Passeio do Sol Nascente é opção de turismo imersivo pertinho de Belém

Rota ecológica distante vinte minutos da capital é, também, uma opção de baixo custo

Tainá Cavalcante (texto) - Priscila Monteiro (edição)

Ainda nem havia amanhecido quando a embarcação atracou no porto em qual dez turistas esperavam, ansiosos, para iniciar viagem. Aquela voadeira, de pequenas proporções, os levaria para um ponto ainda inexplorado do turismo paraense, em meio a Amazônia, com a lua cheia ainda se pondo na água, eles estavam entre rio e floresta, com papagaios a ilustrar o céu e “pô-pô-pôs” a desenhar a Baía do Guajará. A descrição parece tão paradisíaca que se quer imaginamos que isso tudo está a meros 30 minutos da capital paraense - e, a depender da embarcação, o tempo reduz em até 50%.

Não por acaso, a rota em questão se chama "Passeio do Sol Nascente". De baixo custo, é facilmente acessível não só financeiramente, mas estruturalmente: todo o trajeto, que inclui barco, ônibus e boas caminhadas é feito em uma manhã. Mas não é todos os dias, e infelizmente nem todos os finais de semana, que o passeio está disponível: para que possa ser aproveitado da melhor forma possível, ele depende de período do ano, horário e até da fase da lua. Mas, uma coisa é certa: vale a pena esperar! Quer se convencer disso? Imagine a seguinte cena: a lua se pondo de um lado e refletindo no rio. Do outro, o sol nascendo e o céu se inebriando por suas cores.

Ao chegar em determinado ponto, uma revoada de papagaios e, logo em seguida, um banco de areia formado em meio a infinidade de águas da Baía do Guajará, onde uma yoga com meditação é oferecida. Depois, uma parada para experimentar alguns quitutes veganos, como chocolate quente com leite de castanha e um chocolate 100% cacau enriquecido de sementes da região. Por fim, uma trilha que apresenta aos turistas espécies raras de vegetação amazônica, incluindo uma gigante Samaumeira; a apresentação de seu Ladir, um senhor de 70 anos que pula, lá do alto, entre seus açaizeiros e, para terminar, um banho de cheiro feito em um igarapé por erveiras da região.

Esse é o roteiro do Passeio do Sol Nascente, uma rota ainda inexplorada de ecoturismo em meio a Amazônia, financeiramente acessível e que fomenta a economia de base da região. Quer saber mais? Nessa matéria, listamos a rota na íntegra para você. Confira:

1. O passeio se inicia às 5h20, quando os turistas se encontram no Complexo Marina Bay (Av. Bernardo Sayão, 4038). A saída da voadeira é às 5h30, tempo sincronizado para não perder a atração que é a primeira parada: a contemplação da Revoada dos Papagaios. O trajeto até lá dura cerca de 20 minutos, período em que a lua está se pondo de um lado e o sol nascendo do outro. O passeio só ocorre durante a lua cheia.

2. Esse caminho dá uma espécie de volta na Ilha do Combu: passa pelo rio Guamá, pela frente do Combu até chegar à Ilha dos Papagaios, que fica entre a Ilha do Combu e a Ilha das Onças, na Baía do Guajará. É lá, nessa pequena ilha, onde a maioria dos papagaios da região moram e dormem. Eles a usam de território até para a própria proteção em relação aos predadores. E por isso, é lá também que ocorre a Revoada dos Papagaios.

A revoada ocorre em dois horários: logo antes do sol nascer e um pouco depois do pôr do sol (Fábio Costa / O Liberal)

A REVOADA: ela ocorre todos os dias, com maior número de aves de janeiro a agosto e, eventualmente, um pouco no início de setembro e final de dezembro. A revoada ocorre em dois horários: logo antes do sol nascer e um pouco depois do pôr do sol. Por isso, no passeio, se chega ao local faltando 15 minutos para às 6h, horário que os papagaios acordam e, ao invés de acordarem e voarem em direção ao local em que se alimentam (buscam açaí e outras frutas nas regiões próximas), ficam cerca de 20 minutos voando em círculos sob a ilha, fazendo um barulho típico da espécie. É um fenômeno bem específico dessa ave e dificilmente visto em regiões com urbanização tão próxima. Após os 20 minutos, um pouco antes de o sol nascer, eles saem em debandada para a região onde se alimentam.

