Lázaro Ramos diz que papel em 'A Nobreza do Amor' é catártico: 'É ótimo poder dizer desaforos'
Ramos será um sujeito manipulador que conquista o reino de Batanga, na África, por meio de um golpe
Lázaro Ramos está se divertindo em seu primeiro papel como vilão em telenovelas, interpretando Jendal em "A Nobreza do Amor", a nova produção das seis da TV Globo. O ator revela que é "ótimo poder dizer uns desaforos" que não diria na vida real.
Na trama, criada e escrita por Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr., Lázaro Ramos vive um sujeito manipulador que conquista o reino de Batanga, na África, por meio de um golpe. A história fictícia, ambientada nos anos 1920, conecta os continentes africano e brasileiro pela ancestralidade.
A perspectiva do novo no personagem é o que mais encanta Ramos, que nunca havia desejado fazer um vilão, preferindo heróis e anti-heróis. A experiência também tem renovado a paixão do ator pela profissão, alinhando-a às suas ambições após superar um burnout.
Literatura e a Voz Negra
A literatura tem sido fundamental para o movimento de retomada da narrativa do povo negro nos últimos anos. Nomes como Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo ganharam destaque, e obras como "Torto Arado", de Itamar Vieira Junior, furaram bolhas, enquanto Angela Davis se tornou popular. Ramos admira o posicionamento público desses escritores.
Para o ator, esse movimento é resultado de uma luta antiga, fortalecida pelo uso dos novos meios de comunicação e pela presença de importantes nomes nas redes sociais. Ele observa a chegada de um público novo, formado nas universidades, que entende a importância de dar voz e celebrar quem veio antes, inspirando-o e afastando a sensação de solidão.
A literatura sempre fez parte da vida de Ramos, inicialmente ligada ao teatro na Bahia. Após mostrar um texto a amigos, começou a escrever, e seus livros passaram a ser bem recebidos. Ele destaca que as carreiras de ator e escritor são paralelas em sua trajetória, o que o deixa muito feliz.
A Realeza Africana em "A Nobreza do Amor"
A proposta de "A Nobreza do Amor", segundo os autores, é apresentar a realeza africana, destacando sua beleza e cores, e contando a história sob uma nova perspectiva. Lázaro Ramos descreve a novela como uma fábula que faltava na televisão brasileira, conectando a África ao Brasil.
A diversidade de personagens, que inclui princesa, rei, rainha, trabalhador rural, sábio e guerreiro, é um dos maiores valores da novela, ampliando os arquétipos oferecidos a atores negros. Há também um cuidado rigoroso com a pesquisa de tudo o que será mostrado, seja nos cabelos, nos símbolos ou nas tintas.
Para Ramos, a novela abre uma porta para uma estética que, ele acredita, retornará à televisão. Ele encarou o papel de Jendal sem dificuldades, buscando sempre atuar com bons textos e contar boas histórias, considerando o personagem um bom desafio em um momento oportuno.
As Delícias de Ser um Vilão
O ator considera "maravilhoso" interpretar um vilão, afirmando ser uma oportunidade de "dizer uns desaforos" que não caberiam em sua vida real. Ele brinca que precisa ter cuidado para não levar essa energia para o cotidiano, mas vê a atuação como catártica.
Para viver Jendal, Lázaro Ramos precisa se desapegar de características suas como ator, já que o personagem não sorri muito e possui um tipo de humor diferente do seu habitual. Ele descreve a experiência como uma forma de explorar um novo lugar na profissão, em um processo artesanal cena a cena.
A possibilidade de se dedicar integralmente à novela, ao contrário de trabalhos anteriores onde acumulava outros projetos, permite a Ramos colocar mais energia e concentração em cada cena. Ele relembra que sempre teve prazer em novelas, mesmo com a insegurança inicial em "Cobras & Lagartos" (2006), onde vivenciou seu primeiro sucesso popular com o personagem Foguinho.
Redescoberta da Profissão e Saúde Mental
A percepção de Lázaro Ramos sobre sua identidade como ator mudou ao longo do tempo. Atualmente, ele se sente "reestreando", com projetos que são fruto de uma paixão renovada pela profissão, após um período em que estava mais focado na direção por falta de papéis desafiadores.
Essa redescoberta está relacionada à cura do burnout, doença que ele declarou ter enfrentado. No processo terapêutico, aprendeu a dizer "não" e a "encher o pote novamente". Ele sentia-se ignorante em determinados assuntos e incapaz de fazer certas coisas, talvez tentando imitar algo que não era seu.
Agora, Ramos busca alinhar suas ambições com uma função maior que sente que precisa seguir na profissão, consolidando a capacidade de dizer "não" em diversos aspectos da vida, inclusive para pessoas que deseja afastar. Para ele, com 47 anos, os "nãos" já estão por aí.
Racismo, Complexidade e Novos Filmes
Abordando o tema do racismo, Lázaro Ramos explica que escolheu como gosta de falar sobre o assunto, evitando responder a tentativas de indução ou a pedidos por frases clichês. Ele destaca que o tema evoluiu e que busca sempre ampliar o debate, recusando-se a reduzi-lo a algo que caiba em um tuíte.
O ator menciona o filme "Feito Pipa", ainda inédito no Brasil, no qual interpreta o pai homofóbico de um menino queer. Ele descreve a obra como comovente e encantadora, que trata da liberdade e do direito de ser quem se é, refletindo o momento atual do cinema brasileiro no cenário internacional, onde histórias com identidade são valorizadas.
Ramos também está na comédia "Velhos Bandidos", ao lado de Fernanda Montenegro, Ary Fontoura e Tony Tornado, que estreia em breve. Ele define o filme como uma das melhores comédias nacionais recentes, transmitindo a mensagem de "viva a vida", e recomenda a experiência de vê-lo na sala de cinema.
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