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‘Orquestra Sustentável’ ensina educação ambiental por meio da música na periferia de Belém

No Dia Mundial da Educação Ambiental, conheça um projeto social que transforma resíduos sólidos em instrumentos. Especialista dá dicas práticas para adotar hábitos sustentáveis no dia a dia.

Gabriel da Mota e Gabriel Pires

O Dia Mundial da Educação Ambiental, celebrado nesta segunda-feira (26), foi instituído em 1975 pelas Nações Unidas para alertar sobre a urgência de proteger o meio ambiente por meio do conhecimento. A data remete à "Carta de Belgrado", um marco conceitual que ainda hoje pauta as discussões ecológicas no mundo. Em Belém, essa teoria se transforma em prática nas mãos do músico e arte-educador Heraldo Santos, criador da Orquestra Sustentável Percussão da Terra.

Há quase 15 anos, o projeto atua em comunidades vulneráveis da capital paraense, transformando resíduos sólidos — o que muitos chamam de lixo — em instrumentos musicais de alta performance. O trabalho foca na alfabetização musical de crianças, jovens e adultos, utilizando a percussão como ferramenta de conscientização ambiental e prevenção da criminalidade. 

"A Orquestra Sustentável é um trabalho musical percussivo com o qual a gente alfabetiza a pessoa musicalmente e conscientiza sobre o que é o meio ambiente. Não é só a natureza, o bichinho, a plantinha; é a nossa casa, a escola, o ambiente de trabalho, o ônibus... Ter a preocupação de, quando chover, não ter alagamento por conta dos resíduos sólidos que são nocivos", afirma Heraldo Santos, que fundou o projeto em 18 de maio, Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Ele acrescenta que mais de 10 mil pessoas já foram beneficiadas pelo projeto sociocultural, entre alunos e artistas parceiros.

image Heraldo Santos, músico, arte-educador e criador da Orquestra Sustentável Percussão da Terra (Wagner Santana / O Liberal)

Instrumentos a partir de resíduos

Na oficina de Heraldo, localizada na passagem Comendador Pinho, no bairro da Sacramenta, materiais que levariam décadas para se decompor ganham nova vida. Garrafões de água mineral com validade vencida viram tambores; latas de spray de desodorante transformam-se em ganzás e caixas de pizza com grãos de milho dão origem ao "banzeiro", instrumento que mimetiza o som das águas.

"O garrafão de água mineral, quando perde a validade, libera uma toxina cancerígena e não pode mais ter contato com alimentos. Nós, como artistas, transformamos-os em tambores. Usamos cabos de vassoura para fazer o maracá, tampinhas de metal e plástico para fazer instrumentos de efeito... Tudo vira música", detalha o coordenador, que pesquisa ritmos como o maracatu e o carimbó desde a década de 1990.

A iniciativa também gera impactos econômicos. Heraldo conta que o atual luthier da orquestra — profissional responsável por criar e reparar instrumentos de corda — descobriu sua profissão dentro do projeto. "Ele não era luthier, se tornou por ter muitas habilidades e hoje tem o sustento dos instrumentos. Ele nunca imaginou que teria esse sustento. Aí está a sustentabilidade propriamente dita: estar com o próximo e fazer ele ser beneficiado", destaca o músico.

image Materiais que levariam décadas para se decompor ganham nova vida, como latas de spray de desodorante (que se transformam em ganzás) e pedaços de madeira (que viram tambores) (Wagner Santana / O Liberal)

Histórias de transformação

Para quem passou pelo projeto, o aprendizado vai além das notas musicais. Alex Silva, de 24 anos, hoje músico e educador, é morador do Bengui e iniciou na orquestra por volta de 2018. "O projeto atua em três perspectivas: a inclusão, a autoestima e a educação. Ele potencializa que eu tenho de melhor, que eu posso ser artista e viver de música. Independentemente de saber tocar ou não, o projeto acolhe", diz Alex.

Lizandra Guedes, de 28 anos, hoje técnica de segurança do trabalho, entrou no grupo em 2013 através de um polo na UFRA. "Entrei para ampliar minha visão sobre o meio ambiente e reciclagem. Até no meu meio de vivência, o projeto ajudou a conscientizar crianças sobre o que é reaproveitado. Continuo porque já faz parte da minha vida desde criança", relata a moradora da Terra Firme. 

Já para Patrick Mesquita, de 25 anos, o projeto foi o primeiro contato com a música. "O que mudou na minha vida foi aprender a fazer instrumentos de resíduos sólidos e ter responsabilidade com horários e comprometimento", afirma o hoje motorista de aplicativo, residente na Cabanagem.

