa até hoje, ou seja, talentos como o ator Cacá de Carvalho e a cantora Fafá de Belém. Integrantes dessa trupe são a atriz Natal Silva e os atores, Zecão, Filé e Claudio Barros. Mais de 80 atores passaram por esse grupo.

Para montar o primeiro espetáculo, o grupo teve a orientação do saudoso poeta Ruy Barata de fazer uma colagem pegando vários escritores, poetas e dramaturgos brasileiros, a fim de retratar a realidade amazônica e do Pará. Geraldo Salles conta que encontrou a atriz e cantora Eliana Jatene, casada com o músico Simão Jatene, e, juntos com Antônio Cruz, partiram para apresentar o espetáculo "Happening", cuja estreia se deu no Theatro da Paz. Era para ser apresentado por três dias, e ficou duas semanas em cartaz.

Ver-o-Mundo

A partir da convivência e troca de conhecimentos com outros atores e diretores, o Experiência foi se consolidando. O grupo teve, inclusive, de lidar com o contexto da Ditadura Militar, como relata Geraldo Salles na conversa com Ismaelino Pinto.

Já Paulo Fonseca, o Paulão, no teatro desde 1978. Ele narra que era pupilo do maestro Adelermo Matos, do Colégio Augusto Meira, do Grupo Folclórico do Pará. Eles viajavam pelo Brasil inteiro. Numa dessas apresentações do grupo, Geraldo Salles avistou Paulão, que logo passou a fazer parte do Experiência.

Paulão lembra que passaram pelo Experiência o cantor e compositor Nilson Chaves e o cantor, ator e produtor cultural Eloi Iglesias, entre outros nomes. Na época do surgimento e consolidação do Experiência na cena cultural paraense, era um momento de efervescência da arte teatral, incluindo a atuação de outros grupos como o Cena Aberta, o Gruta e de personagens marcantes como Cláudio Barradas, Nilza Maria, Maria Silvia Nunes e outros.

"Nós tivemos em 1980, exatamente em 1980, um divisor de águas no grupo experiência, foi quando Geraldo montou um espetáculo do Raimundo Alberto, que é um paraense que mora no Rio, chamado 'Mãe d'Água', em que a gente usou o nu pela primeira vez. Ele disse: 'Vamos fazer esses caruanas de emergirem com a Mãe d'Água, que era a Vânia de Castro que fazia excelentemente, nus'. E aí, isso entre os atores foi uma loucura, né?", relata Paulão.

No bate-papo com Ismaelino Pinto, Geraldo Salles e Paulão contam muitas histórias sobre suas trajetórias, em especial o surgimento e o sucesso estrondoso de "Ver de Ver-o-Peso" em nível nacional, como abordagem crítica da realidade amazônica para o mundo, que estreou em 1982. Esse trabalho é a principal referência da trajetória do Experiência. 

No pulsar de Geraldo e Paulão, o teatro mantém sua missão de questionar a realidade e propor novos rumos para a humanidade por meio dessa arte milenar. O público confere o "Mangueirosamente" a partir das 19h desta sexta-feira (15) no Portal OLiberal.com e no canal O Liberal no YouTube.

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