Belém conta seus 410 anos em livros para ler e guardar nos prédios e ruas da cidade

Autores tecem histórias ambientadas na capital paraense, cidade repleta de cenas de quem vive na Amazônia

Eduardo Rocha

Quem transita pela Cidade de Belém encontra a qualquer momento referências literárias contando muito sobre a vida do paraense, num processo que começa e termina na própria metrópole. Desse modo, pessoas, livros, edificações, ruas, sentimentos e emoções se fundem para contar histórias sempre atraentes sobre a “Cidade das Mangueiras”, que nesta segunda-feira (12) completa 410 anos. Por isso, pode ser interessante conhecer alguns livros que tratam da história e cultura da capital paraense

Paulo Nunes, professor e pesquisador de Literatura da Universidade do Estado do Pará (Uepa) e da Universidade da Amazônia (Unama), aponta cinco livros do Século XX expressivos da Cidade de Belém. São eles: “Batuque”, de Bruno de Menezes; “Banho de Cheiro”, de Eneida de Moraes; “Gostosa Belém de Outrora”, de De Campos Ribeiro”, e “Belém do Grão-Pará”, de Dalcídio Jurandir. 

“No século XXI: “Pssica”, de Edyr Augusto Proença;  “Mulheres de Fogo”, de Roberta Tavares, e a oportuna reedição de “Altar em Chamas”, de João de Jesus Paes Loureiro, que, embora seja um livro do século XX, continua repercutindo como uma poética de nossa memória. No conjunto, são livros que mostram um leque de cenários e personagens que dão vida às nossas contradições”, destaca Paulo. 

“São autores e autoras que levam a sério o aprimoramento da escrita e a ressignificação de nosso cotidiano contraditório e rico. São livros que fogem da descrição superficial do meramente exótico. Trata-se de livros que representam Belém  'de dentro para fora', com suas particularidades humanas e espaciais”, acrescenta o professor Paulo Nunes.

image Professor Paulo Nunes: literatura e história nos rumos da Belém de 410 anos , como se verifica na Escola Barão do Rio Branco (Foto: Thiago Gomes / O Liberal)

Escola no tempo

A relação profunda entre a literatura e Belém é exemplificada no romance “Belém do Grão-Pará”, de Dalcídio Jurandir, em que a Escola Barão do Rio Branco (na avenida Generalíssimo Deodoro com a Braz de Aguiar, em Nazaré) se insere na trajetória do protagonista Alfredo (alter ego de Dalcídio). Esse autor chegou, inclusive, a estudar na instituição em 1924.

O professor Paulo Nunes fala sobre essa relação. “A Escola Barão do Rio Branco, esse prédio histórico, mais do que centenário, tem uma simbologia muito forte pra Alfredo, que é o protagonista do romance. Ele simboliza a acolhida dos migrantes que vinham do interior do estado para a cidade em busca de um melhor ensino. Ele também simboliza a crença de Dalcídio Jurandir na educação”, diz o pesquisador.

“Alfredo, buscando uma melhor posição social, faz esse investimento a partir da educação. E o Barão do Rio Branco é essa escola que ele busca para vir aprender. O curioso é que você vai perceber aqui que ela é uma escola quase que totalmente preservada em relação ao tempo em que se passa a história que é a década de 20 do século passado”. Paulo Nunes destaca a poeticidade de Belém expressa nas falas, das diversas tonalidades, cores, vozes e sabores, convergindo para uma literatura diversa sobre a capital paraense. 

Escritas intensas

A professora mestra, servidora pública, editora e pesquisadora Elaine Oliveira,  destaca que a produção literária contemporânea lançada recentemente em Belém é muito significativa do ponto de vista da qualidade artística e temática. Ela verifica a mobilização de autores na luta por políticas públicas objetivando para o fomento da produção, circulação, difusão e acesso a obras produzidas. “Neste cenário, a literatura produzida em Belém, se renova constantemente”, frisa.

Elaine destaca dois livros que representam Belém. Um é “Banho de Cheiro”, de Eneida de Moraes”, cuja primeira edição data de 1962. “São crônicas autobiográficas escritas num estilo conciso, marcado pelo domínio da escrita poética: metáforas, sinestesias, alegorias carregadas de lirismo para trazer ao leitor as memórias de uma Belém culturalmente rica em suas raízes identitárias, sociais e históricas. Uma obra fundamental  para o leitor interessado em conhecer a genialidade e potência  criativa de Eneida de Moraes”, ressalta Elaine Oliveira.

image Elaine Oliveira: produção literária intensa em Belém e memórias de uma Belém culturalmente rica (Foto: Acervo Pessoal)

“Altar em Chamas”, do poeta Paes Loureiro, de 1983, é outra obra destacada pela professora. “Nele, o poeta flaneur é um  andarilho que perambula pela cidade de Belém. Canta a sua beleza e as contradições da vida urbana; fragmentos da memória afetiva e humana que testemunha a decadência e o  descaso pela destruição do seu patrimônio cultural. Uma representação poética da Belém contemporânea, nas últimas décadas do século XX. ‘Altar em Chamas’ é uma obra capital para quem deseja entrar no universo poético do escritor Paes Loureiro, neste livro premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte pela excelência da sua expressividade artística”, assinala Elaine Oliveira.

Criadora de perfil Rio das Letras (@riodasletras) de resenhas e indicações de leituras, a jornalista e social media Priscila Bentes considera como dois livros representativos da literatura de Belém são "A flor da pele", da escritora Dulcinéa Paraense, e "Batuque", do escritor Bruno de Menezes. 

image Priscila Bentes: literatura falando da luta de mulheres e negros no Pará (Foto: Acervo Pessoal)

" 'A flor da pele", publicado pela Secult, é uma verdadeira joia da literatura belenense. Seus versos são de uma beleza singular sobre temas profundos e sensíveis, especialmente sobre a construção do sujeito feminino, amor, saudade e perdas. Sua poesia é uma verdadeira expressão da literatura modernista e também da produção literária feminina. Infelizmente, pouco valorizada e pouco conhecida. Acredito ser essa uma obra que representa a cidade de Belém pela sua escrita intensa, profunda e única com traços modernistas que estavam em plena sintonia com outras produções da sua época", salienta Priscila Bentes. 

"Já 'Batuque', de Bruno de Menezes, é uma obra que contempla não só o fazer literário, mas também suas vivências como observador da cidade; seu livro revela não só o seu fazer poético, mas também a cultura negra da Amazônia. Ele foi um autor fundamental para a cena literária modernista brasileira, e, a meu ver, sua obra representa em muito a literatura da cidade de Belém porque expressa sua leitura cultural, artística e social da cidade", afirma Priscila.

 

 

 

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