No Dia dos Avós, família paraense celebra o amor construído pela convivência entre gerações

A história da família Silva e Picanço mostra como a convivência entre avós e netos fortalece vínculos, transmite valores e cria memórias que permanecem por toda a vida

O Liberal

Há relações que o tempo apenas fortalece. No Dia dos Avós, celebrado neste domingo (26), histórias como a da família Silva e Picanço mostram que o papel dos avós vai muito além do carinho. São eles que acolhem, aconselham, transmitem valores e ajudam a construir memórias que acompanham filhos e netos por toda a vida.

Na casa dos aposentados Ivanize Azevedo da Silva, de 79 anos, e José Guilherme da Silva, de 80, esse vínculo é vivido diariamente. Casados há 57 anos, eles compartilham não apenas uma história de companheirismo, mas também a missão de acompanhar de perto o crescimento das netas: Giovanna Christine Silva Picanço, de 22 anos, influenciadora digital e estudante de Medicina, e outra neta, de 12 anos, que mora em Aracaju (SE).

image No Dia dos Avós, família paraense celebra o amor construído pela convivência entre gerações. (Foto: Carmem Helena | O Liberal)

A proximidade com Giovanna começou ainda nos primeiros dias d​e vida da neta. Coincidentemente, foi justamente na época do nascimento dela que José Guilherme se aposentou. A nova fase permitiu que ele e a esposa participassem intensamente da infância da menina, enquanto a filha do casal, Josette Picanço, conciliava a maternidade com a rotina familiar. “Quando a Giovanna nasceu, eu estava deixando de trabalhar. O crescimento dela passou muito por nós dois. Nós a buscávamos no colégio, ela passava as tardes conosco. O primeiro banho de piscina que ela tomou na vida foi comigo. Ela é, e sempre foi, como se fosse nossa própria filha”, relembra José Guilherme.

Além da convivência diária, Ivanize e José Guilherme assumiram outro papel importante ao serem escolhidos como padrinhos de batismo da neta, fortalecendo ainda mais uma relação construída sobre confiança, cuidado e presença.

Para Giovanna, o carinho recebido dos avós ajudou a moldar quem ela é hoje. Ela afirma que a influência do casal vai muito além das lembranças da infância e está presente na maneira como enxerga o mundo. "Eu sempre falo que muito de quem eu sou é por causa dos meus pais, mas também por causa deles dois. Tanto de gostos quanto de espírito, de caráter. Esse meu jeito falante, brincalhão, puxei do vovô. O jeito vaidoso puxei da vovó. A gente é o que é por conta da base que a nossa família dá", afirma.

A convivência diária também despertou interesses que Giovanna leva para a vida. Foi com José Guilherme que ela descobriu o gosto pelo cinema clássico, pela música erudita e pelas histórias contadas por meio da arte. “Desde pequena, o vovô me incentivava para assistir aos grandes filmes, aos bons filmes que tinham uma mensagem. Ele sempre me dizia: 'Minha filha, um grande filme tem uma grande trilha sonora'. Até hoje eu levo isso comigo para todo canto. Eu gosto de música clássica por causa dele, gosto de ter essa diversidade cultural por conta de tudo que ele me ensinou”, conta.

Se o avô despertou o interesse pelas artes, Ivanize ensinou outra forma de olhar para a vida. Curiosamente, ela afirma que também aprendeu muito com a neta. “A juventude tem uma visão mais suave das coisas. Aprendi com ela a ser menos exigente, a procurar ser mais leve. O tempo muda e a gente não pode colocar uma viseira achando que a nossa verdade é única. A gente precisa analisar, filtrar e buscar o melhor para todos”, diz.

Ao refletir sobre o legado que procura deixar para as novas gerações, Ivanize acredita que as maiores lições são transmitidas pelo exemplo. “Mais do que dizer 'faça isso ou aquilo', o que vale é a postura. Ensinamos sobre caráter, conduta, honestidade, amor e, no topo de tudo, a gratidão”, afirma.

O carinho e a proteção do avô também aparecem em momentos descontraídos. Entre risos, Giovanna conta que José Guilherme costuma dizer que ninguém “brinca com a neta dele”. “O vovô sempre diz que 'não brinca com a neta dele'. Se alguém mexer comigo, ele vira uma onça. É como pisar no calo dele”, brinca.

image No Dia dos Avós, família paraense celebra o amor construído pela convivência entre gerações. (Foto: Carmem Helena | O Liberal)

Outro hábito que une a família são as viagens. Ivanize e José Guilherme mantêm o espírito aventureiro e costumam conhecer novos destinos ao lado da neta. Uma das lembranças mais marcantes foi uma viagem pela Europa, passando por cinco países, quando realizaram o sonho de conhecer o Mont Saint-Michel, na França. “A gente fez uma viagem inesquecível. Eles, com 80 anos, tinham mais pique do que eu e meu namorado juntos. No meio do passeio, o vovô se ajoelhou e pediu a vovó em casamento de novo, em público. Foi uma cena hilária e linda. O pessoal até me pergunta no Instagram como eles conseguem ter esse espírito de vida tão inspirador”, relembra Giovanna.

Para Josette Picanço, acompanhar a relação construída entre os pais e a filha é motivo de profunda gratidão. “Só tenho a agradecer a Deus por ter pais e avós tão presentes e maravilhosos. O maior bem que eles transmitiram para a Giovanna e para mim é a essência do amor, da fé, da lealdade e da humildade. Ter esse porto seguro faz toda a diferença na nossa vida”, reconhece.

