Sintepp aponta 35 escolas municipais de Belém com casos de covid-19

Sindicato não cobre a situação das escolas particulares, mas ao menos três já confirmaram casos e MPPA pode ser acionado

Victor Furtado

Pelo menos 35 escolas municipais de Belém tiveram casos de covid-19 desde o início da retomada gradual das aulas, do quinto ao nono anos. O balanço do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Estado do Pará (Sintepp) foi feito essa semana, quando pelo menos três escolas particulares da capital já registraram casos (de forma pública) e duas delas suspenderam as atividades. 

O Sintepp lembra que, entre as capitais brasileiras, só Belém e Manaus (AM) retomaram as aulas presenciais nas escolas. A capital amazonense foi a primeira a retomar as aulas.  Lá, em um mês, 34,3% dos servidores testaram positivo para a doença. Não houve testagem de alunos. 

Em Belém, a rede privada retomou atividades em setembro, após decreto estadual autorizando a flexibilização do retorno. Até agora, houve casos confirmados no colégio Marista Nossa Senhora de Nazaré, Centro Educacional Mundo de Peteleco (Cemp) e Colégio Sistema (Ananindeua). O Sistema e o Peteleco suspenderam aulas.

Na rede estadual paraense de ensino, o retorno às aulas, previsto para ocorrer no último dia 13 de outubro, foi adiado. A nova previsão da Secretaria Estadual de Educação do Pará (Seduc) é para novembro. 

Uma pesquisa da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) aponta que 3.275, das 5.570 cidades brasileiras — 82% do total —, consideram não haver condições de retomar as aulas presenciais enquanto não houver jeito de se proteger, de forma realmente eficiente e segura, da pandemia de covid-19. 

Pesquisa da Confederação Nacional dos Municípios diz que 3.275, das 5.570 cidades brasileiras - 82% do total -, consideram não haver condições de retomar as aulas presenciais enquanto não houver jeito de se proteger da pandemia de covid-19 

Sindicato e prefeitura dizem que acompanham situação


Mateus Ferreira, coordenador geral do Sintepp Belém, aponta que os levantamentos que o sindicato faz nas escolas, para avaliar a situação frente à pandemia, têm sido feitos com imagens de exames e informações dos servidores de cada estabelecimento. A Secretaria Municipal de Educação (Semec), em nota, reconheceu apenas casos em dez unidades, das 87 que retomaram aulas presenciais no dia 14 de setembro.

Os trabalhadores voltaram a atuar dentro das escolas em 31 de julho, para atividades remotas e entregas de cadernos de atividades. As aulas presenciais só voltaram a ser flexibilizadas em 14 de setembro.

Depois dos novos casos relatados em escolas de Belém, a prefeitura diz que está monitorando casos, mas não suspendeu as aulas. A rede municipal tem cerca de 4 mil trabalhadores. Porém, o universo das comunidades escolares é muito maior, com alunos e as suas famílias.

Depois de novos casos relatados em escolas de Belém, a prefeitura diz que monitora casos, mas não suspendeu as aulas. A rede municipal tem cerca de 4 mil trabalhadores. Porém, o universo das comunidades escolares é muito maior, com alunos e as suas famílias

Mateus afirma que a rede municipal ainda não conta com estrutura ideal de atendimento. E se a rede privada, com muito mais recursos e investimentos, está tendo casos, a rede pública tem ainda mais desafios.

"As classes mais pobres são as mais afetadas porque têm deslocamento em transporte público e realidades pessoais mais complicadas", diz. Ele aponta a necessidade de testagem em massa de trabalhadores e alunos. Manaus só testou professores e teve um resultado desagradável para o plano de retomar aulas em meio à anormalidade.

"Depois de Manaus, entre as capitais, só Belém retomou. Aqui no Pará, temos Marabá que pode voltar e a categoria já sinaliza greve. Tivemos acesso a informações de 32 escolas e estamos analisando outras três. Podem ser pelo menos 35 unidades com casos de covid-19 e esse número pode já estar aumentando. Porém, a Semec não suspende as aulas e demora para afastar os servidores. Estamos fechando esse relatório para apresentar ao Ministério Público do Estado do Pará (MPPA)", comenta o coordenador geral do Sintepp Belém.

"Depois de Manaus, entre as capitais, só Belém retomou. Aqui no Pará, temos Marabá que pode voltar e a categoria já sinaliza greve. Podem ser pelo menos 35 unidades com casos de covid-19 e esse número pode já estar aumentando. Porém, a Semec não suspende as aulas e demora para afastar os servidores, diz o Sintepp

Prefeitura já reconhece casos em 10 unidades


Procurada essa semana pela redação integrada de O Liberal para comentar o medo de famílias e as ações frente aos casos que surgem em escolas públicas e privadas da capital, a Prefeitura Municipal de Belém informou que "desde o início do retorno gradual das aulas presenciais, no dia 14 de setembro, a Secretaria Municipal de Educação (Semec) vem adotando as medidas de prevenção necessárias ao combate da disseminação da covid-19 estabelecidas no Decreto Municipal 97.177/2020, de 1 de setembro".

