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Documentário 'Consagração' reflete sobre a doutrina do Santo Daime pela visão de fotógrafo acreano

Fotojornalista Raimundo Paccó viajou pela Amazônia para compor trabalho que mescla sua história de vida com a da Doutrina da Floresta

Caio Oliveira

O Santo Daime é a manifestação religiosa que talvez melhor exemplifique a miscigenação cultural que permeia o Brasil. A doutrina surgiu no Estado do Acre, no início do século 20, fundada pelo maranhense e descendente de negros escravizados Raimundo Irineu Serra, após conhecer a bebida chamada de ayahuasca pelos nativos da região Amazônica e ter uma visão que ele compreendeu como sendo de Nossa Senhora da Conceição, que lhe passou os primeiros ensinamentos daquilo que se tornaria a base da sua religião. Para desvendar os caminhos abertos por Mestre Irineu e, também, compreender melhor sua própria história, o fotojornalista acreano Raimundo Paccó começou em 2016 a produzir o documentário “Consagração”, onde ele conta sobre a relação dele e de sua família com a Doutrina da Floresta que desperta cada vez mais a curiosidade do mundo.

“Inicialmente, eu queria fazer alguma coisa sobre minha infância no Acre”, conta Paccó, radicado em Belém e de onde atua como correspondente para vários jornais do Brasil e agências internacionais. “Meus parentes no Acre todos participam da doutrina. Eu tinha um tio que era padrinho, que é como se fosse o cara mais importante espiritualmente no Daime, então, essa coisa vem da minha infância mesmo. Muito tempo depois de adulto, eu descobri que minha madrinha me deu uma colher [do chá] logo que nasci. Com cinco horas de vida, eu tive uma enfermidade que até hoje eu não sei qual foi. Minha relação com Daime vem da minha terra, minha família, dos meus amigos, das pessoas que eu gosto, e me acompanha desde que eu me entendo como gente”, explica sobre sua relação com a religião.

Madrinha do Santo Daime (Divulgação)

Apesar de ter sido iniciada há cinco anos, a obra permanecia “engavetada” pelo fotógrafo, inacabada, e foi com o incentivo do edital da Lei Aldir Blanc que “Consagração” foi ganhando sua forma final, após ser contemplado pela categoria “Finalização”. A jornalista e editora Natia Ney Machado, esposa de Raimundo Paccó, percebeu ali a possibilidade de trazer o documentário à luz e foi atrás do financiamento do projeto, depois de analisar o material e perceber como poderia contribuir com o trabalho. “Eu, como editora da TV Cultura há dez anos, trabalho muito com isso e acompanho o trabalho dele muito de perto. Quando ele capturou essas imagens, ele fez uma edição inicial. Eu não me envolvi quando ele fez essas imagens, mas quando eu vi o resultado, eu tinha muitas observações [risos] do que podia melhorar, como editora de TV. Foi ali que veio a ideia”, conta Natia.

Decidindo que havia correções a serem feitas, Natia e Paccó voltaram a se debruçar sobre o que foi produzido por ele, convocando uma equipe experiente para a empreitada. Nomes como o de Márcio Cruz e Arthur Santos, braços direito e esquerdo na sala de edição, e da produtora Montagem Paralela foram adicionados à produção de "Consagração", e foram eles que ajudaram a dar condições para o documentário ganhar o mundo. O roteirista Ismael Machado reestruturou o roteiro original, em uma narrativa agora focada no próprio fotógrafo. A produtora Farol Filmes também se uniu ao projeto, para auxiliar na finalização. 

A pandemia alterou os planos iniciais para o lançamento do longa-metragem de pouco mais de uma hora, mas a previsão é que o documentário seja finalizado agora em abril e comece a ser exibido em maio. Eu seu primeiro trabalho de audiovisual, Raimundo Paccó misturou vídeo e fotografia em um processo documental que foi refinado pela parceira de trabalho e de vida, que se diz muito feliz com o resultado. “É um trabalho bem interessante, tanto na questão das imagens quanto na história. Tem a parte mística do Daime, fala também do preconceito, da curiosidade das pessoas. Tem uma parte do filme que ele fez sobre o Daime entre os indígenas -  lá, eles dão outro nome [para o chá] - e essa parte é muito bonita. Pra mim, realmente, é um grande prazer poder colaborar nesse sentido para o trabalho dele. É muito gratificante”, declara Natia Ney Machado.

“Ela [Natia] é importantíssima nesse processo todo: ela quem teve a visão, ela quem arrumou, deu um caminho. Então, metade desse projeto é responsabilidade dela’, elogia Raimundo Paccó, orgulhoso do trabalho que fez junto da esposa. Assim como o mantra que deu origem ao nome da doutrina (dai-me força, dai-me amor, dai-me luz), o documentário em que o acreano expressa o que tem de mais íntimo em sua memórias de infância também é um pedido, uma tentativa de se conectar ainda mais com suas origens, na busca de mostrar para o mundo sua herança amazônica. Em suas viagens, Raimundo fez imagens do ritual no Acre, no interior do Maranhão, além de mostrar praticantes paraenses. “Eu sempre tive vontade de pegar um tema e falar sobre o Acre, da minha geração. A ideia principal seria falar sobre isso. Mas aí ela [Natia] disse ‘por que você não conta a história do Daime?’, e dentro disso, o Ismael Machado deu um roteiro muito bacana, conseguiu me pôr dentro da história. Para mim, ‘Consagração’ é mais do que um documentário ou um trabalho. É um reencontro com meu passado”, encerra o fotógrafo.

Palavras-chave

Cultura
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