Embora as viagens ocupem um lugar especial na memória da família, Giovanna diz que os momentos mais preciosos continuam sendo os mais simples: o café da tarde, as refeições em família sem celulares sobre a mesa e as longas conversas conduzidas pelo avô. “A gente precisa aprender a romantizar a vida nos pequenos momentos. Não precisa de um grande evento. É um café da tarde juntos, um almoço em que o vovô diz: 'Senta aqui com seu avô para conversar' e manda todo mundo guardar o celular. Cada segundo ao lado deles é inestimável”, declara.

Ao falar sobre os avós, Giovanna resume o sentimento em poucas palavras. “Para mim, os avós tinham que ser eternos. Não consigo imaginar a minha vida sem eles. Tento aproveitar ao máximo todo o tempo que tenho com eles. A maior riqueza que a gente tem é esse amor que o dinheiro não pode comprar”, afirma.

Especialista destaca os benefícios da convivência entre diferentes gerações

Além do carinho e dos mimos, a convivência entre avós e netos desempenha um papel importante no desenvolvimento emocional das crianças e também na qualidade de vida dos idosos. Segundo a psicóloga clínica e gestalt-terapeuta Luciana Pinto de Souza Castelo Branco, a troca entre gerações fortalece os vínculos familiares, amplia o sentimento de pertencimento e favorece o bem-estar de todos os envolvidos.

De acordo com a especialista, os avós costumam estabelecer uma relação mais lúdica com os netos, característica que contribui diretamente para o desenvolvimento infantil. Ela explica que o brincar é uma das poucas atividades realizadas pela criança apenas pelo prazer de brincar, sem objetivos ou cobranças, tornando esse momento fundamental para o crescimento emocional. “Os avós costumam ter uma interação mais lúdica com seus netos. O brincar é uma atividade sem um objetivo e uma das poucas atividades que a criança faz por mero prazer. Isso os avós podem trazer na convivência com os netos”, afirma.

Os benefícios dessa convivência, no entanto, não se restringem às crianças. Luciana ressalta que os idosos também são favorecidos pela interação frequente com os netos. Além de estimular uma rotina mais ativa fisicamente, as brincadeiras contribuem para o funcionamento cerebral e despertam sentimentos positivos. “Ao trocar com seus netos, os avós podem acabar se movimentando mais fisicamente, o que ajuda muito no combate ao sedentarismo. O brincar também ativa áreas do cérebro que poderiam estar inativas, trazendo mais bem-estar. Além disso, as brincadeiras despertam a criança interna que todos nós temos, de forma saudável e lúdica, gerando prazer”, explica.

A psicóloga também destaca que a presença dos avós pode fortalecer a relação entre os pais. Para ela, deixar os filhos sob os cuidados dos avós, quando existe uma relação de confiança, permite que o casal tenha momentos de convivência a dois, fundamentais para manter uma relação afetiva saudável. “É importante que o casal possa manter um momento só deles dentro da rotina. Quando isso não é possível no dia a dia, deixar os filhos com os avós pode ajudar o casal a se reconectar. O bem-estar da relação entre os pais beneficia diretamente toda a estrutura familiar e, consequentemente, os filhos”, observa.

image No Dia dos Avós, família paraense celebra o amor construído pela convivência entre gerações. (Foto: Carmem Helena | O Liberal)

Aprendizado acontece dos dois lados

Na avaliação da especialista, a convivência entre avós e netos também representa uma permanente troca de conhecimentos. Enquanto os mais velhos compartilham experiências acumuladas ao longo da vida, os mais jovens apresentam novas formas de enxergar o mundo e ajudam os avós a acompanhar as transformações da sociedade. “Os aprendizados são uma via de mão dupla. Os avós transmitem sua sabedoria e os netos trazem um sopro de juventude e inovação. Hoje é muito comum ver netos ensinando os avós a utilizar recursos tecnológicos, por exemplo”, afirma.

Apesar das diferenças naturais entre as gerações, Luciana ressalta que o diálogo continua sendo o principal caminho para uma convivência harmoniosa. Segundo ela, os avós precisam estar dispostos a ouvir as novas gerações sem julgamentos, enquanto os netos também devem valorizar a experiência de vida dos mais velhos. “Existe o chamado choque de gerações, mas o mais importante é o diálogo. Os adultos precisam escutar os jovens com abertura, entendendo que o mundo mudou. Ao mesmo tempo, os jovens também precisam ter paciência para ouvir os mais velhos, porque existem valores e aprendizados que atravessam gerações e permanecem atuais”, destaca.

Para fortalecer esses laços, a psicóloga recomenda que as famílias estabeleçam momentos regulares de convivência, transformando-os em uma tradição familiar capaz de criar memórias afetivas. “A sugestão é reservar pelo menos um dia por semana, ou a cada quinze dias, para reunir a família. Aqueles almoços de domingo na casa da avó são um bom exemplo. Quando esses encontros se tornam uma tradição, fortalecem os vínculos familiares e criam lembranças que acompanham as pessoas por toda a vida”, defende.

Luciana também chama atenção para a necessidade de valorizar não apenas os avós, mas os idosos de forma geral. Para ela, em uma sociedade que frequentemente exalta a juventude, promover o encontro entre diferentes gerações é uma forma de preservar experiências e ampliar os aprendizados. “A troca entre pessoas de diferentes gerações é extremamente rica quando existe disponibilidade para ouvir sem preconceitos. Os mais velhos carregam algo de muito valor, que é a experiência de vida, e costumam enxergar os desafios sob outra perspectiva. Essa convivência beneficia todos os envolvidos”, finaliza.

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