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Marco Antônio Moreira

Coluna assinada pelo presidente da Associação dos Críticos de Cinema do Pará (ACCPA), membro-fundador da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) e membro da Academia Paraense de Ciências (APC). Mestre e Doutor em Artes (PPGARTES) pela UFPA, professor do Curso de Cinema e Audiovisual da UFPA, coordenador-geral do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC), crítico de cinema e pesquisador.

O Cinema de Béla Tarr: estética, tempo e resistência

Marco Antonio Moreira
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Em 6 de janeiro de 2026, a imprensa mundial noticiou o falecimento do cineasta húngaro Béla Tarr (foto), um dos mais significativos nomes do cinema contemporâneo que, desde os anos 1980, buscou interpretar o mundo de maneiras diferenciadas por meio de um cinema autoral, profundamente vinculado à ideia do cinema como arte. Seu falecimento evidenciou a importância de se dar destaque ao talento daqueles artistas que souberam dignificar o cinema com sensibilidade, rigor estético e compromisso artístico. Dessa forma, entendo que a obra cinematográfica de Béla Tarr constitui um legado expressivo, que merece admiração e estudo.

Em sua homenagem, elaborei uma Roda de Cinema do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC), realizada no dia 21/1, com a apresentação de diversas informações e características centrais de sua obra. Essa apresentação gerou reflexões expressivas sobre o cinema de Tarr, articuladas a temas contemporâneos e conectadas à necessidade da existência e da resistência de um cinema autoral independente, que compreenda o espectador como um agente ativo e autônomo, capaz de interpretar e questionar a sociedade moderna por meio dos filmes.

Sou admirador da obra de Béla Tarr e espero que mais espectadores possam conhecer seu trabalho, um dos mais significativos do cinema das últimas décadas. Por isso, compartilho as informações apresentadas na Roda de Cinema sobre seu cinema, de modo a despertar o interesse dos leitores em apreciar seus filmes, como, por exemplo, O Cavalo de Turim (2011), seu último longa-metragem, que será exibido em sua homenagem no Cineclube SINDMEPA, na terça-feira, às 19h, com entrada gratuita.

Obrigado, Béla Tarr!

Características gerais do cinema de Béla Tarr

Cinema radicalmente autoral, anti-industrial e anti-espetacular; rejeição das convenções narrativas clássicas (começo–meio–fim, clímax, resolução); ritmo contemplativo; pouquíssima ação externa; ênfase na experiência do tempo; cinema entendido como experiência moral e existencial, não como entretenimento.

Estética cinematográfica

Planos-sequência longuíssimos (muitos com vários minutos); uso predominante de preto e branco; câmera em movimento lento e contínuo (travellings circulares, laterais); poucos cortes com espectador “vivenciando” o plano; composição rigorosa do quadro, inspirada na pintura e na fotografia; uso expressivo de paisagens desoladas, lama, chuva, vento, ruínas; música minimalista e repetitiva (parceria com o compositor Mihály Víg).

Pensamento de Béla Tarr sobre o cinema

Cinema como ato ético, não como narrativa de acontecimentos; interesse pela condição humana, pela degradação moral e social; o tempo real como elemento central da verdade cinematográfica; rejeição do cinema comercial e da lógica de mercado; influência do pensamento existencialista e pessimista; o cinema deve mostrar o mundo como ele é, sem embelezamento.

Modos de filmar

Roteiros abertos, pouco convencionais; ensaios longos antes das filmagens; filmagens exaustivas para alcançar o movimento exato da câmera; pouca improvisação, mas grande atenção ao corpo do ator no espaço; uso recorrente de atores não profissionais; parceria criativa Ágnes Hranitzky (montadora e codiretora) e László Krasznahorkai (escritor).

Temas centrais de suas obras

Desintegração social e moral; fim das utopias políticas; solidão e incomunicabilidade; ciclos de repetição e estagnação; desesperança e niilismo; o fracasso da modernidade; a espera, o tédio, a resistência silenciosa; a relação entre homem, tempo e natureza.

Declarações de Béla Tarr sobre o cinema

O cinema não é sobre histórias, é sobre pessoas; o tempo é o verdadeiro protagonista dos meu filmes; não faço filmes para entreter; o cinema deve mostrar o mundo como ele é, não como gostaríamos que fosse; a câmera precisa ser honesta; a esperança é uma ilusão perigosa; tudo já foi dito no cinema comercial; quando termino um filme, sinto que disse tudo o que precisava dizer; o silêncio também fala; não acredito em heróis.

Filmografia

Longas-metragens: Ninho de Família (1979), O Intruso (1981), As Pessoas Pré-fabricadas (1982), Almanaque de Outono (1984), Maldição (1988), O Tango de Satã (1994), As Harmonias de Werckmeister (2000), O Homem de Londres (2007), O Cavalo de Turim (2011).  Curtas e Trabalhos para TV: Hotel Magnezit (Curta, 1980), Macbeth (Telefilme, 1982) – Composto por apenas dois planos, City Life (Segmento "The Last Boat", 1990), Journey on the Plain (Curta, 1995), Visions of Europe (Segmento "Prologue", 2004), Muhamed (Curta, 2017), Missing People (Documentário/Curta, 2019).

Dicas da Semana

O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho e A Voz de Hind Rajab (Cine Líbero Luxardo).

O Cavalo de Turim de Béla Tarr. Homenagem a um dos maiores cineastas do cinema (Cineclube SINDMEPA. Terça-feira. Dia 3/2. Horário: 19h. Entrada gratuita).

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