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Mulheres trans encaram desafio duplo em Belém: o preconceito e a pandemia

A redação integrada de O Liberal ouviu o que pensam três cidadãs acolhidas em um abrigo público: o respeito é a saída

Eduardo Rocha e Sidney Oliveira

Se viver nas ruas já é uma experiência dolorosa para muitos cidadãos e cidadãs, imagine como é esse desafio para quem sofre todo tipo de preconceito, como é o caso de mulheres trans. Para acolhê-las, o governo do Estado organizou abrigos temporários para pessoas em situação de rua. São esforços de proteção pelos riscos ampliados no contexto do novo coronavírus, focado em cidadãs trans de diferentes idades.

Em um desses abrigos, cinco mulheres trans são assistidas com os serviços, mobilizando técnicos de órgãos da Prefeitura de Belém e também do Estado, incluindo a Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) e da Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda (Seaster).

Contra agressões e vulnerabilidade ao vírus: acolhimento fora das ruas protege cidadãs (Sidney Oliveira)

'Nenhuma barreira é maior que a do preconceito'


Heloá Pimentel, 37 anos, diz que no abrigo recebeu ajuda nos aspectos psicológico e físico. Tudo isso para construir um foco de apoio próprio e a retomada de planos futuros, com novas possibilidades para fortalecimento financeiro e moral. Porém, ela ressalta: nenhum desafio a ser vencido por uma mulher trans é  maior que o do preconceito. "Às vezes, você é capaz de fazer aquela coisa, mas existe aquele preconceito que te impede, igual quase às mulheres. Tem trabalhos que mulheres podem fazer mas os homens, com o machismo, discriminam", pondera Heloá.

 "Às vezes, você é capaz de fazer aquela coisa, mas existe aquele preconceito que te impede, igual quase às mulheres. Tem trabalhos que mulheres podem fazer mas os homens, com o machismo, discriminam", pondera Heloá

Heloá Pimentel: na pandemia, prova de força e luta diária testados aos limites máximos (Sidney Oliveira)

Sthefany dos Santos Vilhena, 22 anos, está abrigada há dois meses e diz que essa tem sido uma boa experiência. Isso porque, antes, sofria agressões físicas e verbais na rua, precisamente na avenida Presidente Vargas onde ficava.

Longe da família há cerca de um ano, ela foi para a rua por iniciativa própria, sem problemas em casa. "Quando sair daqui, do abrigo, quero com fé e esperança seguir em frente, correr atrás do tempo perdido, conseguir ser uma pessoa melhor, conseguir mudar, mostrar para algumas pessoas que te viram lá embaixo que você não é isso, que você é uma pessoa melhor", afirma, esperançosa.

Sthefany dos Santos Vilhena, 22 anos, abrigada há dois meses, diz que essa tem sido uma boa experiência. Antes, sofria agressões físicas e verbais na rua, precisamente na avenida Presidente Vargas onde ficava. "Quando sair daqui, do abrigo, quero com fé e esperança seguir em frente, correr atrás do tempo perdido, conseguir ser uma pessoa melhor. Mostrar para algumas pessoas que te viram lá embaixo que você não é isso, que você é uma pessoa melhor"

Sthefany Vilhena: rotina de agressões na rua só cessaram no abrigo  (Sidney Oliveira)

Thayla Freitas, 29 anos, mora na rua há sete anos. Ela não tem relação com a família e relata que foi morar na rua motivada pela liberdade. Soube, por meio de um amigo, do "abrigo do governo".

"Esses meses que estou aqui têm sido os melhores dias da minha vida. Eu precisava de quem confiasse na gente, que nos desse uma oportunidade. E é aqui que a gente está encontrando isso.Estamos tendo uma visão diferente, porque a gente só queria saber de rua, do vício, e aqui a gente está tendo uma outra visão, com as pessoas que nos têm ajudado bastante psicologicamente", pondera Thayla.

Ela, que já obteve seus documentos no abrigo, também observa outro grande desafio de uma mulher trans: superar o autopreconceito. "Se nós tivermos preconceito com nós mesmos, nós não conseguimos seguir", reitera. Ela tem como metas obter um trabalho e um lugar para morar.

