Projeto de preservação fortalece pesquisa e biodiversidade de quelônios no Mangal das Garças
No espaço, as espécies recebem cuidados especializados em tanques e áreas monitoradas, contribuindo também para a produção de conhecimento sobre a fauna
Abrigando mais de 600 espécies da Amazônia, o Parque Zoobotânico Mangal das Garças desenvolve, em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA), pesquisas e ações de manejo voltadas à conservação de quelônios, acompanhando os animais desde a proteção dos ovos até a preparação para a soltura na natureza. No espaço, as espécies recebem cuidados especializados em tanques e áreas monitoradas, contribuindo também para a produção de conhecimento sobre a fauna. Os animais pertencentes ao parque, que é aberto à visitação, também recebem esses mesmos cuidados.
O biólogo e responsável técnico do Mangal das Garças, Basílio Guerreiro, pontua que o Mangal das Garças sempre foi tradicionalmente percebido como um espaço voltado ao turismo. No entanto, desde 2019, a equipe vem estruturando um padrão de desenvolvimento de pesquisa científica, firmando parcerias com universidades e laboratórios para ampliar a produção de conhecimento e gerar retorno à comunidade. Segundo ele, estudantes dessas instituições, como a UFPA, utilizam os animais do parque em seus estudos, sob acompanhamento da equipe técnica.
O biólogo explica que as tartarugas e jabutis são o foco desses estudos e que a maior parte dos animais recebidos no local vem de apreensões, seja de criadores ilegais ou de indivíduos que seriam destinados ao abate para consumo. “Entre eles, destaca-se a tartaruga-da-Amazônia, a maior espécie, com grande quantidade de carne. Também recebemos animais provenientes das pesquisas em andamento, que nasceram em laboratório e são encaminhados para desenvolvimento”, detalha.
Cuidados diários
Esses quelônios contam com cuidados diários, desde alimentação até reprodução. Basílio explica que o Mangal das Garças possui uma área específica para a desova, desempenhando um papel fundamental na proteção dos ninhos contra predadores, como garças, rodedores e iguanas, que ameaçam tanto os ovos quanto os recém-nascidos.
“Nosso lago abriga cerca de 600 animais, entre tartaruga-da-Amazônia, peremas, muçuãs e tracajás. Além disso, cuidamos de jabutis, que são terrestres. Após o nascimento, os filhotes são levados para o berçário, onde permanecem até cerca de 9 ou 10 meses, quando estão prontos para a reintrodução na natureza. Geralmente, o Ideflor-Bio e a Semas são os órgãos autorizados a realizar as solturas”, observa.
Equilíbrio populacional
Para manter o equilíbrio populacional e garantir o bem-estar dos animais, a maioria dos quelônios é reintroduzida na natureza, como enfatiza o biólogo. “Quando há superpopulação ou estresse elevado, eles deixam de se reproduzir, o que é um comportamento natural. Até o momento da reintrodução, permanecem sob nossos cuidados, incluindo uma alimentação específica”, frisa.
“Esses animais sofrem forte pressão ambiental, especialmente devido às mudanças climáticas, já que são muito sensíveis às variações de temperatura, que podem dizimar populações inteiras. Além disso, por dependerem do calor externo, tornam-se ainda mais vulneráveis. Também enfrentam pressão pelo uso como animais de estimação e pelo consumo humano, fora do contexto de populações tradicionais. A reintrodução busca contribuir para o equilíbrio, embora saibamos que não seja suficiente. É necessário também garantir a manutenção dos rios em condições adequadas para que sobrevivam de forma saudável”, completa Basílio.
Contribuição para pesquisas
A preservação dos quelônios também contribui para a ciência. A bióloga Brenda Braga, pesquisadora de pós-doutorado da UFPA, explica que os estudos sobre quelônios na região ocorrem há cerca de dez anos, iniciando pelo manejo do muçuã, tartaruga típica do Marajó, cuja redução populacional foi identificada em entrevistas com moradores. Segundo ela, as pesquisas seguem em colaboração com o Parque Zoobotânico Mangal das Garças, com o objetivo de reunir informações fundamentais e desenvolver base tecnológica para futuros manejos fora do cativeiro, no caso das espécies de perema.
“As peremas são advindas do próprio parque. Essas espécies da Amazônia são bem pouco conhecidas. Estamos desenvolvendo estudos iniciais sobre o tempo que esses ovos demoram para eclodir e quais são as temperaturas em que a gente consegue ter a razão sexual da ninhada. Nós já descobrimos qual é o período de desenvolvimento embrionário, como esses embriões se desenvolvem, qual é a melhor temperatura para eles se desenvolverem e, agora, estamos acompanhando as taxas de crescimento.”
Segundo Brenda, essas descobertas ajudam no desenvolvimento da pesquisa, no conhecimento sobre essas espécies e no comportamento desses animais na natureza. “Esses estudos podem ajudar a fomentar pesquisas tanto no ambiente de cativeiro, se a gente quiser, por exemplo, reproduzir as condições em que eles estão sendo criados e aumentar a quantidade desses indivíduos, quanto em pesquisas com esses animais nos ambientes naturais onde eles ocorrem”, comenta.
“Os animais utilizados em pesquisa ficam restritos a uma área sem acesso ao público. O acompanhamento é integral, e apenas algumas pessoas têm permissão para entrar, como participantes de visitas técnicas de outras universidades que buscam conhecer o funcionamento do zoológico. Essas visitas estimulam estudantes que estão iniciando suas trajetórias acadêmicas”, reforça Basílio.
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