Segundo diz a prefeitura, foi desenvolvido um protocolo sanitário específico para a retomada, com sistema híbrido de aulas presenciais e por etapas. "Antes de cada aula é feita uma avaliação para garantir a segurança de alunos e professores conforme as orientações do Comitê de Segurança Municipal".

O município diz ainda que "todas as escolas que voltaram a receber os alunos, cumprindo esquema de rodízio semanal, estão executando os protocolos sanitários e a Semec, juntamente com a Secretaria Municipal de Saúde (Sesma), está fazendo o monitoramento de possíveis casos suspeitos".

Semec diz que desconhece lista de casos do Sintepp


A Semec afirmou ainda que "desconhece a lista que está sendo divulgada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública (Sintepp), com uma relação de escolas municipais que estariam com professores positivos para a covid-19". 

Segundo diz a nota da Semec, a lista divulgada pelo Sintepp cita, inclusive "escolas que ainda não voltaram com o retorno gradual determinado pelo município, como as Escolas Municipais de Educação Infantil (Emei), que devem retornar com as aulas na próxima etapa ou em janeiro de 2021".

A Semec diz que essa lista tem, ainda, "uma unidade que não pertence ao município, identificada no item 19 como UP Outeiro".

Sobre medidas tomadas em casos de suspeitas de covid-19 em escolas, a Semec diz ainda que o servidor é imediatamente afastado e o diretor preenche uma ficha, que é encaminhada para Vigilância Epidemiológica, para que seja realizado um teste em quem apresenta sintoma gripal. "Das 87 escolas municipais que já voltaram, cerca de dez tiveram um caso notificado, que ainda seguem em análise da Sesma”, confirmou Ana Paula Carneiro, diretora de educação da Semec. 

 Segundo diz a Semec, a lista divulgada pelo Sintepp cita escolas que ainda não voltaram com o retorno gradual determinado pelo município. "Das 87 escolas municipais que já voltaram, cerca de dez tiveram um caso notificado, que ainda seguem em análise da Sesma”, diz Ana Paula Carneiro, diretora de educação da Semec

Escola Manuela Freitas: quadros de casos do Sintepp e Semec divergem (Cristino Martins)

Famílias estão inseguras com condições escolares


Em Mosqueiro, distrito de Belém, a escola Anna Barreau Meninéia, no Ariramba, tem quatro supostos casos de covid-19. Três alunos e um professor, diz uma trabalhadora do estabelecimento, que preferiu não ser identificada. A estrutura da escola, aponta ela, é inadequada. Muitas pias estão quebradas. As salas não têm ventilação adequada. A unidade está em obras e nem todos os operários usam máscara.

Recentemente, a escola Manuela Freitas, no bairro São Brás, também teve relatos de contaminação, que chegaram às redes sociais digitais. As aulas seguem normalmente. O Sintepp também identificou a escola Silvio Leandro, no bairro do Coqueiro, quase no limite entre Belém e Ananindeua (mas pertencente à capital) com casos da doença do coronavírus sars-cov-2. Nessa, as aulas teriam sido suspensas temporariamente.

Em Mosqueiro, a escola Anna Barreau Meninéia tem quatro supostos casos de covid-19. São três alunos e um professor, denunciou uma servidora do estabelecimento. A estrutura da escola, diz ela, é inadequada. Muitas pias estão quebradas. As salas não têm ventilação adequada. A unidade está em obras e nem todos os operários usam máscara

Priscielen Paiva tem dois filhos pequenos que estudam na Anna Barreau Meninéia. Para elas, as aulas presenciais ainda não voltaram, mas a mãe já adianta que os filhos, possivelmente não voltam. Ela não sente segurança para mandá-los e vai seguir analisando os casos. Ela não sabia que havia casos suspeitos de covid-19 na unidade.

"Resguardei eles ao máximo desde o início. Não sabemos quem tem a doença e nós não pegamos ainda. Acho que não estamos prontos para retornar", justifica.

Emanuelle de Paula tem duas filhas que da educação infantil menor, matriculadas na Manuela Freitas. Os casos de covid-19 na escola chegaram ao conhecimento da comunidade escolar pelos aplicativos de mensagens. Ela já afirma que as crianças dela não voltam enquanto não for totalmente seguro.

"Desde a primeira retomada, assinei um termo dizendo que elas não voltariam e eu iria buscar as atividades. Crianças conversam, botam mão na boca, não ficam de máscara, se esbarram, brincam... não me sinto segura. Eu peguei o coronavírus e não desejo ao meu pior inimigo. Não dá pra voltar ainda", comentou.

