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violência contra a mulher

Mais de 70% das agressões contra mulheres têm testemunhas, diz estudo

Violência atingiu cerca de 3,7 milhões de brasileiras no último ano

Agência Brasil

24 de novembro de 2025 às 20:14

( Foto: Joédson Alves/Agência Brasil )

Cerca de 3,7 milhões de mulheres brasileiras viveram um ou mais episódios de violência doméstica nos últimos 12 meses, segundo pesquisa de abrangência nacional.

Destas, cerca de 71% foram agredidas na presença de outras pessoas, e em 70% desses casos havia criança no ambiente, totalizando 1,94 milhão de agressões testemunhadas por menores. A pesquisa revelou ainda que, em 40% das situações com testemunhas, a vítima não recebeu ajuda.

Os dados atualizam o Mapa Nacional da Violência de Gênero, plataforma mantida pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), pelo Instituto Natura e pela organização Gênero e Número, que integra dados e análises sobre o tema para fomentar políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero.

"Essa foi a primeira vez em que a pesquisa investigou a presença de outras pessoas no momento da agressão. O fato de 71% das mulheres serem agredidas na frente de outras pessoas, e, dentre esses casos, 7 em cada 10 serem presenciados por, pelo menos, uma criança, mostra que o ciclo de violência afeta muitas outras pessoas além da mulher agredida", diz Marcos Ruben de Oliveira, coordenador do Instituto de Pesquisa DataSenado, um dos realizadores do estudo.

A pesquisa foi realizada em parceria com a empresa Nexus e ouviu 21.641 mulheres, de todos os estados e do Distrito Federal, por telefone.

Para 58% das entrevistadas, a situação de violência é recorrente e ocorre há mais de um ano — o que aponta, segundo os pesquisadores, para a persistência do ciclo de agressões e para a dificuldade de rompimento desses vínculos, muitas vezes agravada pela dependência econômica e pela ausência de redes de apoio.

“Cada situação de violência deixa marcas que ultrapassam o momento da agressão. A pesquisa evidencia que a violência de gênero não é um problema isolado, mas uma questão estrutural, que afeta famílias e comunidades e exige uma resposta coletiva, coordenada e permanente, capaz de contribuir para o desenvolvimento do país”, avalia Maria Teresa Mauro, coordenadora do OMV.

Acolhimento

A escuta e o acolhimento das mulheres em situação de violência também foi analisado. Após sofrerem agressão, 58% das vítimas buscaram apoio na família, 53% na igreja e 52% com amigos.

Mesmo assim, apenas 28% registraram denúncia em Delegacias da Mulher e 11% acionaram o Ligue 180, a central nacional de atendimento à mulher.

Entre as entrevistadas que afirmaram ter alguma fé, 70% das evangélicas procuraram amparo religioso, enquanto 59% das católicas buscaram apoio familiar.

“Os números são uma fotografia da realidade do país, em que a maior parte dos casos de violência doméstica ainda é tratada na esfera privada. É essencial que quem acolhe, seja um familiar, uma liderança religiosa ou uma amiga, saiba orientar com clareza sobre os caminhos e órgãos responsáveis pelo atendimento, garantindo que essa mulher se sinta segura para buscar proteção e exercer seus direitos”, afirmou em nota Beatriz Accioly, antropóloga e líder de Políticas Públicas pelo Fim da Violência Contra Meninas e Mulheres, do Instituto Natura.

Lei Maria da Penha

A pesquisa também abordou o conhecimento sobre mecanismos de proteção e instituições públicas. Apesar de ser um dos principais instrumentos legais de combate à violência contra a mulher, 67% das brasileiras conhecem pouco a Lei Maria da Penha, e 11% desconhecem completamente seu conteúdo.

O desconhecimento é mais comum entre mulheres com menor escolaridade e renda mais baixa. Entre analfabetas, 30% disseram não conhecer a lei. Já entre mulheres com ensino fundamental incompleto, o índice é de 20%, enquanto entre as que têm ensino superior completo, é de 3%.

Também há um recorte geracional importante:
– Mulheres com mais de 60 anos: 18% não conhecem a lei;
– De 50 a 59 anos: 14%;
– De 40 a 49 anos: 8%;
– De 30 a 39 anos: 7%;
– De 16 a 29 anos: 6%.

Mesmo com esses índices, 75% das entrevistadas acreditam que a Lei Maria da Penha protege total ou parcialmente as mulheres contra a violência.
Por outro lado, 23% afirmaram que a lei não protege, e 2% não souberam opinar.

A confiança na lei também varia conforme a escolaridade:
– Entre as não alfabetizadas: 33% não acreditam na proteção da legislação;
– Com ensino médio incompleto: 30%;
– Com ensino superior completo: 15%.

Instituições de apoio à mulher

O levantamento também investigou o nível de conhecimento sobre serviços de proteção às vítimas. A Delegacia da Mulher foi o equipamento mais citado, reconhecida por 93% das entrevistadas.

Em seguida, aparecem:

  • Defensorias Públicas: 87%

  • CRAS / CREAS (Centros de Referência de Assistência Social): 81%

  • Ligue 180 (central de atendimento à mulher): 76%

  • Casa Abrigo: 56%

  • Casa da Mulher Brasileira: 38%

  • Outros serviços: 5%