Memes ajudam a amenizar tristezas durante a pandemia

Criadores de conteúdo humorístico para a web expressam o sentimento coletivo diante do período atípico em função da covid-19

João Thiago Dias

Seja por meio de imagens, GIFs ou vídeos de humor, os memes tomam conta das redes sociais há um bom tempo com expressivos números de curtidas e compartilhamentos. Essa diversão ganhou significado especial para muitos internautas durante a pandemia da covid-19, tendo em vista que é uma possibilidade de amenizar as angústias e tristezas com descontração e sorrisos.

Para o produtor de audiovisual Hélio Oliveira, 30, de Belém, compartilhar uma mensagem pautada no humor é hobby. Ele coloca em prática na fanpage "Panelinha 2.0", administrada por ele e mais quatro amigos com foco em memes regionais. Além disso, é o criador do canal no Youtube e da Fanpage "SucuriTube", que abordam o humor da cultura paraense e da periferia brasileira.

"Assim como sou criador, também gosto de acompanhar. Antes e durante a pandemia, pessoas com sintomas de depressão nos agradecem porque conseguiram sorrir com as postagens. Mas temos que tomar cuidado, porque tem gente que confunde conteúdo de humor com discurso de ódio. Pode entender de forma errada", ponderou.

O funcionário público Bill Wanzeler, 36, também de Belém, utiliza o tempo livre para produzir humor para a fanpage dele, "Malaco Intelectual", que prioriza memes do Pará. "O mundo anda triste demais com a pandemia, muita gente sofrendo com a perda de pessoas próximas. Um sorriso que consigo promover em qualquer lugar do Brasil, já me deixa bastante feliz", disse.

Bill Wanzeler, de Belém, criador e administrador da fanpage de humor Malaco Intelectual (Arquivo pessoal)

Mesmo assim, ele sentiu dificuldade para focar na diversão diante de um período tão conturbado. "Foi mais difícil que o normal, pois nada positivo estava acontecendo na pandemia para que gerasse algum meme que desse para ser difundido amplamente e que gerasse positividade e risos nos seguidores", relatou.

Engajamento

O meme é pautado no engajamento e permite maior visibilidade para um tema, uma situação do cotidiano, uma crítica social, política ou até mesmo para gozação, conforme explicou o doutorando em Cibercultura e Informação Mário Camarão, que é coordenador de curso de Comunicação da Universidade da Amazônia (Unama).

"Seguem a premissa da zoeira em sua maior parte. Brincar com a realidade, frases célebres ditas por pessoas famosas e anônimas, políticos e artistas, é que motiva o compartilhamento e produção dessa indústria. Observamos que o Brasil é um dos países que mais recorre aos memes como prática de produção de conteúdos e compartilhamentos digitais", observou Mário.

"No Pará, observamos uma produção maior de memes relacionados a hábitos e costumes culturais. Tanto em relação ao comportamento do paraense diante da vida quanto ao falar paraense e aos hábitos gastronômicos. Quem nunca compartilhou aquele meme de fartura de açaí na vida do paraense?", questionou.

Ele avalia que, em tempos de isolamento social e pandemia, os memes comunicam, sim, mensagens das mais diversas ordens e pautadas no entretenimento. Porém não deve-se ignorar o caráter prejudicial quando reforçam a cultura do ódio, misoginia, sexismo, preconceito, intolerância religiosa e briga polarizada política.

"Observamos um acirramento nessa produção com fins de desqualificar, constranger e ameaçar o outro. Seja pelo time de futebol ou crença religiosa. Não devemos esquecer que o espaço digital não está impune à lei. A delegacia de crimes virtuais é o espaço para se denunciar um meme que cause constrangimento legal na vida de alguém", reforçou Mário Camarão.

Comportamento

A psicóloga Roberta Flores, de Belém, disse que meme tem potencial interessante porque, pela via da ironia ou do humor, pode desconstruir algumas questões, servindo até como crítica e reflexão. "Por meio de uma situação repassada de maneira debochada, é produzido entretenimento e diversão, que pode distrair e ajudar no isolamento", frisou.

"Mas isso não prescinde o cuidado recomendado. Em alguns momentos, o mote de produção pode ter cunho de preconceito. É importante ter cuidado ao comentar ou compartilhar, verificando o teor da piada, que pode incitar processos de gordofobia, homofobia etc ou se produzir, mesmo que velado, conteúdo de violência, de gênero e outros", concluiu a psicóloga.

Belém
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