Priscielen Paiva tem dois filhos pequenos que estudam na Anna Barreau Meninéia, no Ariramba. Ela não sente segurança para mandá-los às aulas. Não sabia que havia casos suspeitos de covid-19 na unidade. "Resguardei eles ao máximo desde o início. Não sabemos quem tem a doença e nós não pegamos ainda. Acho que não estamos prontos para retornar"

Escola municipal em Mosqueiro: famílias relutam sobre retomada (Akira Onuma)

Com medo, comunidades escolares encolhem


No bairro do Mangueirão, uma escola particular, do conjunto Panorama XXI, foi impactada pelo medo das famílias frente à covid-19. A coordenadora, que preferiu não se identificar, relata que de 500 alunos, só 110 estão realmente ativos, somando os que estão indo presencialmente e os que estão apenas em aulas remotas.

A escola fez vários investimentos para se adequar aos protocolos de segurança e um levantamento em toda a comunidade, com famílias dos estudantes e trabalhadores. Nada evitou a evasão. O recente levante de casos na rede particular gerou uma nova preocupação.

"Após o levantamento e adequações, voltamos , oficialmente, em 9 de agosto. Desde então, tivemos zero casos. O único problema foi com uma aluna que estava gripada Muitas famílias estão preocupadas porque não contraíram, mas as pessoas estão negligenciando enquanto a pandemia não acabou. Nossa preocupação sempre vai existir. Eu já peguei covid-19 e estou preocupada. Então estamos trabalhando. Normal, com certeza não está", pondera a coordenadora.

Notas públicas contrastam com realidade de escolas


Pelo menos nas comunidades escolares que foram visitadas e ouvidas para essa matéria, o contato da redação integrada de O Liberal com servidores, pais de alunos de escolas públicas de Belém mostra uma situação que contrasta com a realidade apresentada pelos comunicados oficiais recentemente apresentados pelo poder público municipal para o enfrentamento à covid-19 nos estabelecimentos de ensino. 

"Entre as medidas de prevenção adotadas nas escolas, está a colocação do tapete com hipoclorito para higienização dos sapatos na entrada e na saída dos alunos, controle de temperatura com termômetro de testa infravermelho, distribuição de dispensadores de álcool em gel e instalação de pias na entrada das escolas para higienização das mãos com sabão e desinfecção das unidades com pulverizações. Para o intervalo da merenda as escolas estão organizando os alunos por grupos em horários distintos, respeitando sempre o distanciamento com marcação nas mesas", diz nota da Prefeitura de Belém encaminhada essa semana à redação.

A Semec diz que, ainda como medida de prevenção, também "realizou teste rápido IgG IgM em 472 servidores ativos da educação com 60 anos ou mais". A Secretaria Municipal de Educação de Belém diz que os que apresentaram resultado positivo paraa covid-19 "foram afastados e orientados" pela equipe de saúde. "Foi distribuído um manual de prevenção e cartazes às escolas, com orientações de boas práticas de higiene e prevenção à covid-19 nas unidades", diz Prefeitura Municipal de Belém.

Leila Flores, diretora do Departamento de Vigilância em Saúde da Sesma, diz, em  comunicado da Prefeitura de Belém encaminhado à redação, que a covid-19 é uma doença de notificação obrigatória e imediata. Por isso, ela deve ser informada à Sesma para que se proceda a investigação do caso, o monitoramento dos contatos e as orientações adequadas aos envolvidos.

"Diante do momento que estamos vivendo e observando os dados mais recentes, podemos ver a queda da curva de transmissão em nosso município. A redução de agosto para setembro foi de 37% para novos casos. Já para óbitos, a redução é de mais de 90%, quando comparados dados da semana 18 (o pico) com os da semana 38. Esses dados também apontam para a estabilização local da doença. Até o momento, não observamos surtos em escolas, apenas casos isolados que estão sendo monitorados", diz Leila Flores.

"Diante do momento que estamos vivendo e observando os dados mais recentes, podemos ver a queda da curva de transmissão em nosso município. Esses dados também apontam para a estabilização local da doença. Até o momento, não observamos surtos em escolas, apenas casos isolados que estão sendo monitorados", diz Leila Flores, diretora do Departamento de Vigilância em Saúde da Sesma

"Outro comparativo que reforça a tendência à redução dos dados municipais, é a análise do número de óbitos nos 15 primeiros dias de setembro, quando foram registradas 31 ocorrências. De 1 a 14 de outubro esse número caiu para seis óbitos, resultando em uma redução de mais de 80%", afirma a Prefeitura Municipal de Belém.

A diretora frisa ainda que a pandemia não acabou e que é fundamental o cumprimento das medidas higiênico-sanitárias para que a doença seja controlada. "É sempre bom reforçar as medidas de segurança para a população e profissionais sobre o 'novo normal'. O combate ao vírus é coletivo, uma vez que ainda não temos a vacina e os estudos sobre a doença ainda estão em andamento".

Belém
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