Ligações insistentes: saiba o que fazer em casos de chamadas indesejáveis e golpes por telefone
O advogado Marcos Pereira, especialista em Direito Criminal, explica que, ao atender ligações de números desconhecidos, a vítima já passa uma informação crucial — de que a linha está ativa e pode ser contactada
Ligações insistentes e golpes por telefone seguem presentes no dia a dia dos brasileiros, mesmo com aplicativos e ferramentas de bloqueio. Sejam chamadas de telemarketing — para ofertar produtos — ou de golpistas — alegando compras e transferências em valores altos — os aparelhos celulares tocam a todo momento. Por isso, Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e empresas de telefonia têm investido em novas tecnologias que auxiliam na identificação de chamadas legítimas e como bloqueadores de ações abusivas e/ou criminosas.
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O advogado Marcos Pereira, especialista em Direito Criminal, alerta que há cinco tipos de falsificações mais comuns nos contatos via telefone: central de atendimento, que informa sobre compra suspeita e conduz a vítima a transferir valores; gerente de banco, que pede instalação de aplicativo para solucionar problemas; parente ou WhatsApp clonado, que solicita envio rápido de dinheiro; empréstimo consignado, que solicita taxas antecipadas; e entrega, leilão ou pendência com órgão público, que solicita pagamento. Além disso, Marcos ressalta que chamadas de poucos segundos, que apenas tocam, são feitas como parte de uma triagem, para avaliar se a linha está ativa.
Moradores de Belém sofrem com as chamadas
A técnica de enfermagem e vendedora Francilaura Aguiar relata que recebe ligações a cada hora, principalmente de contatos desconhecidos, operadoras de telefone e supostos bancos. “É uma perturbação”, fala. Certa vez, ela quase caiu em um golpe, no qual os criminosos se passaram por funcionários da Caixa Econômica Federal.
“Me ligaram e falaram que eu tinha ganhado um prêmio no meu aplicativo. Deram todas as minhas informações. Eles disseram: ‘Olha, você vai agora na Caixa Econômica para resgatrar seu prêmio’. Eu peguei a bicileta e fui. Chegando lá, eles queriam que eu digitasse a minha senha. Meu marido, na mesma hora, me ligou e eu contei. Ele disse: ‘Não, desliga o teu telefone’”, relata.
Assim como a técnica de enfermagem, o vendedor Vinícius Lima afirma que as principais ligações recebidas são de supostos bancos e operadoras. Segundo o jovem, mesmo com o bloqueio, os criminosos que aplicam golpes e agentes de telemarketing seguem entrando em contato por meio de outros números. Ao notar que uma chamada é suspeita, logo Vinícius desliga e restringe o contato.
“Olha, às vezes [as ligações] são de 15 em 15 minutos. Mesmo a gente bloqueando esses números, a gente recebe várias e várias ligações dessas pessoas. A gente vê nas redes sociais e na internet que muitas pessoas, infelizmente, caem nesse tipoo de golpe, dessas pessoas se passando por empresas”, diz.
Com a bancária Danielle Barros a situação não é diferente. Ao receber as chamadas, que em maioria são de operadoras de telefone, ela desliga e bloqueia o número. Entretanto, tal qual com Vinícius, as ligações são insistentes por meio de outros contatos.
“Eu conheço pessoas que recebem esse tipo de golpe e caem muito, por sinal. Às vezes, eu perco a conta [de quantas ligações]. É sempre isso. Se a gente recusar uma, vem logo outra. É uma atrás da outra, porque são vários números que eles usam”, fala.
Como identificar um golpe
O advogado Marcos Pereira explica que a diferença entre uma chamada legítima e uma que leva a um golpe ou prática abusiva está no que é pedido pela pessoa do outro lado da linha. O especialista comenta que não é possível confiar no número que aparece na tela, visto que a Anatel parou de exigir o prefixo 0303 em ligações de telemarketing desde agosto de 2025.
“O número pode ser falsificado e a identificação visual ficou mais frágil. A agência hoje aposta na tecnologia de ‘Origem Verificada’, que mostra nome, logotipo e motivo da chamada, mas ela depende de aparelho e redes compatíveis”, alerta.