3. Assim que a revoada acaba, o passeio do Sol Nascente segue para o Furo do Benedito, até na altura do Furo da Paciência. O trajeto é curto: em menos de 10 minutos se chega ao ponto ideal, onde se forma um banco de areia temporário. É lá que o grupo é convidado a fazer uma meditação com yoga, no banco de areia, em meio ao rio e com toda a floresta em volta. A prática dura o tempo da maré: em um intervalo de 30 minutos, o rio começa a encher novamente e o banco desaparece. Quando isso começa a acontecer, os turistas voltam para a voadeira e continuam o passeio.

Yoga é realizada em banco de areia temporário que se forma no rio (Fábio Costa / O Liberal)

4. Após a Yoga, são mais 500 metros de voadeira até a comunidade de Boa Vista do Acará - região com forte potencial turístico e ainda pouco explorado. Lá, os turistas descem da embarcação e são levados a uma espécie de imersão: eles são convidados a experimentar comidas naturais e típicas da região, em sua maioria veganas, feitas pelos produtores locais, como o chocolate de cacau 100% enriquecido com frutas e sementes e o chocolate quente com leite de castanha. Nesse local, eles também podem conhecer e comprar alguns produtos da região, como acessórios feitos com vegetação local, como brincos, colares e pulseiras. A parada tem tempo médio de 30 minutos.

Passeio ainda fomenta a economia da região (Fábio Costa / O Liberal)

5. O momento seguinte costuma ser um dos preferidos de quem faz o passeio: a trilha com seu Ladir. Figura icônica da região, a casa de seu Ladir é o ponto de partida da trilha. É um senhor de 77 anos e, segundo os locais, ele é um dos mais antigos moradores de lá. Ele ficou conhecido por subir em açaizeiros e fazer uma "performance": ele mostra aos turistas como é apanhar açaí e, como 'grand finale', ainda salta de um açaizeiro para o outro, com uma segurança de dar inveja.

Seu Ladir recebe turistas e apresenta riquezas de Boa Vista do Acará (Fábio Costa / O Liberal)

Seu Ladir é o dono do terreno onde estão espécies de árvores muito antigas e preservadas da região, e onde é feita a famosa trilha de Boa Vista do Acará. Ele garante que "quem vive na floresta, vive em paz" e que não trocaria Boa Vista do Acará por nenhum outro lugar. "Aqui é um lugar que tem tudo o que a gente precisa na vida. Às vezes a pessoa tem qualquer coisinha e já precisa de remédio. Eu quase não tomo remédio, não vou em médico quase, porque aqui eu tenho remédios naturais e o melhor: paz".

Um dos moradores mais antigos da região, seu Ladir garante não trocar o local por nenhum outro do mundo (Fábio Costa / O Liberal)

A TRILHA: na trilha, os turistas passam pelas mais diversas experiências: conhecem vegetações locais, como a Priprioca, Pé de Patcholi e até uma árvore que anda 10 centímetros por ano, mas também vivem aventuras: seu Ladir conta que, às vezes, alguns animais aparecem pelo caminho e é preciso mudar a rota. É ele quem apresenta a trilha aos turistas, mostrando plantas, espécies nativas, frutas e a Samaumeira. Ele também coleta castanhas na hora e oferece aos visitantes, pedindo que as provem com farinha, também feita no local e disponibilizada in natura. A trilha dura em média 30 minutos, entre caminhadas e paradas.

Trilha conta com árvores antigas da Amazônia (Fábio Costa / O Liberal)

6. Saindo da trilha, os turistas pegam um ônibus e seguem estrada até um igarapé da região. A viagem tem duração de 15 minutos. No igarapé, um banho de ervas, ou "banho de cheiro", como é mais conhecido, é feito em cada um. A mesma pessoa que faz o banho faz pedidos de boas energias aos turistas que ali estão e pede que cada um mentalize coisas boas, vivências especiais em suas vidas. Esse é o momento revigorante da viagem e que finaliza a rota.