Transformação coletiva

Outro bom exemplo é a ação social coordenada pelo professor de canoagem Igor Vianna, de 39 anos, que também tem se consolidado como uma iniciativa contínua de enfrentamento ao acúmulo de lixo nas ilhas de Belém. Iniciado em março do ano passado, o trabalho ocorre de forma mensal e reúne voluntários conforme a dinâmica das marés, com participação variável a cada edição, chegando, em algumas ações, a cerca de 70 pessoas. As atividades já somam onze edições na Ilha dos Papagaios e intervenções pontuais nas ilhas do Cumbu e de Cotijuba, sempre com foco na retirada de resíduos sólidos trazidos por correntes, ventos e pelo próprio regime das marés, que historicamente afetam essas áreas habitadas há décadas.

Aberta à participação da comunidade, a iniciativa envolve tanto a presença direta nas expedições quanto formas de apoio logístico e financeiro, como o custeio da lancha utilizada no transporte dos voluntários. Segundo o organizador, após quase um ano de atuação contínua, cada ação tem resultado na retirada média de 40 sacos de lixo, número que em edições recentes ultrapassou 70 sacos apenas na Ilha dos Papagaios.

Apesar dos resultados visíveis, Igor Vianna ressalta que o esforço ainda é limitado diante da dimensão do problema ambiental enfrentado pelas ilhas da região, muitas delas expostas há anos ao descarte irregular de resíduos sem qualquer política sistemática de limpeza. Ainda assim, ele avalia que o principal impacto da ação está na transformação gradual da paisagem e na conscientização coletiva, ao comparar o cenário atual com registros de mais de uma década atrás, quando o solo das ilhas era amplamente coberto por plástico.

“Há muito tempo não se via qualquer iniciativa nessas áreas. Tenho fotos da Ilha dos Papagaios de mais de dez anos atrás, que já mostravam o acúmulo de lixo. Comecei a remar em 2007 e frequento a região desde então. Naquela época, o chão era coberto por lixo plástico. Hoje, graças ao esforço de todos, conseguimos mudar essa realidade”, avalia o organizador.

image Jovens adultos, moradores de áreas como Bengui, Terra Firme e Cabanagem, cresceram com o projeto e continuam fazendo parte do grupo que atualmente é composto por cerca de 30 pessoas (Wagner Santana / O Liberal)

Educação no cotidiano

O especialista em meio ambiente, André Cutrim, explica que a atitude inicial para quem busca um estilo de vida mais sustentável é a compreensão do próprio contexto. Ele ressalta que a sustentabilidade não se limita a atos isolados ou tendências de consumo, mas sim a um processo contínuo de conscientização. Esse processo envolve entender como as decisões individuais se conectam a dinâmicas sociais e ambientais mais amplas.

"A partir dessa compreensão inicial, a ação sustentável passa a fazer sentido quando começa no cotidiano, com mudanças possíveis e consistentes, como rever padrões de consumo, reduzir desperdícios, valorizar produtos e serviços locais, além de repensar a relação com o uso de energia, água e com o descarte inadequado de resíduos sólidos (lixo)", afirma o especialista.

Muitas pessoas tentam fazer mudanças abrangentes de uma vez e acabam desistindo. Por isso, Cutrim sugere começar com algo bem definido. "Por exemplo, reduzir o tempo médio de banho, racionalizar o uso de iluminação ou organizar a separação do lixo seco e do orgânico. A sustentabilidade começa pelo evitar, e não pelo substituir, o que implica adotar algum nível de planejamento para minimizar perdas e reaproveitar o que já existe em casa", orienta.

image Há quase 15 anos, o projeto atua em comunidades vulneráveis da capital paraense, transformando resíduos sólidos em instrumentos musicais de alta performance (Wagner Santana / O Liberal)

Gestão e reaproveitamento

O caminho para a educação ambiental também passa por reforçar a reciclagem como rotina. "O essencial é definir espaços distintos para o material reciclável e para o orgânico, além de compreender quais tipos de resíduos a coleta do bairro é capaz de absorver. Quando essa organização vira rotina, passamos a enxergar o lixo como resultado de escolhas", diz André Cutrim.

Sobre o consumo de água e luz, o especialista é direto: "Tratar água e energia como custos e não como detalhes passa por mudanças simples de hábitos, como prestar atenção ao tempo de uso e evitar desperdícios que não são percebidos. Prolongar o uso do que já se tem e fortalecer práticas de reaproveitamento envolve conservar melhor os objetos, reutilizar sempre que possível e consertar antes de descartar", finaliza.

Como colaborar com o meio ambiente

  • Separação: mantenha recipientes distintos para resíduos orgânicos e materiais recicláveis.
  • Redução: diminua o tempo de banho e racionalize o uso de luz para evitar desperdícios de recursos naturais.
  • Reaproveitamento: antes de descartar, verifique se o objeto pode ser consertado ou transformado em algo novo, como faz a orquestra.
  • Consumo: valorize produtos e serviços locais para reduzir a pegada ecológica e fortalecer a economia da sua comunidade.

Serviço: Orquestra Sustentável

Endereço: passagem Comendador Pinho, nº 55 - Sacramenta

Público-alvo: crianças a partir de 8 anos e jovens até os 18 anos

Contato: (91) 98195-4705 (Heraldo Santos)

Instagram: @orquestrasustentavel

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