Thayla já obteve seus documentos no abrigo. Para ela, há outro grande desafio de uma mulher trans: superar o autopreconceito. "Se nós tivermos preconceito com nós mesmos, nós não conseguimos seguir", reitera. Ela tem como metas obter um trabalho e um lugar para morar

Thayla Freitas: é preciso força contra o autopreconceito (Sidney Oliveira / O Liberal)

Ainda em maio, as mulheres trans do abrigo do governo visitado pela redação integrada de O Liberal receberam a visita de Lana Larrá. Com 26 anos, Lana é conhecida ativista da causa LGBTI+. Teve de sair de casa aos 14 anos de idade, por ser homoafetiva. Morou na Praça da República, onde pediu dinheiro para comer, passava fome e frio. Lana mora hoje em uma casa alugada e, ainda que desempregada, leva a vida com a ajuda dos amigos e solidariedade das pessoas em geral.

O maior desafio é o pagamento do aluguel. A travesti observa que 95% das pessoas trans são levadas à prostituição para sobreviver, dada a discriminação que sofrem. "As pessoas trans não são contratadas para trabalhar no mercado formal", assinala. "Se viver sem um teto, é muito difícil, e muito mais na pandemia". Para Lana, políticas públicas, inclusive, de empregabilidade, e educação inclusiva, são ações necessárias para com as pessoas trans, defende Lana.

"As pessoas trans não são contratadas para trabalhar no mercado formal. Se viver sem um teto, é muito difícil, e muito mais na pandemia". Políticas públicas, inclusive, de empregabilidade, e educação inclusiva, são ações necessárias para com as pessoas trans defende Lana Larrá

Autocuidado como elo central do acolhimento


"As mulheres trans sofrem muita discriminação na sociedade. Algumas são expulsas de casa pelas famílias e acabam indo viver nas ruas. A partir daí são dois estigmas, o de ser trans e o de estar em situação de rua. As oportunidades são mais difíceis", pontua Isabela Negrão, terapeuta ocupacional e assessora da Referência técnica de saúde mental, álcool e outras drogas da Sesma.

"Elas não conseguem terminar os estudos, não conseguem emprego e muitas têm que se prostituir para sobreviver. Nessa vivência o abuso de álcool e outras drogas é frequente, gerando dependência e outros adoecimentos físicos e mentais", destaca a terapeuta. "A pandemia agravou a situação de vulnerabilidade social em que vivem essas mulheres, algumas perderam o seu trabalho e fonte de renda há um ano e meio e não conseguiram mais se reerguer".

Assim, profissionais em saúde mental desenvolvem, nessa frente de atendimento, um trabalho para diminuir as tensões no ambiente do abrigo, amenizar os impactos emocionais do confinamento, evitar possíveis crises psicóticas e de abstinência de drogas, e valorizar os saberes e a história de vida dos abrigados. Tudo isso com a ajuda de atividades de grupo, de educação em saúde, de palestras, educação física, yoga e relaxamento, atividades lúdicas, oficinas de artesanato e reciclagem, grupos de autocuidado, atendimentos psicológico e outros.

Abrigadas, Sthefany, Heloá, e Thayla sonham com novas oportunidades para breve (Sidney Oliveira)

Atendimentos envolvem centenas na pandemia


De acordo com a Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda (Seaster), um total de 350 pessoas já foram acolhidas nos abrigos emergenciais apenas neste ano. Deste total, 90 pessoas permanecem nos locais.

Do total de pessoas acolhidas, atualmente, cinco são mulheres trans. Os acolhidos recebem, diariamente, atendimento e acompanhamento médico, psicossocial e nutricional, além de participarem de atividades de lazer e entretenimento.

Os abrigos emergenciais para pessoas em situação de rua foram abertos pelo governo do Estado ainda no primeiro ano de pandemia, em março de 2020. Eles foram retomados, em março deste ano, em duas Escolas Estaduais: Jarbas Passarinho e Dom Pedro II. Aproximadamente 1.000 pessoas já foram atendidas ao longo desse período nesses locais.

Belém
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