Todos os turistas que participam da trilha tomam o tradicional 'banho de cheiro' (Fábio Costa / O Liberal)

7. Por fim, os turistas retornam no ônibus até o primeiro ponto de Boa Vista do Acará, mesmo local em que fizeram a parada do lanche. Nesse momento, o relógio já marca às 12h. Lá, a voadeira os aguarda para o retorno à capital, trajeto que dura em média 20 minutos até o porto na Marina Bay.

Turistas na lancha no retorno a Belém (Fábio Costa / O Liberal)

 

O QUE OS TURISTAS TÊM A DIZER DA EXPERIÊNCIA?

A universitária Stephania Araújo, 24, da Paraíba, fez o passeio pela primeira vez e afirmou estar encantada pela rota. "A gente sai um pouco daquele cotidiano urbano e vai para um local mais tranquilo, com muita paz", disse, ressaltando que "o turismo alternativo, o ecoturismo, é muito interessante e algo inovador, que pouco encontramos por aqui".

Mesmo nascendo e vivendo em Belém por toda a vida, a gerente comercial Cleisyane Caldas, 38, também estava pela primeira vez no passeio e disse que a experiência precisava ser obrigatória na vida de todos. "Era justamente isso que eu queria: equilíbrio, interação com a natureza, uma questão mais nossa, para autoconhecimento mesmo. É a primeira experiência e, de cara, uma das mais incríveis que eu já vivi", garante. Ela também diz que "independente de religião, crença, da atividade que a pessoa faça, todo mundo merece viver isso".

Mesmo morando em Belém, Cleisyane nunca tinha vivido experiência parecida (Fábio Costa / O Liberal)

De Brasília, Fabrício Lacerda também avaliou a oportunidade como positiva. Apesar de já ter passeado, como turista, por diversos pontos da cidade e arredores, ele conta que "de turismo de imersão foi um dos primeiros e o passeio foi fantástico". "Eu não imaginava que seria tão bacana! Fazer yoga num banco de areia, no meio do rio, é muito exótico, muito legal e as pessoas também ficam em uma ‘vibe’ muito bacana", avalia. "É algo completamente exótico, com vegetação exótica, locais exóticos e faz você se sentir fora da sociedade. É muito alternativo e isso te passa uma sensação de afastamento, parece que você estar em um lugar para relaxar, para curtir e ter um contato maior com a natureza. Incrível! Esse passeio deveria ser obrigatório inclusive para os moradores de Belém", completa.

Paisagem do trajeto é experiência a parte (Fábio Costa / O Liberal)

QUERO FAZER O PASSEIO, COM QUEM EU FALO?

O passeio completo é feito pelo professor de yoga Rogério Chimionato. Paulista, ele conta que um dos fatores que o fez mudar para Belém foi "a exuberância da natureza e as possibilidades que ela traz". "Acabou que isso também virou um trabalho para mim, o que me ajuda a me manter na cidade, mas essa junção de natureza, o fato de não ter o frio aqui, de poder frequentar os rios o ano inteiro, a água não fica gelada a ponto de ficar insuportável o banho e essas possibilidades, são indescritíveis", declara.

Para Rogério, fazer yoga em meio a Amazônia é "uma experiência diferente, porque tem a energia da floresta que quem gosta, quem curte, vai sentir até fisicamente".

Rogério é paulista, mas se apaixonou pela exuberância do turismo no Pará e resolveu ficar no Estado (Fábio Costa / O Liberal)

Informações sobre o passeio podem ser obtidas diretamente com Rogério pelo número (91) 98498-1445 ou pelo Instagram.

Os produtores locais de Boa Vista do Acará também oferecem algumas opções de passeio dentro da localidade, como visitas ao sítio da região onde a maioria dos produtos são plantados. Mais informações podem ser repassadas pela produtora Derluce Gomes (91) 99230-3979.

QUANTO CUSTA?

Em 2019, o valor do passeio feito por Rogério ficou em R$ 115, incluindo os trajetos de voadeira, a revoada na Ilha dos Papagaios, yoga no banco de areia (Furo do Benedito) contemplando o nascer do sol, chocolate quente com leite de castanha, banho de ervas no igarapé, coxinha de macaxeira com queijo, Furo da Paciência, ônibus para o igarapé ida e volta e embarque e desembarque em porto particular. A trilha tem valor simbólico, dado diretamente ao seu Ladir, de R$ 10. O estacionamento no porto particular também custa R$ 10.

Belém
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