Marcos afirma que três sinais são muito comuns na maioria dos golpes: pressa, pedido de dado que a instituição deveria possuir e ordem para transferir valores a uma “conta segura”. “’Conta segura’ não existe, é frase de golpista. O teste é simples e nunca falha: desligue e ligue você mesmo para o número oficial, o do verso do cartão ou do aplicativo. Nenhum golpista sobrevive a esse teste, porque ele precisa que você continue na linha dele”, ensina.
Riscos de atender chamadas insistentes
Ao atender uma chamada suspeita, a informação de que a linha está ativa e com um usuário já é fornecida para quem liga. Marcos fala que, no mercado de listas, isso já se torna dinheiro.
No decorrer da ligação, enquanto coleta dados aos poucos, o golpista monta um tipo de quebra-cabeça, com tudo que precisa para se passar por contatos oficiais: “Cada resposta é uma peça. Quando ele liga de novo, às vezes dias depois, já sabe o suficiente para parecer o banco.”
“Há hoje o risco crescente do uso da gravação de voz. Ferramentas de clonagem por inetligência artificial precisam de poucos segundos de áudio paragerar uma chamada falsa em nome da vítima, dirigida a um parente”, exemplifica.
Marcos Pereira ressalta que a maioria dos golpes inicia com vazamento de dados pessoais, considerado tratamento ilícito de informação. O advogado aponta que, conforme a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei Nº 13.709/2018), quem falhou na guarda do dado deve ser responsabilizado.
Como denunciar e se proteger de chamadas indesejadas
As denúncias de ligações indesejadas devem ser feitas pelos canais oficiais da Anatel: aplicativo Anatel Consumidor; site; e número 1331, em dias úteis de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h. Ademais, a vítima também pode denunciar presencialmente nas capitais dos estados brasileiros. Em Belém, a sede da agência fica na travessa Rosa Moreira, número 476, bairro do Telégrafo e o atendimento ocorre em dias úteis de segunda a sexta-feira, das 9h Às 17h.
Para tentar previnir o contato insistente de telemarketing ou de supostos golpistas, ferramentas de bloqueio podem ser adotadas. O Governo Federal disponibiliza a plataforma Não Me Perturbe, na qual o usuário pode cadastrar o número de telefone e bloquear instituições financeiras e de telecomunicações. O bloqueio manual de chamadas desconhecidas também é uma alternativa.
As chamadas de spam podem ser evitadas antes mesmo que o contato ocorra. Em dispositivos Android, o usuário deve abrir o aplicativo Telefone, clicar nos três traços ou pontos presentes na parte superior da tela, ir para Configurações e acessar o Identificador de Chamadas e Spam, ativando as opções presentes. Para usuários de iOS, é preciso ir no aplicativo Ajustes, buscar pelo aplicativo Telefone e rolar até a opção de Filtrar Números Desconhecidos — nesse ponto, o portador do celular pode escolher entre Perguntar Motivo da Ligação e Silenciar.
O que fazer ao cair em um golpe
O especialista lista cinco passos importantes para seguir logo após notar que caiu em um golpe. Marcos alerta que “o relógio é o que decide se o dinheiro volta” — ou seja, quanto antes agir, melhor.
- Ligar imediamente ao banco e solicitar registro formal da contestação. Em casos de PIX, o instrumento é o Mecanismo Especial de Devolução (MED), do Banco Central. O prazo para registro é de até 80 dias corridos, mas a devolução depende se ainda há saldo na conta receptora.
- Registrar boletim de ocorrência, de forma presencial ou por meio da delegacia virtual
- Anotar e guardar o número que ligou, horário da chamada, capturas de tela que comprovem o ocorrido e número de protocolo dos atendimentos bancários
- Alterar as senhas e revisar dispositivos autorizados no aplicativo, sinalizando a operadora em caso de suspeita de clonagem de chip
- Registrar a reclamação no Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) e no site consumidor.gov.br. Em situações nas quais a origem for chamada telefônica, fazer o mesmo na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel)
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