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‘Boas Novas’: Zeca Veloso revela sentidos entre versos e melodias

Aos 33 anos, cantor e compositor carioca e filho de Caetano Veloso traz um disco com letras e melodias surpreendentes e belos arranjos, para confirmar seu talento

Eduardo Rocha
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“Amor é sacrifício”. Esse verso da canção “A Carta” poderia sintetizar todo o álbum de estreia do cantor e compositor carioca Zeca Veloso, 33 anos, intitulado de “Boas Novas”. Filho de nada mais nada menos que Caetano Veloso, um do ícones da música brasileira, Zeca chega com a poesia  a música à flor da pele, ou seja, com um disco recheado de versos refinados e arranjos bem construídos. Isso tudo na  sequência da música “Todo Homem” que desde 2017 encanta o Brasil com o verso “Todo homem precisa de uma mãe”, integra o disco “Ofertório” com o pai e os irmãos Moreno e Tom e que virou trilha na série “Onde nascem os fortes”, da Rede Globo.

A partir da letra de “A Carta” (‘E por um pedido no meu colo / Posso mudar o meu estilo / Eu bem lhe disse desde o início / Amor é sacrifício’), Zeca sugere, ou melhor, chama a atenção para o significado profundo do verbo amar em toda sua plenitude. E isso ele levou a sério na confecção de “Boas Novas”. 

No sentido de que amor é sacrifício, todo mundo sabe da importância cultural e histórica de Caetano Veloso ao Brasil. Da Tropicália até agora, Caê sempre é referência para quem quer saber de como vai o Brasil, saber de poesia e de música de qualidade. Ou seja, saber sobre o ato de amar, doar-se, buscar saber das coisas, identificar e processar emoções, posicionar-se contra as violências e o poder, mediante o gesto de criar, de fazer arte.

Essa sensibilidade de Caetano Veloso, que esteve em Belém em 2025 em show na companhia da irmã Maria Bethânia, serve de ponto de partida para os filhos desse baiano arretado. Agora, as “crias” começam a voar sozinhas, como é o caso de Zeca Veloso que se entrega em “Boas Novas”.

Tanto que o disco abre com um clima de saudação a partir da música “Salvador”, com um arranjo pra lá de vibrante, na tonalidade da Outra Banda da Terra, grupo que marcou momentos importantes da obra de Caetano. A faixa tem o feat do próprio Caetano. Os irmãos Tom e Moreno Veloso estão presentes no disco. Zeca e Tom celebram o nascimento de Benjamin, filho de Tom, na faixa-título “Boas Novas”.

“Quem trouxe essa sonoridade para ‘Salvador’ foi o Luciano Oliveira (t.c.c. Escombro), misturada com outras influências dele. Ele arranjou (com Marlon Sette) e produziu a faixa, com a colaboração de mais alguns produtores. ’Salvador’, para mim, era uma canção muito difícil de vestir. Experimentamos alguns caminhos e o que ficou foi o que funcionou melhor. Eu gosto dos discos do meu pai com a Outra Banda da Terra, especialmente ‘Cores, Nomes’ e ‘Outras Palavras’, diz Zeca Veloso em entrevista exclusiva ao Grupo Liberal.

Zeca explica como foram definidos os convidados para “Boas Novas”. “Os cantores convidados são Xande de Pilares e Dora Morelenbaum. Xande é parceiro no samba ‘O Sal Desse Chão’, e tem tudo a ver, logo que pensei em gravá-lo, o chamei. E Dora também, admiro seu trabalho e percebi que ‘A Carta’ tinha muito a ver com ela. Os outros convidados são músicos e produtores”, destaca Zeca.

Surpresas

Zeca fala sobre o processo criativo das canções e arranjos do disco. “Creio que as composições vêm de uma inspiração espiritual, e também houve bastante trabalho de lapidação. As produções são fruto de bastante trabalho e devo tudo aos produtores e músicos que trabalharam no disco. Luciano Oliveira, Antonio Ferraz, Pretinho da Serrinha, Kassin, Jaques Morelenbaum, Lucca Noacco - uma lista longa de produtores, arranjadores e músicos excelentes”.

O compositor já se apresentou em Belém durante a turnê do álbum “Ofertório”. Sobre uma possível nova apresentação dele em solo paraense, desta feita com as canções de “Boas Novas”, Zeca destaca: “Ainda estamos planejando tudo. Logo que souber, dou notícias :)”.

O álbum traz dez músicas compostas entre 2018 e 2021: “Salvador”, “Boas Novas”, “Talvez Menor”, “Desenho de Animação”, “Carolina”, “Máquina do Rio”, “Tua Voz”, “A Carta”, “O Sal Desse Chão” e “O Sopro do Fole”. Cada uma das faixas recebeu um tratamento sonoro refinado, como, por exemplo, em “Tua Voz” ouve-se um som de valsa, com arranjo singular de metais. Já em “O Sal Desse Chão” a sonoridade é do samba, reforçada pela voz forte de Xande de Pilares em contraste com a voz aguda e suave de Zeca.

Na faixa “Boas Novas”, o arranjo remete de cara para os discos clássicos da Bossa Nova. O álbum transita por muitas referências musicais, o que não apenas valoriza sua confecção como também funciona como um portal para descobertas de estilos da música brasileiras de épocas variadas por parte de quem não tem medo de revelações. Zeca surpreende o ouvinte com melodias em ritmos diferentes, mas seguindo uma unidade, um pulsar poético de quem abre seu caderno de poemas e músicas sem olhar para trás, mas, sim, para frente, junto com cada canção. 

“Boas Novas” era já esperado há algum tempo. Depois de “Todo Homem” em 2017 e o fato de Maria Bethânia ter gravado “O Sopro do Fole” no álbum “Noturno”, de 2021, música regravada por Zeca com versos adicionais em 2022. Neste mesmo ano, ele revisitou “A Rota do Indivíduo (Ferrugem)”, de Djavan e Orlando Morais. Além disso, em 2023, Zeca Veloso fez seu primeiro show solo, o “Desenho de Animação’. Foi apresentado em pequenas casas do Rio de Janeiro e de São Paulo. O álbum foi lançado no final de novembro passado, isto é, já realidade, já pode ser saboreado por quem gosta de arte, quem sabe do sentido do amor como sacrifício.

 

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